Política

Polarização política não pode justificar brigas entre pessoas, afirma promotor

Por Tribuna Hoje 30/09/2026 10h16 - Atualizado em 30/09/2026 10h22
Polarização política não pode justificar brigas entre pessoas, afirma promotor
Frederico Alves Monteiro Pereira critica conflitos provocados por divergências políticas e defende reflexão sobre os efeitos das escolhas na sociedade - Foto: Divulgação

A polarização política chegou ao ponto de provocar brigas entre familiares, amigos e vizinhos, na avaliação do promotor de Justiça de Delmiro Gouveia, Frederico Alves Monteiro Pereira. Em artigo, ele relata ter presenciado, nas redes sociais, o registro de uma agressão física entre dois homens após um desentendimento político e questiona até que ponto as divergências podem justificar o rompimento de relações pessoais.

Segundo o promotor, o episódio o levou a refletir sobre o distanciamento entre o significado da política como atividade voltada à convivência e à organização da sociedade e o comportamento observado atualmente.

“Será que os candidatos conheceriam aquelas pessoas que interagiam com tapas e socos?”, questiona Frederico, ao mencionar a cena ocorrida em uma mesa de bar. Para ele, o espaço, tradicionalmente associado ao diálogo e à convivência, poderia justamente representar o contrário da intolerância que tem marcado as discussões políticas.

Cores da bandeira

Frederico também pontua que a polarização passou a influenciar comportamentos cotidianos. Ele cita o caso de um vizinho que afirmou não usar mais a camisa da seleção brasileira e, quando precisou comprar uma, escolheu a azul.

A situação, segundo o promotor, revela como símbolos nacionais acabaram associados a grupos políticos distintos. “Como um grupo de pessoas pôde se apropriar das cores da nossa bandeira nacional em contrapartida a outro grupo que passou a ter ojeriza a elas?”, questiona.

O autor ressalta que a sociedade não deveria ser dividida entre “bem e mal” ou “honestos e desonestos” a partir das preferências políticas. Conforme sua reflexão, os diferentes grupos e atores eleitorais possuem contradições e interesses próprios.

Reflexão sobre o futuro

Na análise apresentada no artigo, Frederico recorre aos ensinamentos do filósofo norte-americano John Rawls, especialmente ao conceito do “Véu da Ignorância”, apresentado na obra Uma Teoria da Justiça.

Segundo o promotor, Rawls propõe imaginar uma sociedade em que as pessoas definiriam suas regras sem saber previamente qual posição ocupariam nela. Assim, poderiam ser juízes, professores, agricultores, garis ou integrantes de qualquer outro grupo social.

A partir dessa ideia, Frederico pondera que as escolhas deveriam considerar não apenas os interesses de quem está em determinada posição, mas também a possibilidade de qualquer pessoa ocupar uma condição diferente no futuro.

“Supondo que você realmente não saiba quem irá dirigir a nossa sociedade pelos próximos quatro anos, e supondo que você venha a pertencer ao grupo derrotado, qual deles lhe acautelará o essencial para que você esteja em condição de disputa daqui a quatro anos?”, questiona.

Ao concluir a reflexão, o promotor defende que as divergências políticas não sejam motivo para agressões ou rompimentos pessoais.

“Se não sabe a resposta, se ainda estiver sob o véu, pelo menos não brigue nem esmurre o seu próximo”, conclui.

Confira o artigo na íntegra: