Política

Bastidores das eleições no sertão: Prorrogação inesperada e pós-verdade marcam o segundo turno

Fiscalização no Alto Sertão de Alagoas revela dinâmicas de comparecimento e debate técnico sobre o fechamento das urnas após decisão judicial de última hora

Por Tribuna Hoje 06/11/2026 13h39
Bastidores das eleições no sertão: Prorrogação inesperada e pós-verdade marcam o segundo turno
Frederico Alves Monteiro Pereira - Promotor de Justiça de Delmiro Gouveia - Foto: Divulgação

O segundo turno das eleições no Alto Sertão de Alagoas foi marcado por um clima de tranquilidade inicial nas seções, seguido por surpresas jurídicas e operacionais no encerramento da votação. A fiscalização realizada pela 39ª Zona Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral (TRE/AL), acompanhada de perto pelo Ministério Público, registrou um aumento de comparecimento de eleitores que haviam faltado ao primeiro turno, estimado entre 6% e 8%.

O monitoramento, que abrangeu os municípios de Água Branca, Pariconha e Inhapi, transcorreu sob forte calor de 40 ºC e sem o registro de filas expressivas. O Promotor de Justiça Frederico Alves Monteiro Pereira relatou a percepção inicial durante a vistoria: “Nessa calorenta festa da democracia, logo percebemos dois fatos: quase não existiam filas e o quantitativo de pessoas que não votaram no primeiro e estavam votando no segundo turno era considerável”.

Desafio operacional e inexequibilidade


Contudo, o cenário de normalidade foi alterado por volta das 17h, quando uma decisão judicial superior determinou a extensão do horário de votação até as 19h. Diante do comando de prorrogação recebido no momento em que os trabalhos locais se encerravam, a equipe avaliou a viabilidade da medida.
“Fizemos uma catarse científica, passando pelos planos da existência, validade e eficácia do ato jurídico, ocasião em que o juiz eleitoral corretamente entendeu pela inexequibilidade do comando judicial supremo; afinal de contas, já passava um pouco das cinco horas da tarde e as equipes de mesários estavam absolutamente treinadas para emitir britanicamente o boletim de urna”, explicou o promotor.

Segurança das urnas e o fenômeno da pós-verdade


A condução do pleito também reforçou o debate sobre a integridade do sistema eletrônico de votação, utilizado no Brasil há quase 30 anos. Pereira defendeu a confiabilidade do processo, lembrando que os equipamentos passam por testes públicos rigorosos abertos a universidades, partidos políticos, OAB e CGU. “Os apontamentos feitos desde então NUNCA comprometeram a votação ou o sigilo do seu voto. Resumiram-se a frivolidades que foram sanadas de imediato pelo TSE. O problema não seria este, mas sim a pós-verdade que viria a partir dessa prorrogação”, alertou.

Para o membro do Ministério Público, o conceito de pós-verdade descreve a condição cultural e política onde fatos e evidências científicas perdem espaço para discursos emocionais e convicções individuais — algo que ele classifica como "nitroglicerina pura" em tempos de disputa acirrada.

Apelo por estabilidade e gestão técnica


O promotor conclui apontando que a superação desse cenário de polarização exige autocrítica e o fim dos confrontos contínuos, defendendo uma postura pragmática para o futuro do país.

“A ponta para desatar esse nó passa pela autocrítica antes da crítica ao rival; passa pela real necessidade de que cada brasileiro saiba que não precisamos de heróis (...); precisamos de gestores e estadistas — se forem só o primeiro, já é um bom começo. Temos que ter planos de médio e longo prazo (falo dos recursos iniciais: saúde, educação, segurança pública e urbanismo), e não crenças e fanatismos vazios”, finalizou o promotor Frederico Alves Monteiro Pereira, questionando até quando a sociedade insistirá no confronto violento de ideias.

Veja abaixo no arquivo o artigo na íntegra