Política
Alagoas volta a ter eleição acirrada ao governo após 20 anos
Renan Filho contra JHC tem possibilidade de reviver disputa entre Teotonio Vilela Filho e João Lyra, ocorrida no ano de 2006
Com a temperatura extremamente aquecida em Alagoas, a corrida eleitoral chega ao fim do primeiro turno no domingo (4). Na disputa para o governo, em que Renan Filho (MDB) e JHC (PSDB) se enfrentaram acirradamente, o Estado volta a viver um clima de disputa local que não acontecia há 20 anos.
A última vez que Alagoas teve um enfrentamento assim foi na eleição em que o então senador Teotonio Vilela Filho (PSDB) foi adversário e venceu o usineiro João Lyra, em 2006. Lyra, que faleceu em 2021, liderou a maior parte das pesquisas de intenção de voto durante a campanha, mas Vilela ultrapassou o adversário na reta final.
Na avaliação do cientista político Ranulfo Paranhos, há semelhanças entre aquela eleição e a atual. “Eu acho que o que a gente já pode avaliar de lá para cá, 20 anos depois, é principalmente o nível de incerteza que a gente tem se esse resultado se dará no primeiro turno ou no segundo turno. Porque lá foi resolvido no primeiro turno, o Téo [Vilela] ganhou do João Lyra”, disse.
Fazendo um breve histórico das eleições que se seguiram, Paranhos lembra que os enfrentamentos foram cada vez mais amenos depois disso.
“Depois, Alagoas teve Teotonio Vilela x Ronaldo Lessa no segundo turno. Depois, a gente o Renan Filho e fica muito claro em 2014, quando ganha do Benedito Lira. Depois, em 2018, Renan praticamente ganha por W.O., já que o segundo colocado tinha 10% dos votos, Josan Leite [PL] alguém que desapareceu que já não tinha expressão naquele momento quando o Renan se reelege, então o Renan versus ninguém. Em 2022, de novo, a gente tem segundo turno, mas também estava muito claro, que eu acho que em todas elas [pesquisas] estava muito mais claro que teríamos segundo turno, e agora a gente não sabe. Então acho que o nível de incerteza é o que está mais presente agora, o que aproximam uma da outra parece esse nível de incerteza”, contextualiza.
Paranhos atribui essa retomada da disputa a um movimento de organização de um grupo político.
“O que talvez explique isso é que o grupo da oposição ele conseguiu, aos trancos e barrancos, meio que se recompor. Então, eu tenho um grupo dos Calheiros muito bem posicionado, e aqui e ali o grupo do JHC passando por crises, passando por disputas internas em relação ao Arthur Lira [candidato ao Senado pelo PP], passando pelo lançamento da campanha da Marina [candidata ao Senado pelo PSDB] que ameaçou, e ainda ameaça a eleição do Arthur Lira, mas de qualquer forma isso representou agora nesse momento meio que parece um grupo de oposição mais recomposto do que foram as eleições passadas”.
Apesar de ter demorado a se recompor, o cientista político entende que tanto a situação quanto a oposição são construídas por políticos tradicionais.
“Você tem o grupo mais tradicional, não só do ponto de vista familiar, mas do ponto de vista de grupo político, do ponto de vista de partido político é o grupo dos Calheiros, em seguida a gente tem o grupo do Lira. O Arthur Lira desde vereador de Maceió e hoje deputado federal, mas que foi presidente da Câmara e é candidato ao Senado e que disputa, mas ele não é isolado, ele não é só o Bendito de Lira, ele tem três primos que são prefeitos, ou seja, ele pertence a uma tradição, já tem um histórico. Eu não posso tirar dessa equação, por exemplo, o Ronaldo Lessa, que está aí, quer tenha sido traído ou não pelo grupo do JHC, mas ele continua no jogo, ele continua aparecendo, ainda é uma figura de expressão política”.
Incertezas rondam as candidaturas para os cargos de senador
Figurando como oposição ao grupo do MDB e dos Calheiros, o candidato ao governo e ex-prefeito de Maceió, JHC (PSDB), também tem raízes político-familiares na história. É o que ressalta o cientista político Ranulfo Paranhos.
“JHC por si só também não é alguém que se fez sozinho. Ele é filho do João Caldas, que foi deputado federal por dois mandatos consecutivos. A mãe [Eudócia Caldas] foi prefeita de Ibateguara, senadora, porque era suplente do Rodrigo Cunha e aí ele vai deputado estadual, deputado federal, prefeito e tal”.
A campanha, no entanto, não reconhece muito esse histórico.
“Ele [JHC] tem uma carreira mais solo, talvez com a característica de tentar se tornar independente do pai, tentar se distanciar, mas ele pertence, quer queira quer não, a uma família de políticos. Então, é no mínimo um desafiante que se alia à elite representada pelo Arthur Lira e pelo Ronaldo Lessa, e esse desafiante quer ser elite, tenta encontrar um espaço para se transformar em elite política. Então acho que essa é a característica mais marcante do que a gente está tentando entender”, lembrou o cientista político.
Para além da cadeira de governador, esse é um ano em que as vagas do Senado foram alvo de uma disputa histórica. Ranulfo destaca esse como um ponto alto de 2026.
“Nesse momento a gente tem uma indecisão, ou uma incerteza sobre que nomes ocuparão as duas vagas para o Senado. Isso é muito inovador, ou pelo menos é muito novo na política alagoana. Então isso a gente não tinha desde então. Normalmente você tem um candidato aqui que vai lá e disputa. E ele aparece na frente o tempo todo”.
Em situações pontuais, ele lembra que houve viradas ao longo da campanha, mas o público conseguia visualizar a mudança acontecendo.
“A gente já teve uma Heloísa Helena na frente das intenções de voto em 2010, que depois o Benedito de Lira se lança, que ele vai virar senador em 2010, ele vai ser eleger senador em 2010, e ele a ultrapassa, mas a gente acompanha isso de forma muito clara, o que ele apresenta de projeto, o que ela apresenta de campanha, a profissionalização da campanha, e aí ele vira o mais votado em 2010, termina a eleição como o mais votado. O Renan Calheiros como o segundo mais votado, eles faziam uma dobradinha, e Heloísa Helena perde, perde a eleição em 2010, nesse momento eu acho que a eleição para o Senado é um ponto gigante aqui de indecisão”, lembrou Paranhos.
A polarização nacional também foi uma coisa que acabou se refletindo nas candidaturas locais. Ranulfo acredita que, mesmo não falando diretamente, o ex-prefeito de Maceió deu o palanque para Flávio Bolsonaro (PL).
“No final das contas, essa oposição também conseguiu fazer com que a disputa fosse nacionalizada no sentido de que a disputa no Estado de Alagoas tem um representante nacionalmente falando. De um lado eu tenho os Calheiros com Renan Pai ligado de forma muito pessoal, além político-partidária, mas ele é muito ligado pessoalmente ao Lula, e o Renan Filho foi ministro do atual governo. E do outro lado JHC finalmente consegue arregimentar um palanque para o Flávio, ainda que ele tenha fugido ainda que ele tenha desaparecido, ainda que ele seja aquela figura que não mostrou tanto o Flávio, no final das contas ficou muito claro”, afirmou.
A composição da chapa, que não foi apresentada em bloco, desde o começo, acabou acontecendo.
“Arthur Lira, JHC, depois ele lança a própria esposa, e aí você vai compondo o palanque e no final das contas tem um candidato à presidência. Isso aí implica em dizer que as duas campanhas, trouxeram para o debate dentro do Estado de Alagoas, trouxeram para disputa no estado de Alagoas, alguma coisa além do debate, que é a nacionalização. Então a gente tem algo além do debate das discussões locais, é o debate da nacionalização”.
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