Política

O Brasil diante de uma escolha que vai além das urnas

Democracia, direitos sociais e liberdade de imprensa precisam estar no centro do debate sobre o futuro do país

Por Thayanne Magalhães 13/10/2026 08h47 - Atualizado em 13/10/2026 12h38
O Brasil diante de uma escolha que vai além das urnas
Urna eletrônica - Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

O Brasil chega ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026 em meio a uma polarização que ultrapassa as diferenças entre partidos e projetos econômicos. Está em disputa também a maneira como o país compreende a democracia, o papel das instituições, a proteção dos direitos fundamentais e os limites do poder político. Em um cenário de radicalização, o desafio é impedir que o debate público seja reduzido à lógica de inimigos que precisam ser derrotados a qualquer custo.

A primeira pesquisa BTG/Nexus sobre o segundo turno, divulgada em 13 de outubro, aponta uma disputa acirrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O levantamento registra 52% dos votos válidos para Flávio e 48% para Lula, em empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. O resultado traduz a dimensão da divisão política do país, mas não determina o desfecho da eleição.

Diante desse quadro, não basta acompanhar os números das pesquisas ou os embates das campanhas. É necessário examinar o que cada projeto político representa, quais compromissos assume e quais consequências suas propostas podem produzir na vida dos brasileiros.

A democracia não se limita ao direito de votar. Ela depende da liberdade de imprensa, da independência entre os Poderes, do respeito aos resultados eleitorais e da garantia de que direitos fundamentais não estejam sujeitos à vontade circunstancial de quem governa. Também exige oposição livre para fiscalizar o governo, instituições abertas ao escrutínio público e cidadãos capazes de questionar autoridades sem serem tratados como adversários da nação.

Esses princípios precisam ser defendidos independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto.

As lições que não podem ser esquecidas


O bolsonarismo não pode ser analisado apenas como uma corrente eleitoral ou uma manifestação de conservadorismo. É necessário considerar sua trajetória, suas diferentes vertentes e, sobretudo, os episódios concretos que colocaram em discussão o respeito às instituições democráticas durante o governo de Jair Bolsonaro.

A condenação do ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal por sua participação na trama golpista tornou incontornável o debate sobre a responsabilidade de agentes públicos diante de tentativas de ruptura institucional. A responsabilização judicial, com as garantias legais cabíveis, não deve ser confundida com perseguição política. Em uma democracia, ninguém pode estar acima da lei, seja qual for sua popularidade ou posição ideológica.

Isso não significa atribuir a todos os eleitores de direita a responsabilidade por atos de lideranças ou grupos específicos. Uma sociedade plural comporta posições conservadoras, liberais, progressistas e outras correntes de pensamento. O limite democrático aparece quando a divergência deixa de ser reconhecida como legítima e passa a justificar a violência, a intimidação ou a negação das regras que tornam possível a convivência política.

É justamente por isso que propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas com atenção. O candidato declarou que pretende promover mudanças constitucionais, incluindo reformas no Judiciário e na legislação penal. Defendeu também alterações em estruturas governamentais destinadas ao enfrentamento da desinformação.

Reformar instituições não é, por si só, uma ameaça à democracia. O que importa é conhecer o conteúdo de cada proposta, seus efeitos sobre a separação dos Poderes, as garantias previstas para os cidadãos e os mecanismos de controle que permaneceriam em vigor. A defesa da liberdade de expressão, por exemplo, precisa ser compatível com a proteção contra abusos, ameaças e campanhas deliberadas de falsificação de informações.

A vigilância democrática não pode depender da confiança pessoal depositada em um governante. Instituições fortes são necessárias precisamente porque nenhum governante deve concentrar poder sem limites.

Direitos sociais não são privilégios


O debate sobre o futuro do país também precisa considerar as condições concretas de vida da população. Emprego, renda, educação, saúde, moradia, segurança alimentar e acesso a oportunidades não podem ser tratados como temas secundários diante da disputa ideológica.

O Brasil continua marcado por desigualdades profundas, que atingem de maneira desproporcional as populações mais vulneráveis. A avaliação de qualquer governo deve considerar seus resultados nessas áreas, a qualidade dos serviços públicos, a sustentabilidade das políticas adotadas e a capacidade de reduzir distâncias sociais historicamente construídas.

O mesmo cuidado se aplica às políticas ambientais e à proteção dos povos indígenas. Mudanças no licenciamento, na fiscalização e nas atribuições dos órgãos ambientais precisam ser avaliadas com base em evidências, considerando os impactos sobre os territórios, a biodiversidade, os recursos hídricos e as atividades econômicas. Desenvolvimento não deve servir de justificativa automática para flexibilizar salvaguardas, assim como a proteção ambiental precisa ser acompanhada de políticas viáveis e transparentes.

A pergunta central é quem se beneficia das decisões públicas, quem arca com seus custos e quais direitos podem ser afetados.

A liberdade de imprensa em tempos de radicalização


Para quem trabalha com jornalismo, a polarização impõe uma responsabilidade adicional. A circulação de informações falsas, os ataques a profissionais da imprensa e a tentativa de deslegitimar toda informação contrária aos interesses de um grupo prejudicam a capacidade de a sociedade tomar decisões conscientes.

A liberdade de expressão é indispensável, mas não elimina a responsabilidade de verificar informações. Combater a desinformação, por sua vez, não pode ser uma justificativa genérica para estabelecer censura ou silenciar críticas legítimas. O desafio é garantir procedimentos transparentes, decisões fundamentadas e respeito aos direitos individuais.

O jornalismo precisa investigar todos os campos políticos, confrontar declarações com documentos, ouvir fontes diversas e corrigir erros quando eles ocorrerem. Não cabe à imprensa substituir o eleitor, mas oferecer elementos para que ele compreenda o que está sendo proposto e quais consequências podem decorrer das escolhas políticas.

Essa responsabilidade se torna ainda maior quando a linguagem pública transforma adversários em inimigos e estimula a desconfiança generalizada nas instituições. Uma sociedade que deixa de compartilhar referências mínimas sobre os fatos perde parte da capacidade de resolver conflitos democraticamente.

O futuro não pode ser decidido pelo medo


A eleição de 2026 exige mais do que lealdade partidária. Exige memória histórica, compromisso com os direitos fundamentais e disposição para avaliar propostas para além dos slogans. Exige, sobretudo, compreender que o resultado das urnas não encerra a discussão sobre democracia: ele inaugura uma nova etapa de responsabilidades para eleitos, partidos, instituições e cidadãos.

O medo de retrocessos democráticos não deve ser descartado como exagero quando existem fatos concretos que justificam questionamentos. Tampouco deve servir de licença para abandonar a precisão, disseminar informações sem comprovação ou tratar todo eleitor que pensa diferente como inimigo.

O Brasil precisa de instituições capazes de resistir a pressões, de políticas públicas avaliadas por seus resultados e de uma sociedade que não aceite a violência política como parte natural da disputa. Precisa de um debate em que a liberdade de discordar seja preservada e em que os direitos sociais não dependam da conveniência eleitoral.

Mais do que escolher entre duas candidaturas, cabe à sociedade decidir quais valores considera inegociáveis na vida pública. A democracia não se sustenta apenas com eleições periódicas, mas com limites ao poder, responsabilidade institucional, pluralidade e respeito à dignidade humana.

Quando a disputa pelo poder ameaça transformar diferenças políticas em justificativas para restringir direitos, a resposta precisa ser a defesa intransigente das regras democráticas. Nenhum projeto de país deve estar acima delas.