Saúde

20 de outubro de 2018 12:05

“Devemos respeitar o limite da criança”

Conversas sobre sexo e respostas sobre dúvidas, segundo psicólogas, devem ser simples, objetivas e na linguagem infantil

↑ Psicóloga Raquel Teovati: adultos devem responder as perguntas na hora (Foto: Arquivo pessoal)

Uma dúvida que assombra muitas famílias é o que fazer diante de uma pergunta “incomum” por parte das crianças, principalmente quando o tema é sexualidade. Diante disso, a reportagem da Tribuna Independente ouviu duas psicólogas especializadas no atendimento infantil para explicar como os pais e responsáveis devem reagir e conduzir a situação da maneira mais benéfica para os pequenos.

Segundo a psicóloga Solange Guastaferro, existe um limite para a quantidade e a forma da informação, é preciso “respeitar o limite da criança”, aponta a especialista.

“Não adianta a gente querer dificultar. A criança vai trazendo as dúvidas e a gente vai tirando, não adianta a gente falar o que a criança não vai entender. Então tem que partir da criança para a gente começar a falar. Que existem diferença entre meninos e meninos… Isso deve ser falado sempre na linguagem da criança. Porque não adianta a gente querer antecipar e dizer o que a criança não está pronto para ouvir. Devemos respeitar o limite da criança. É sempre na linguagem infantil”, afirma Solange.

A também psicóloga Raquel Teovati explica que a “regra de ouro” é não ir além.  Os adultos podem e devem responder as perguntas, mas somente o que foi perguntado. Não se deve inventar estórias, mentir ou fugir do assunto.

“A princípio qualquer conversa precisa responder apenas o que a criança perguntou. Quando a criança pergunta por onde nasceu, muitas vezes causa certo constrangimento, mas o adulto deve se ater a responder apenas aquilo que a criança questionou. Você vai responder somente a pergunta, não precisa ir além. Não precisa fazer aquela explicação teórica ou tradicional. Se ela perguntar: Por onde eu nasci? Você vai dizer que ela nasceu de tal forma e que existem duas formas o parto cesáreo e o normal, respondeu. Ali ela vai estancar a dúvida. Mas ela pode voltar a perguntar se ela perceber que você mentiu, ou está enrolando. Quando mais sincero e objetivo você for, melhor. Não adianta ir para termos muito científicos ou criar estórias mirabolantes como a cegonha ou o repolho, como contavam antigamente”.

Raquel diz ainda que não existe uma idade certa para que as famílias comecem a responder os questionamentos. E que as dúvidas dependem muito do contexto no qual a criança está inserida.

“As dúvidas dependem de criança para criança. Vai depender muito do ambiente em que a criança está inserida. Se o ambiente que a criança está inserida, a família for mais liberal, onde as conversas entre os adultos não é vedado nada à criança, onde elas participam ou presenciam diálogos com esse viés, que leve para a sexualidade, ela obviamente vai ficar mais curiosa e perguntar mais cedo. Famílias que tem o cuidado ou o receio de tocar neste assunto, a criança pode demorar mais a questionar, isso pode ficar um pouco mais longe, o despertar”, pontua.

Segundo Solange o importante é deixar claro para a criança, independente da idade, o que é certo e o que é errado.

“A primeira infância vai até os sete anos, a partir daí essa questão fica um pouco sublimada, até os 11 anos. É aquela fase em que a criança foca mais na escola… tem o clube do bolinha, clube da Luluzinha, e a criança perde um pouco o interesse na questão a descoberta. Nesta fase, com a criança um pouco maior, quando ela chega em casa com algo, com uma pergunta, devemos responder com clareza e explicar o que é certo o que é errado”, explica Solange.

Raquel ressalta que as dúvidas começam muito cedo e envolvem as diferenças entre meninos e meninas, por exemplo. E não devem ser encaradas como algo grave.

“Os questionamentos começam de uma forma muito sutil, entre as questões de menino e menina, por exemplo. Normalmente a pessoa que cuida fala isso é de menina, ou de menino. Com certo preconceito até em relação a cores, em termos de brincadeiras, que para a criança não faz muita diferença, mas já faz com que ela vá formando uma identificação do seu próprio corpo. Na escola quando ela se depara com crianças do sexo oposto ela vai se questionar, porque um faz xixi em pé e o outro sentado, por exemplo. Porque alguém usa brinco e outro não”, reforça Raquel.

Educação sexual deve ser ensinada em casa

a os adultos precisam entender que a criança tem uma perspectiva diferente, e é por esta perspectiva, a das crianças, que as conversas precisam ser baseadas.

“É uma linha muito delicada, você não pode falar que é feio, nojento, que não presta, porque pode acabar criando uma série de traumas na parte sexual. Você tem que falar que a criança não tem idade para isso. A criança não tem malícia. Quem tem malícia somos nós, por isso devemos orientar. O adulto pensa que se a criança chega em casa dizendo que viu o coleguinha sem roupa, se o pai ou a mãe fizer um escândalo por exemplo, ou a criança vai se reprimir ou não vai falar mais nada, O assunto precisa ser encarado e explicar que a criança não tem idade para isso, que isso não pode acontecer. O pai tem que falar que a criança não pode olhar, mexer, que tem que dizer um adulto, que cada um tem o seu. A criança é muito inocente, se os pais assustarem a criança pode criar um bloqueio”

Para Guastaferro, os pais são os maiores responsáveis pelas informações que chegam à criança. Ela defende que a educação sexual deve ser ensinada em casa, como um papel da família.

“Isso deve ser ensinado em casa, os pais devem ter abertura para isso. Porque na escola, muitas vezes, a gente se preocupa como isso vai ser passado. Particularmente eu não concordo com isso… Eu acho que a orientação sexual deve vir na adolescência, quando o adolescente começar a se descobrir. Isso só vai ser definido na adolescência, enquanto é criança a gente deve orientar. É preciso respeitar o desenvolvimento da criança, mediante a fase dela. A primeira orientação é dentro de casa, de falar a verdade e na linguagem da criança, para que não surja algo na escola de um jeito, a criança falar de outro, isso depende da visão do professor. E sendo em casa vai ser passado como funciona em sua casa, segundo os valores da família”, destaca.

A orientação é dialogar e preparar a criança para a realidade. Segundo Raquel, informações que antigamente demoravam a chegar ao conhecimento das crianças, hoje precisam ser antecipadas para evitar problemas maiores como abuso ou vulnerabilidade.

“O que acontece é que a gente acaba tendo que antecipar esse tipo de informação para prevenir a criança. Num vídeo que circula nas redes sociais uma criança está na sessão de iogurtes, um pouco distante da mãe e um senhor de idade chega e manipula os órgãos sexuais, uma coisa muito rápida. Aí se pensa: Não se pode deixar uma criança sozinha nem um minuto? Daí vem a questão de se antecipar ao risco, de orientar que o corpinho da criança deve ser cuidado. Algumas informações que antigamente não se diziam antes dos 15 anos hoje precisam ser antecipadas, de uma forma cuidadosa, tranquila, com serenidade, para que a criança saiba que certas coisas não devem acontecer. São informações necessárias e que a família precisa passar. São informações importantes que envolvem até outras questões, como dar informações pessoais a estranhos, são coisas que no tempo em que vivemos são importantes de serem passadas”, destaca Raquel.

Fonte: Evellyn Pimentel / Tribuna Independente

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