Política

Neste domingo, o Brasil decide o futuro da democracia

De um lado, políticas sociais que ampliaram o acesso à universidade, à moradia e à renda; de outro, um candidato cercado por controvérsias judiciais e questionamentos sobre seu patrimônio e suas relações políticas

Por Thayanne Magalhães 25/10/2026 08h44 - Atualizado em 25/10/2026 16h27
Neste domingo, o Brasil decide o futuro da democracia
Lula e Flávio Bolsonaro - Foto: Lula Oficial e Charles Vieira / Campanha Flávio Bolsonaro

O Brasil vai às urnas neste domingo (25) para escolher o próximo presidente da República em uma eleição que ultrapassa a disputa entre dois candidatos. O resultado definirá a continuidade ou a mudança de um projeto de governo e colocará novamente em discussão temas centrais para o país: combate à pobreza, oportunidades educacionais, emprego, habitação, responsabilidade no uso do dinheiro público e respeito às instituições democráticas.

A comparação entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) exige olhar para os resultados das políticas públicas, as propostas apresentadas e o histórico de cada candidato. No caso de Lula, a trajetória inclui programas sociais e educacionais que alcançaram milhões de brasileiros, embora também seja necessário avaliar os limites, os custos e os resultados dessas iniciativas. No caso de Flávio Bolsonaro, pesam controvérsias relacionadas à sua atuação política, investigações anteriores e questionamentos recentes que precisam ser examinados com rigor, sem transformar suspeitas em condenações inexistentes.

Mais do que slogans eleitorais, são os fatos, os registros públicos e os compromissos assumidos que permitem dimensionar o que está em jogo.

Educação: a universidade mais próxima da população de baixa renda


Entre as políticas associadas aos governos petistas está o Programa Universidade para Todos (Prouni), criado em 2004 e implementado a partir de 2005. A iniciativa oferece bolsas integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior para estudantes que atendam aos critérios socioeconômicos e educacionais estabelecidos.

Em duas décadas, o programa acumulou mais de 3,6 milhões de bolsas ocupadas e aproximadamente 1,5 milhão de estudantes diplomados, segundo balanço divulgado pelo Ministério da Educação em 2025. São números que dimensionam o alcance de uma política voltada a ampliar as possibilidades de ingresso no ensino superior para quem não teria condições de arcar integralmente com as mensalidades. 

A iniciativa não eliminou as desigualdades educacionais, e o acesso à universidade continua condicionado a fatores como renda, qualidade da educação básica e permanência estudantil. Ainda assim, o Prouni tornou-se um dos instrumentos de inclusão educacional mais conhecidos do país.

A política de ampliação do acesso ao ensino superior também envolve o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), a expansão das universidades federais e a criação de institutos federais. Embora tenham formatos e períodos de implantação distintos, essas iniciativas integram o debate sobre o papel do Estado na democratização da educação.

O ponto central para o eleitor é compreender que políticas educacionais não produzem apenas diplomas: podem alterar as perspectivas profissionais, a renda e as condições de vida de famílias inteiras. Sua avaliação, porém, deve considerar também a qualidade da formação e as oportunidades disponíveis depois da graduação.

Moradia e renda: políticas que chegam à vida cotidiana


O Minha Casa, Minha Vida é outro marco da política social dos governos Lula. Criado em 2009, o programa foi retomado em 2023, com novas regras e ampliação das modalidades de atendimento habitacional.

A moradia própria representa mais do que um patrimônio. Para famílias de baixa renda, pode significar maior estabilidade financeira, proteção contra a insegurança do aluguel e melhores condições para organizar o orçamento doméstico.

Segundo balanço do governo federal divulgado em janeiro de 2026, o programa havia superado a meta inicial de dois milhões de moradias contratadas no período de retomada. Até meados de dezembro de 2025, os financiamentos vinculados ao FGTS somavam 1,63 milhão de unidades, enquanto as linhas subsidiadas com recursos do Orçamento Geral da União registravam outras contratações. Esses números se referem a modalidades distintas e não devem ser somados sem considerar seus critérios. 

A dimensão social do programa está na possibilidade de transformar uma necessidade básica em uma política pública com financiamento e subsídios. Ao mesmo tempo, a efetividade depende da conclusão das obras, da localização dos empreendimentos, do acesso ao transporte e aos serviços públicos e da capacidade das famílias de manter os pagamentos.

Na área de transferência de renda, o Bolsa Família voltou a ocupar posição central a partir de 2023. O programa atende famílias em situação de pobreza e está articulado a compromissos e ações nas áreas de saúde e educação. Sua estrutura procura garantir uma renda mínima, especialmente para famílias com crianças e adolescentes.

O debate sobre o Bolsa Família envolve tanto a proteção contra a fome quanto a criação de condições para que os beneficiários tenham acesso ao trabalho, à educação e aos serviços públicos. O desafio permanente é assegurar que a transferência de renda seja acompanhada de oportunidades de inclusão produtiva e de redução duradoura da pobreza.

Essas políticas constituem parte importante do legado administrativo de Lula. Não são, por si só, uma avaliação completa de seus governos, mas representam compromissos concretos com a redução das desigualdades e com a presença do Estado na vida de quem mais precisa.

Trabalho e economia: os indicadores também entram na conta

O desempenho econômico é outro componente importante da avaliação de um governo. Em 2025, a taxa média anual de desocupação no Brasil ficou em 5,6%, o menor patamar da série histórica iniciada em 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população ocupada chegou a 103 milhões de pessoas, enquanto o número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado alcançou 38,9 milhões. 

Os indicadores são relevantes para analisar o mercado de trabalho durante a atual gestão, mas não devem ser atribuídos exclusivamente às decisões presidenciais. O emprego também responde ao crescimento econômico, ao investimento privado, ao cenário internacional, às condições de crédito e a outros fatores.

A avaliação do governo Lula precisa considerar, portanto, tanto os avanços registrados quanto problemas persistentes, como a informalidade, o custo de vida, as desigualdades regionais e a necessidade de ampliar a produtividade.

É justamente nesse ponto que a disputa eleitoral ganha dimensão prática: as propostas econômicas dos candidatos indicam como cada um pretende conciliar crescimento, geração de empregos, equilíbrio das contas públicas e proteção social.

Flávio Bolsonaro e as controvérsias que acompanham sua trajetória


A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) também precisa ser examinada a partir de seu histórico público. O senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se alvo de questionamentos judiciais e políticos relacionados a movimentações financeiras, aquisição de imóveis e relações com pessoas investigadas.

Um dos episódios mais conhecidos é o caso das chamadas rachadinhas, relacionado ao período em que Flávio era deputado estadual no Rio de Janeiro. A investigação do Ministério Público apontou suspeitas de recolhimento de parte dos salários de assessores parlamentares e de movimentações financeiras consideradas atípicas. Em 2020, ele foi denunciado por supostos crimes relacionados ao caso.

É indispensável, porém, registrar o desfecho processual: em 2021, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou quatro dos cinco relatórios de inteligência financeira que embasaram a investigação, por considerar irregular a forma como foram obtidos. O caso acabou arquivado em 2022, sem julgamento de mérito. Portanto, as suspeitas não podem ser apresentadas como crimes comprovados ou como uma condenação criminal de Flávio Bolsonaro. 

A controvérsia incluiu ainda operações imobiliárias realizadas pelo senador e por familiares. A investigação apontou questionamentos sobre pagamentos em dinheiro vivo, movimentações financeiras e a origem de recursos utilizados em determinadas transações. Flávio sustentou que seus negócios foram legais e declarados, e contestou as acusações.

O histórico merece atenção porque a transparência patrimonial e a explicação sobre a origem dos recursos são temas relevantes para qualquer pessoa que pretende ocupar a Presidência da República. Isso não dispensa, entretanto, o respeito às decisões judiciais e à presunção de inocência.

A disputa pela ilha de Angra dos Reis


Em outubro de 2026, outra controvérsia ganhou repercussão nacional: a disputa envolvendo o atacante Richarlison, o advogado Willer Tomaz e uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Richarlison afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões na aquisição de direitos relacionados ao imóvel e questiona a transferência posterior da posse para um grupo empresarial ligado a Tomaz. O jogador sustenta que não autorizou a negociação nos termos apresentados e levantou questionamentos sobre a rapidez dos procedimentos de regularização.

O nome de Flávio Bolsonaro entrou no debate porque ele mantém relação com o advogado e visitou a propriedade. O jogador também divulgou mensagens trocadas com o senador e cobrou esclarecimentos sobre o episódio.

A controvérsia envolve documentos, contratos, direitos de ocupação e versões divergentes sobre a cadeia de negócios. Tomaz sustenta que sua empresa adquiriu legalmente os direitos sobre a propriedade. Flávio, por sua vez, nega ter comprado, vendido ou intermediado o imóvel e afirma não ter vínculo com a disputa.

O presidente Lula (PT) declarou ter solicitado uma investigação da Polícia Federal sobre o caso. A existência de questionamentos e pedidos de apuração, contudo, não equivale à comprovação de apropriação ilegal ou de participação criminosa do senador. A análise depende dos documentos, das decisões judiciais e da eventual conclusão das autoridades competentes.

A disputa tem relevância eleitoral por envolver suspeitas levantadas publicamente contra pessoas ligadas a um candidato à Presidência. Mas é necessário distinguir a acusação feita por uma das partes, a versão apresentada pela outra e aquilo que foi efetivamente reconhecido pela Justiça.

Relações políticas, dinheiro e responsabilidade pública


As controvérsias envolvendo o entorno político de Flávio Bolsonaro também alcançam a investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro.

Em setembro de 2026, foi divulgada a abertura de um inquérito no STF para apurar a possível participação de Flávio no contexto de um financiamento privado de R$ 61 milhões associado ao projeto. A investigação busca esclarecer suspeitas relacionadas a possíveis crimes financeiros e outros delitos. Flávio negou irregularidades e defendeu a legalidade da busca por recursos privados para a produção.

A apuração não representa condenação, e seu resultado precisa ser acompanhado com base nos atos oficiais e nas manifestações das partes. Ainda assim, o episódio reforça a importância de esclarecer a origem dos recursos, os eventuais interesses envolvidos e a existência ou não de contrapartidas indevidas.

Em uma democracia, candidatos devem estar sujeitos ao escrutínio público. Isso vale tanto para a execução de políticas governamentais quanto para as relações financeiras, os negócios privados e as possíveis conexões entre agentes públicos e interesses particulares.

CASO ANA CLARA: JUSTIÇA, SEGURANÇA E DOIS PROJETOS DE PAÍS

A morte de Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, voltou ao centro do debate eleitoral depois que Flávio Bolsonaro (PL) confirmou acreditar na inocência do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público de matar a criança com disparos de fuzil, em Niterói (RJ), em 2021. O senador integrou gratuitamente a equipe de defesa do PM e assinou recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar impedir que ele fosse submetido a júri popular. O pedido foi rejeitado, e o julgamento foi remarcado para maio de 2027.

Durante o debate presidencial da TV Globo, na sexta-feira (23), Flávio voltou a sustentar que o policial não foi o autor do disparo fatal e classificou o episódio como resultado de uma troca de tiros. Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina, contestou essa versão e afirmou que a perícia não confirmou a existência de confronto. O caso expõe uma questão central para a segurança pública: como conciliar o direito à defesa de um acusado com a cobrança por responsabilização quando uma criança morre durante uma ação policial?


O episódio ganha dimensão política porque, enquanto Flávio defende uma política de segurança baseada no endurecimento penal, sua atuação nesse processo envolve a defesa de um agente acusado de homicídio. A defesa jurídica é um direito legítimo, e a acusação não equivale a uma condenação. Mas a escolha de atuar no caso e as declarações públicas do candidato também podem ser questionadas pelos eleitores, sobretudo diante da dor de uma família que aguarda julgamento.

Do outro lado da disputa está Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja trajetória presidencial inclui políticas de combate à pobreza, ampliação do acesso à universidade e programas habitacionais como o Bolsa Família, o Prouni e o Minha Casa, Minha Vida. Em entrevista publicada em julho de 2025, o The New York Times descreveu Lula como “indiscutivelmente o estadista latino-americano mais importante deste século”, destacando sua defesa da soberania brasileira diante das pressões do governo de Donald Trump. A avaliação é do jornal norte-americano, não um consenso universal sobre o presidente.

Democracia não se resume ao resultado das urnas

A escolha presidencial envolve mais do que a comparação entre programas sociais e investigações judiciais. Também diz respeito à relação que cada candidato estabelece com as instituições, com a liberdade de imprensa, com os resultados eleitorais e com os mecanismos de controle do poder.

O governo Lula tem um histórico de políticas de transferência de renda, inclusão educacional e habitação popular. Sua gestão também precisa responder por seus resultados econômicos, pelas dificuldades que persistem e pela execução das políticas que promete ampliar.

Flávio Bolsonaro apresenta-se como alternativa política ao atual governo, mas seu histórico inclui controvérsias que exigem esclarecimento e acompanhamento público. As acusações devem ser avaliadas conforme as evidências e o estágio de cada procedimento, sem antecipar decisões judiciais.

A democracia, por sua vez, não pertence a um partido ou a um candidato. Depende da participação popular, da liberdade de escolha, da alternância de poder, da independência das instituições e do respeito à Constituição. O resultado eleitoral deve ser reconhecido conforme as regras democráticas, independentemente de quem vença.

Neste domingo, o eleitorado decide entre projetos políticos distintos, que devem ser avaliados por suas propostas, resultados, relações com as instituições e compromissos com os direitos fundamentais. O caso Ana Clara acrescenta uma dimensão humana à discussão: para além das promessas de combate ao crime, a democracia também exige transparência, respeito às vítimas, devido processo legal e igualdade perante a Justiça.

O peso atribuído a cada elemento pertence ao eleitor. O compromisso comum deve ser com uma decisão consciente, baseada em fatos verificáveis, sem desinformação e sem abrir mão do direito de cobrar explicações de quem pretende governar o Brasil.