Política
CNBB vista comunidades atingidas pela mineração, ouve vítimas da tragédia e denuncia falta de punição
A Caravana pela Ecologia Integral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) visitou ontem as comunidades atingidas pelo afundamento do solo em Maceió e chegou à conclusão de que a “arquitetura da impunidade” protege os crimes praticados pela Braskem, na capital alagoana.
“A nossa luta não é apenas contra os crimes praticados pela Braskem em Maceió, é contra os crimes ocorridos em Brumadinho, em Mariana, nas tribos Yanomamis e em tantos outros territórios vítimas da mineração predatória no Brasil e no mundo”, afirmou Dom Vicente Ferreira, presidente da Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração da CNBB (CEEM).
“A ganância dessas empresas que exploram a mineração no nosso país precisa ter um basta. Os órgãos de fiscalização e controle precisam combater com mais rigor essas atividades, que são predatórias por natureza. Caso contrário, tragédias como essa do afundamento do solo podem se repetir, deixando milhares de vítimas e um rastro de destruição ambiental muitas vezes irreversível”, argumentou Dom Vicente.
Em entrevista à reportagem da Tribuna Independente, na sede do Novo Juvenópolis, em Bebedouro, Dom Vicente disse que acompanha a luta dos moradores dos bairros atingidos pela mineração em Maceió, com enorme preocupação, desde o início da tragédia.
“Ainda bem que Dom Beto, assim que assumiu a Arquidiocese de Maceió, suspendeu o contrato que tinha com uma empresa de extração e venda de areia, que fornecia para a Braskem, em Alagoas”, comentou Dom Vicente.
Até abril de 2024, a Fundação Leobino e Adelaide Motta, ligada à Arquidiocese, vinha ganhando dinheiro com venda da areia, em parceria com a Mandacaru Extração de Areia e Comércio de Materiais de Construção em Geral, com sede na Usina Utinga Leão, em Rio Largo.
A pedido de Dom Beto, a parceria com a Mandacaru foi suspensa e está sendo investigada pelo Ministério Público de Alagoas (MP/AL), bem como as irregularidades na prestação de contas do dinheiro arrecadado com a venda da areia à Braskem.
A denúncia foi feita ao procurador geral de Justiça, Lean Araújo, que mandou o Grupo de Atuação Especial no Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), investigar a gestão anterior da Arquidioceses, tendo à frente Dom Antônio Muniz.
CARAVANA
De acordo com Dom Vicente, a comitiva da CNBB que participa da Caravana pela Ecologia Integral em Maceió ouviu relatos dramáticos de moradores dos bairros afetados pela mineração que ainda residem nas bordas das áreas de riscos, a exemplo da comunidade dos Flexais, Rua Marquês de Abrantes e Vila Saem.
“A gente ouvir relatos de muita dor, desespero e falta de perspectiva das pessoas que se sentem enganadas pela empresa e desiludidas com as autoridades. Até porque uma hora a empresa fala ou coisa, outra hora fala outra. Por conta disso, há um clima de desconfiança e de falta de credibilidade”, avaliou Dom Vicente.
Para o religioso, nos Flexais, a maioria dos moradores defende a realocação, com indenização justa e o pagamento de danos morais. “Outras pessoas preferem ficar, mas reclamam do isolamento social e da falta de serviços, transportes urbanos e equipamentos públicos. Tudo isso precisa ser resolvido, mas com uma certa urgência”, defendeu.
Dom Vicente disse ainda que a Braskem precisa se comprometer com a reparação integral das comunidades, afinal são muitas as perdas provocadas pela tragédia. “A região perdeu as paróquias que tinha, os pontos de cultura e de lazer. Tudo isso precisa ser reparado”, completou.
Diante do problema, o religioso propõe que as comunidades se organizem, se reúnam e debatam soluções em comum.

“É preciso que a classe política defenda o direito dessas comunidades”
Questionado sobre a audiência pública que a Caravana da CNBB realiza na manhã de hoje, no plenário da Assembleia Legislativa, Dom Vicente disse o debate é importante até para cobrar dos parlamentares e das demais autoridades envolvidas no contexto um compromisso maior com as comunidades atingidas pela mineração.
“Acho que a gente precisa dar uma guinada, não só aqui em Alagoas como nos demais Estados da Federação, para evitar que crimes como esses não se repitam. Afinal, essa exploração da natureza, que comete crimes humanos e ecológicos, está colocando a nossa espécie em risco, em muitos lugares”, alertou Dom Vicente.
Para ele, “é precisa mudar essa mentalidade política, que acha que pode fazer o que quer, porque tem uma empresa poderosa e aí esquece os direitos dos povos, dos indígenas, das comunidades quilombolas, pescadores, marisqueira. Enfim, é preciso que a classe política defenda o direito dessas comunidades. É isso que vamos defender nessa audiência”, defendeu o bispo.
“Espero que a classe política se comprometa com essas causas, até para evitar que tragédias como essa que ocorreram aqui, em Minas Gerais e muitos outros lugares – não se repitam, afinal tragédias socioambientais penaliza muito mais as pessoas do povo do que a classe empresarial”, concluiu Dom Vicente.
Arcebispo
O arcebispo de Maceió, Dom Beto Breis, disse que a Caravana pela Ecologia Integral foi muito bem recebida pelas comunidades atingidas pelo afundamento solo em Maceió. Segundo ele, os integrantes da CNBB ficaram impressionados com o que viram e se solidarizaram com as vítimas da Braskem em Maceió.
Para Dom Beto, visitar as comunidades e ouvir as pessoas atingidas pela tragédia é uma iniciativa importantíssima, pois reativa a memória dos territórios e leva as pessoas a exigir justiça. Por isso, para ele, “a reparação é um direito das vítimas, enquanto a responsabilização é dever das autoridades”.
Segundo ele, ontem, a Caravana pela Ecologia Integral percorreu territórios atingidos pelo crime socioambiental da Braskem, em Maceió, promovendo escuta, diálogo e aproximação com as comunidades.
As visitas aos bairros Bom Parto, Pinheiro e Flexais evidenciaram as marcas do afundamento do solo, os deslocamentos forçados e as violações de direitos que seguem afetando milhares de pessoas.
No Novo Juvenópolis, o encontro “Território, Memória, Direitos” aprofundou o debate sobre os impactos do crime e a necessidade de reparação. O dia foi encerrado com celebração eucarística, reafirmando a dimensão pastoral e o compromisso da Igreja com as populações atingidas.
A Caravana segue hoje, quando participa de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Alagoas, com a classe política local e autoridades que atuam no caso Braskem em Maceió. “Será um momento importante de debate, reflexão e cobrança”, afirmou Dom Beto, garantindo presença na audiência, que reunirá os debates e as reivindicações das comunidades para fortalecer a incidência e construir encaminhamentos concretos.
“A memória precisa gerar justiça! As reivindicações das comunidades precisam se transformar em medidas efetivas. O crime não pode ser esquecido, e a reparação não pode esperar”, afirmou a arcebispo, por meio da Pastoral da Comunicação.
A Caravana contou ainda com participação da Cáritas Arquidiocesana de Olinda e Recife e da Cáritas Diocesana de Caicó. O objetivo das instituições religiosas, ligadas à Igreja Católica, é fazer com que a Igreja e as comunidades dialoguem com as demais autoridades, em busca de soluções e em defesa da dignidade humana. (R.R.)
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