Política

Conteúdos jornalísticos e de políticos são alvos de boicote

Big techs têm reduzido drasticamente visibilidade de produções ligadas à esquerda e Meta confirma 'falhas'

Por Emanuelle Vanderlei / Tribuna Independente 17/10/2026 08h20 - Atualizado em 17/10/2026 08h22
Conteúdos jornalísticos e de políticos são alvos de boicote
Relatos apontam interferência internacional e favorecimento da candidatura adversária de Lula via ferramentas digitais - Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

O processo eleitoral brasileiro está sendo alvo de interferência de grandes empresas tecnológicas que comandam as redes sociais mais populares no país. Favorecendo um dos lados, as redes estariam reduzindo drasticamente a visibilidade de conteúdos ligados ao candidato do PT, o presidente Lula, ou até mesmo conteúdos jornalísticos, enquanto impulsiona e exibe para mais pessoas os conteúdos do seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

De acordo com relatos do setor de redes sociais da Jorgraf (cooperativa que engloba o jornal Tribuna Independente, o portal Tribuna Hoje, a Tribuna Hoje TV e a Gráfica Tribuna, desde a campanha do 1º turno foi notada uma mudança ao monitorar o algoritmo. Kaline Brito, coordenadora de mídias sociais da Jorgraf, relata o problema apresentando os números de uma publicação do portal que foi para o Instagram. O print apresentado por ela mostra uma notícia sobre o vídeo de um padre se posicionando. O contraste entre as interações e as visualizações chamou atenção.

“Em uma postagem dessas com quase 1.800 curtidas, geralmente as visualizações explodem para mais de 100 mil visualizações. O Instagram tem o algoritmo que distribui as visualizações [visualizações] de acordo com alguns indicadores como curtidas, comentários, reposts e compartilhamento”. A publicação em questão teve 14,2 mil visualizações.

Isso não foi uma situação de exceção, relata Kaline. “Em todos os conteúdos teve uma queda de engajamento. Isso estava mais forte antes, algumas semanas antes do primeiro turno das eleições, hoje está melhorando. Na última semana deu uma melhorada, isso vem ocorrendo há uns 20 dias antes do primeiro turno”

A social mídia mostrou mais um print, onde um número bem menor de curtidas alcançou o mesmo público que a anterior. “Olha aqui o normal: Com 299 curtidas teve 14 mil visualizações.

Essa é a métrica, geralmente pouco mais de 1% de curtidas em relação aos visualizações. Nesse período postamos um conteúdo político e o Instagram deu um “bug” com 0 visualizações [como se ninguém tivesse visto]. Ficou uns minutos assim e tinha até 1 curtida. Como pode ter curtida e não ter visualizações?”, questionou Brito.

O jornalista alagoano Cadu Amaral, que tem um canal de opinião política no YouTube, conta que vem enfrentando essa sabotagem há anos, e que mais recentemente piorou. “Acontece desde sempre, mas ganhou força quando o país começou a discutir regulação das big techs [grandes empresas de tecnologia] e ainda mais desde dezembro de 2025 ou janeiro deste ano. Agora, com o começo do período eleitoral, isso piorou muito”.

Ele detalha o que exatamente acontece. “Conteúdo colocado em shadow ban que é, na prática, esconder o conteúdo diminuindo as impressões/alcance. No meu caso, até curtidas e visualizações são reduzidas em cerca de 60%. Isso reduz o alcance e desestimula o engajamento”.

O jornalista tenta compensar o problema compartilhando o link diretamente com o público.

“Só dá para combater isso através de engajamento por via externa, com clique em links pelo WhatsApp ou outras plataformas. E com quem acessa o conteúdo o engajando. Dando likes, comentando e compartilhando”. A estratégia das grandes empresas de tecnologia, segundo ele, é dificultar de uma forma que o público não perceba. “Esse é o jogo. Excluir canais e perfis chama a atenção. Então, esconder os conteúdos ‘passa batido’”, disse Cadu.

MONITORAMENTO

Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal) e dirigente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Alexandre Lino, as instituições de classe estão monitorando a situação e a constatação não é boa.

“O Sindjornal e a Fenaj têm acompanhado essa situação de perto e recebido denúncias constantes de jornalistas, portais independentes e veículos de comunicação — inclusive em Alagoas. O que observamos não é um acaso técnico, mas uma tendência preocupante na forma como os algoritmos das grandes plataformas de tecnologia, especialmente o Instagram, operam. Há uma evidente priorização de conteúdos polarizados, sensacionalistas e desinformativos em detrimento do jornalismo profissional, que é baseado na checagem de fatos e no interesse público. Estamos denunciando publicamente esses excessos promovidos pelas big techs”.

Isso acende o alerta para as consequências que o país pode sofrer. “Isso representa um grave risco para a democracia e para o direito fundamental à informação. Quando as plataformas impulsionam fake news [mentiras] e conteúdos extremistas enquanto sufocam o alcance do jornalismo sério, elas distorcem o debate público. A sociedade passa a ser bombardeada por mentiras e narrativas manipuladas sem ter acesso aos fatos apurados com rigor da nossa profissão. O cerceamento do alcance do jornalismo nas redes sociais equivale a uma forma de censura privada e mercadológica, que enfraquece o papel fiscalizador da imprensa livre”.

Com isso, os sindicalistas estão em busca de soluções para enfrentar o problema.

“Medidas urgentes precisam ser adotadas em várias frentes. Primeiro, no plano institucional e jurídico, é fundamental a regulamentação das plataformas de redes sociais no Brasil, garantindo transparência nos critérios nos algoritmos e responsabilização civil e criminal pela propagação de desinformação e fake news. Segundo o movimento sindical dos jornalistas liderado pela Fenaj continuará denunciando essas práticas abusivas e exigindo que as big techs prestem contas. Por fim, reforçamos a importância de fortalecer os canais diretos dos veículos com o seu público — como sites próprios, newsletters e aplicativos —, reduzindo a dependência absoluta dos algoritmos que priorizam o conflito entre os grupos que discordam politicamente”.

CENSURA

Veículos de comunicação e influenciadores de alcance nacional seguem relatando problemas. De acordo com reportagem da Revista Fórum, “a Meta censurou, nos últimos dias, mais de 1,1 mil perfis de apoio ao presidente Lula em suas redes sociais (WhatsApp, Facebook e Instagram), segundo um levantamento feito pela organização CTRL+Z, focada no enfrentamento e responsabilização de big techs no Brasil”.

O fundador do canal ICL, Eduardo Moreira, disse ter sido bloqueado. “A meta bloqueou o meu perfil do Instagram, logo depois de eu ter postado minha conversa com o presidente Lula e algumas denúncias contra o Flávio Bolsonaro. Começaram a receber milhões de visualizações. O motivo de ter bloqueado e que nos últimos sete dias a página teve mais de 100 milhões de visualizações. Mas de 300 mil pessoas passando a fazer parte do perfil”.

Segundo ele, a ideia é que, mesmo desbloqueando o perfil em seguida, a ação de bloqueio zera o algoritmo, ter que começar do zero a construir a audiência. Na volta do perfil, segundo Moreira, a Meta sugere que os últimos posts sejam apagados.

META ADMITE, MAS...

Após questionamentos do Partido dos Trabalhadores na Justiça Eleitoral, a empresa Meta (que administra redes como Instagram, Facebook e WhatsApp) reconheceu falhas. Apesar de não assumir interferência no processo eleitoral, reconheceu que o alcance da campanha de Lula teria sido prejudicado.

A Tribuna Independente também tentou contatos com a Meta na última semana, mas até o fechamento desta edição, não houve qualquer retorno.

“O Facebook Brasil repudia categoricamente tal premissa. A afirmação é falsa, não está demonstrada e não resiste ao confronto com os fatos e com os dados objetivos adiante apresentados”, respondeu a empresa estadunidense em documento repassado à Justiça Eleitoral.

O texto apresentado alegou que “os sistemas de distribuição de conteúdo da Meta não operam segundo critérios ideológicos” e que “a Meta não opera seus sistemas para prejudicar ou favorecer candidaturas”. Defendendo que os padrões da comunidade se aplicam igualmente a todos os usuários, e a neutralidade seria “atributo de desenho dos próprios sistemas, cujos critérios são objetivos, públicos e auditáveis pela Justiça Eleitoral”.

A equipe da campanha de Lula à reeleição fez um levantamento e apontou que a página de Flávio Bolsonaro registrava, em média, 2,96 vezes mais engajamento do que a de Lula, mesmo tendo 17,2% de seguidores a menos.

Pesquisador confirma tratamento desleal e interferência externa

Objeto de pesquisas e estudos constantes nas universidades, a comunicação nas redes sociais tem cumprido um papel importante na sociedade. De acordo com os próprios pesquisadores, a interferência externa é uma realidade. Vitor Braga, professor do curso de jornalismo e coordenador do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Alagoas, confirma.

“Quem pesquisa nessa interface de comunicação e essas tecnologias contemporâneas de comunicação tem percebido, sim, esse comportamento dessas plataformas, e isso não é só uma impressão, é também comprovado a partir de acordos comerciais a interesse e também interesses econômicos”, afirmou.

Braga contextualiza a situação que vem acontecendo com vários países. “O governo estadunidense, ele tem financiado essas empresas, essas big techs e essas big techs têm adotado comportamentos diferentes, mundo afora, no sentido de privilegiar determinadas candidaturas que estão coadunando com os governos estadunidenses. Não à toa, na América Latina o Trump [presidente dos Estados Unidos] apoiou oito candidatos a presidente e os oito foram eleitos”.

O professor observa que não é um apoio simples. “Não é apenas um apoio de ele demonstrar, gravar um vídeo em apoio, é um apoio no sentido de ele colocar o que ele tem à disposição. Além de investimento financeiro também, essas big techs operando no sentido de restringir acesso de determinados canais que são a oposição ao grupo que eles apoiam, limitar o acesso, que é o que vocês [imprensa] estão percebendo, ou ainda ampliar o acesso de determinados grupos que eles apoiam”.

Comparando com situações desse tipo que aconteceram em períodos da história que não havia redes sociais, ele considera que isso potencializa muito a interferência internacional nos países. “Quando a gente pensava há anos atrás, vamos pegar a eleição de 1989 para presidente, a gente tinha um veículo de comunicação, que é a Globo, que até ela já assumiu essa mea culpa, que de alguma forma influenciou no processo eleitoral. Influenciou de que maneira? Era um veículo de comunicação que beneficiou um determinado candidato em detrimento de outra candidatura”.

Para ele, o estrago foi ainda menor que o que acontece nos dias de hoje. “Isso que a gente está falando, é um veículo de comunicação de massa brasileiro. A gente pode até dizer que tem interesse estrangeiro, é possível, mas a gente está falando de veículos de comunicação de massa que tinham a capacidade de influenciar a partir da sua cobertura noticiosa, jornais, emissoras de televisão, emissoras de rádio, revistas, sites, enfim”.