Política

Participação dos idosos pode ser decisiva nas eleições em Alagoas

Em território alagoano, pessoas acima de 70 representam 8,74% do eleitorado, conforme dados do TSE

Por Emanuelle Vanderlei / Tribuna Independente 19/09/2026 08h06 - Atualizado em 19/09/2026 11h00
Participação dos idosos pode ser decisiva nas eleições em Alagoas
Com a não obrigatoriedade de votar nas eleições, quase metade dos idosos em Alagoas não foi às urnas durante o pleito referente ao ano de 2022 - Foto: Edilson Omena

Em uma eleição disputada como a atual, onde candidatos brigam por cada voto, a participação do público idoso pode fazer toda a diferença no resultado, principalmente quando se trata na disputa pelo governo e presidência da República. Tem chamado a atenção, por exemplo a disputa acirrada em Alagoas pelo Governo Estadual entre o senador Renan Filho (MDB) e o ex-prefeito de Maceió, JHC (PSDB).

Nacionalmente, o atual presidente, Lula (PT), busca renovar o mandato, e seu principal adversário é o senador Flávio Bolsonaro (PL).

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alagoas tem atualmente 213.507 pessoas acima dos 70 anos aptas a votar, o que representa 8,74% do eleitorado.

Sem obrigatoriedade de votar, esse público em 2022 teve 46,27% de abstenção nas urnas. Foram exatamente 98.727 pessoas que poderiam ter votado, mas não compareceram. As mulheres são maioria, com cerca de 55% desses ausentes. Comparando com a média nacional, que foi de 60% de abstenção, a participação aqui ficou até bem, mas o número ainda é alto.

Em 2022, o número de abstenções a partir dos 70 anos (quando acaba a obrigatoriedade), tem uma queda brusca de participação entre o grupo mais jovem, de 70 a 74 anos, chegando a 46% de abstenção, enquanto na última faixa anterior a essa, de 65 a 69 anos, a porcentagem foi de 26,37%.

Apesar de ainda ser muito forte o etarismo na nossa sociedade, que destrata os idosos e muitas vezes não valoriza a sabedoria que a experiência pode carregar, a participação dessas pessoas é um direito, até porque as decisões tomadas pelos governantes eleitos vão interferir diretamente nas suas vidas.

Considerando a aposentadoria, por exemplo. Cada candidato tem planos diferentes para essa categoria de trabalhadores, e isso pode ter impacto direto no reajuste anual do benefício.

Candidatos neoliberais, como Flávio Bolsonaro (PL), que tenta à presidência da República, defendem a desvinculação da remuneração mínima dos aposentados do salário mínimo. Ou seja, pode ser que aposentados percam ainda mais poder de compra com o passar dos anos, e percam o amparo do Estado.

Mesmo não sendo obrigatório, a pessoa continua tendo o direito de votar em qualquer idade. E mesmo que passe alguns pleitos sem comparecer, se as ausências acontecem após os 70 anos, o título não é cancelado, permanece válido para voltar a participar quando quiser.

O público idoso tem direitos específicos. Pessoas acima de 60 anos tem fila preferencial, e acima dos 80 tem prioridade especial sobre os demais idosos. Nos casos em que há deficiência ou mobilidade reduzida, é possível transferir o local de votação para uma seção com acessibilidade (mas isso precisaria ter sido feito alguns meses antes, para esse ano não é mais possível).

INICIATIVAS

Esse ano, uma novidade que começa a valer e contribui com a participação é o programa “Seu Voto Importa”, regulamentado pela Resolução TSE nº 23.753/2026, que garante transporte especial gratuito para eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida e para pessoas idosas que não disponham de meios próprios para chegar ao local de votação.

O pedido foi feito pelos próprios eleitores ou por curadores, apoiadores ou procuradores, no cartório eleitoral ou por canais eletrônicos disponibilizados pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs). O prazo para solicitar o transporte terminou em 14 de setembro de 2026.

MOTIVOS

A cientista política Luciana Santana entende que não se trata apenas de vontade, a ausência pode ser ocasionada por vários fatores diferentes.

“Não me parece correto interpretar essa ausência simplesmente como falta de interesse. Entre as pessoas com mais de 70 anos, o voto é facultativo, e a decisão de comparecer depende muito das condições concretas de saúde, autonomia e deslocamento. Dificuldade de mobilidade, distância do local de votação, falta de transporte, necessidade de acompanhante, medo de quedas, filas e até alterações no local da seção podem produzir um custo elevado para votar”.

Reconhecendo o esforço das instituições em reduzir as dificuldades, Santana acredita que isso não soluciona totalmente o problema. “A Justiça Eleitoral garante atendimento prioritário, inclusive prioridade absoluta às pessoas com mais de 80 anos, mas isso não elimina as barreiras existentes antes de o eleitor chegar à seção”.

No entanto, o fator do convencimento também pode influenciar, segundo a cientista.

“A desilusão política também pode pesar, especialmente quando as pessoas idosas não percebem diferenças concretas entre as candidaturas ou não se sentem representadas. Mas os dados agregados do TSE mostram quem compareceu; não permitem, isoladamente, identificar por que alguém deixou de votar. Seria necessário combinar essas informações com pesquisas específicas”.

O que pode explicar o fato de o nosso estado ter um comparecimento acima da média nacional, segundo ela, é o envolvimento das comunidades no processo.

“O percentual menor de ausência em Alagoas pode estar relacionado à força das redes familiares, comunitárias e municipais de mobilização eleitoral, além da competitividade das disputas locais. Em municípios menores, o contato entre candidaturas, lideranças e eleitores costuma ser mais direto”. Luciana ressalta que é preciso aprofundar a pesquisa para ter certeza sobre essas razões. “Essa é uma hipótese plausível, porém precisa ser testada: mobilização eleitoral não é necessariamente sinônimo de maior interesse político ou de melhor representação”.

Observando as campanhas deste ano, Luciana Santana entende que ainda é preciso um empenho maior dos candidatos em dialogar com essas pessoas. “Quanto às campanhas, esse público já começou a ser percebido como estratégico, mas ainda não considero que exista um diálogo adequado. Nacionalmente e em Alagoas, os candidatos falam aos idosos sobretudo por meio de referências à aposentadoria, aos medicamentos, à saúde e à proteção social. São temas importantes, mas frequentemente aparecem de maneira genérica ou como apelos emocionais. Fala-se do idoso, mas nem sempre se fala com ele”, analisou.

Para que esse público se sinta representado, ela acredita que faltam propostas mais específicas.

“Um diálogo efetivo precisaria apresentar propostas verificáveis para atendimento de saúde, cuidados de longa duração, transporte acessível, combate à violência patrimonial e aos golpes financeiros, inclusão digital, moradia e apoio às famílias cuidadoras. Também seria necessário oferecer informação eleitoral acessível e ajudar a superar as barreiras de deslocamento, sempre respeitando a autonomia e o sigilo do voto”, sugeriu a cientista política.