Política
Maceió foi exceção no Nordeste e deu vitória a Flávio Bolsonaro no 1º turno
Capital alagoana foi a única do Nordeste a colocar o candidato do PL à frente de Lula; resultado contrasta com a votação estadual e reacende debate sobre a força do bolsonarismo na cidade
Maceió foi a única capital do Nordeste onde Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na capital alagoana, o candidato do PL recebeu 52,36% dos votos válidos, contra 41,09% de Lula, segundo os dados da totalização eleitoral. O resultado, porém, não se repetiu no restante de Alagoas: no estado, Lula alcançou 54,73%, enquanto Flávio ficou com 40,45%.
O desempenho de Maceió coloca a capital alagoana em uma posição isolada no mapa eleitoral do Nordeste. Nas demais capitais da região, Lula terminou o primeiro turno na liderança. A diferença também chama atenção porque Flávio Bolsonaro venceu a eleição presidencial em 16 das 27 capitais brasileiras, mas encontrou no Nordeste o seu principal obstáculo eleitoral. Ao todo, Flávio terminou o primeiro turno nacional com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, e os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro, conforme confirmou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O resultado de Maceió também ocorre em um cenário político local de forte presença do bolsonarismo. O atual prefeito da capital, JHC (PSDB), eleito governador de Alagoas no primeiro turno, recebeu apoio de Flávio durante a campanha. JHC terminou a disputa pelo governo estadual com 52,20% dos votos válidos, enquanto Renan Filho (MDB) ficou com 47,37%.
A votação presidencial, portanto, revela uma divisão entre a capital e o conjunto do estado. Enquanto Maceió deu maioria a Flávio Bolsonaro, o eleitorado alagoano, considerado integralmente, preferiu Lula. A diferença ajuda a explicar por que o resultado da capital não pode ser utilizado isoladamente para representar o comportamento político de todo o eleitorado de Alagoas.
A vitória de Flávio em Maceió também ocorre em meio a uma trajetória política marcada por controvérsias, investigações e disputas judiciais. O episódio mais conhecido é o caso das chamadas “rachadinhas”, relacionado ao período em que ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. Em 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio e outras 16 pessoas pelos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Posteriormente, porém, o TJRJ rejeitou a denúncia depois que STJ e STF anularam provas utilizadas na acusação. A decisão judicial registrou que a rejeição por falta de justa causa não impedia, em tese, o prosseguimento das investigações.
Outro capítulo envolve a relação política de Flávio com Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público do Rio como integrante de organização criminosa ligada às milícias. A mãe e a então companheira de Adriano foram nomeadas no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A relação e as circunstâncias das nomeações foram objeto de intenso debate político e investigação. O próprio MPRJ, entretanto, contestou em 2020 uma publicação que afirmava que a chamada rachadinha de Flávio havia financiado prédios ilegais da milícia, afirmando que aquela versão não retratava a verdade dos fatos.
Mais recentemente, o nome de Flávio também apareceu no debate sobre o Banco Master. Em maio de 2026, deputados apresentaram na Câmara uma Proposta de Fiscalização e Controle para apurar possíveis irregularidades em uma negociação atribuída ao senador para obtenção de R$ 134 milhões junto ao banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, para financiar o projeto cinematográfico “Dark Horse”. O documento também pediu investigação sobre uma possível utilização de emendas parlamentares como lastro indireto para o projeto. A proposta, contudo, está registrada como iniciativa de fiscalização parlamentar e não equivale a uma condenação ou comprovação judicial de crime.
O histórico de controvérsias não se confunde, portanto, com condenações criminais contra Flávio Bolsonaro. Parte das acusações feitas contra ele foi judicialmente barrada ou permanece no campo de investigações e disputas políticas. Ainda assim, esses episódios integram a trajetória pública do candidato e ajudam a contextualizar a disputa presidencial que terá, no segundo turno, novamente Flávio e Lula como protagonistas.
Lula: programas sociais, emprego e investimentos entre os principais resultados
Ao longo dos três mandatos já concluídos e do atual governo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) associou sua gestão a políticas de transferência de renda, expansão de serviços públicos e investimentos em infraestrutura. Entre os programas mais conhecidos estão o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e o Luz para Todos, além da expansão das universidades e dos institutos federais durante seus primeiros governos.
No atual mandato, o próprio governo federal aponta entre os principais resultados a redução do desemprego, a recuperação do salário mínimo acima da inflação, a ampliação dos programas sociais e a retomada de investimentos públicos. Segundo balanço do Ministério da Fazenda, a economia brasileira cresceu, em média, 3% ao ano entre 2023 e 2025, enquanto o desemprego atingiu o menor nível da série histórica. O governo também afirma que o rendimento médio do trabalho chegou a patamar recorde no período.
Na área social, o governo informa que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgado em 2025. Na habitação, o Ministério do Planejamento registrou 1,2 milhão de novas moradias viabilizadas pelo Minha Casa, Minha Vida e investimentos previstos de R$ 1,8 trilhão no Novo PAC. O programa Mais Médicos voltou a alcançar cerca de 4,5 mil municípios, enquanto o Pé-de-Meia chegou a aproximadamente 4 milhões de estudantes do ensino médio.
A expansão de políticas sociais também aparece nos dados mais recentes do Bolsa Família. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, estudo da Fundação Getulio Vargas baseado em registros do Caged aponta que beneficiários do programa responderam por 85,18% do saldo líquido de empregos formais registrado entre janeiro de 2023 e julho de 2026. O dado, porém, deve ser interpretado como uma correlação observada no estudo, e não como demonstração de que o Bolsa Família, isoladamente, tenha criado esses postos de trabalho.
Nos primeiros governos Lula, uma das marcas foi a expansão da educação federal. Dados do Ministério da Educação registram que, entre 2003 e 2010, foram criadas 14 universidades federais, enquanto a rede federal de educação profissional ganhou 214 novas escolas. O número de campi e unidades universitárias federais passou de 148 em 2002 para 274 em 2010.
Outro programa criado no primeiro mandato foi o Luz para Todos, lançado em 2003 para ampliar o acesso à energia elétrica, especialmente em áreas rurais. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o programa foi concebido como uma política de inclusão social diante da existência, naquele momento, de cerca de dois milhões de domicílios rurais sem acesso à eletricidade.
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