Política
Representação feminina corre riscos na Assembleia Legislativa
Das seis eleitas em 2022 para deputada estadual, apenas quatro estão tentando reeleição
A baixa representatividade das mulheres na Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) pode ficar ainda menor após as eleições deste ano. Isso porque, entre as próprias parlamentares com mandato atualmente já há as que nem sequer tentarão continuar. Representando mais de 50% do eleitorado, as mulheres não têm hoje nem 25% das cadeiras, são apenas seis nomes.
Em 2022, a população elegeu apenas seis mulheres, entre 27 deputados da legislatura atual. São elas: Cibele Moura (MDB), Gabi Gonçalves (MDB), Rose Davino (PP), Fátima Canuto (MDB), Carla Dantas (MDB) e Flávia Cavalcante (MDB). Dentre essas, as duas últimas não estão candidatas à reeleição. Carla Dantas foi apoiada pelo governador Paulo Dantas (MDB), e tanto ela quanto ele agora têm feito campanha para um homem, Paulinho Mendonça (MDB). Já Flávia, tenta transferir os votos para o pai, Cícero Cavalcante (MDB).
Na avaliação do cientista político Ranulfo Paranhos, o mandato é um fator que pesa nas eleições.
“Sempre, um candidato que já tem um mandato, ele tem muito mais chance de se reeleger. Então aumenta muito a chance, porque é óbvio que ele passou os últimos três anos retroalimentando a sua base, ele não abandonou as bases, os cabos eleitorais, os prefeitos, colegas, os vereadores, ele contribuiu com os vereadores, contribuiu com os cabos eleitorais. Então essa alimentação é importante porque ele sabe que quatro anos depois vai precisar”, avalia em contato com a reportagem da Tribuna Independente.
Apesar das dificuldades que podem ser enfrentadas em chapas competitivas, Paranhos acredita que as quatro que concorrem saem na frente. “Então eu acho que sim, são candidatas competitivas”.
Além dessas, duas suplentes chegaram a assumir a cadeira em algum momento: Ângela Garrote (PP) e Elida Miranda (PT). São nomes que em algum momento tiveram visibilidade, e poderiam ganhar parte da força que o mandato agrega nas campanhas.
Para Ranulfo, no entanto, as chances de manter a representatividade feminina são poucas. “Eu acho que o risco de redução dessas duas vagas, ele está muito claro, então as quatro deputadas que sobram, se elas têm base própria e consolidada, então o risco não é apenas a derrota nesse caso, mas não haver reposição dessas duas vagas [Flávia e Carla]”.
Com as mulheres sendo substituídas em suas bases por indicações de homens, dificilmente deixariam o espaço para ser ocupado por outras mulheres.
“Eu não consigo vislumbrar daqui que a Assembleia Legislativa tenha nomes de mulheres que sejam competitivas para repor as duas vagas dessas duas mulheres que estão saindo, porque essas duas que estão saindo, elas não estão desistindo. Os colégios eleitorais, por onde elas foram principalmente votadas e consequentemente contribuíram para a eleição, são colégios eleitorais que serão repassados, que foram destinados para os seus familiares”, conjectura o cientista.
Utilizando o exemplo de Flávia, filha de um nome bem conhecido na política do Estado, ele avalia que os votos serão repassados.
“Não quer dizer que esses votos ficarão soltos, à deriva, muito pelo contrário. Só para a gente citar o exemplo, se o Cícero Cavalcante vai se candidatar e a filha não vai, isso quer dizer que ele está pensando em herdar todo o colégio eleitoral dela, ou seja, todos aqueles votos que foram destinados a ela na eleição da semana passada. Isso quer dizer que esses votos não estão disponíveis no mercado eleitoral, eles não estão disponíveis inclusive para outra mulher disputar. Então eu acho que essa é a questão, é que duas sairão, mas a probabilidade de que novas duas entrem é baixa”.
Ele questiona o caráter democrático e representativo da mudança. “Não é uma decisão de anseio popular, não é uma decisão de visibilidade do candidato que pertence à mesma família e de repente ele pode ter sido escolhido ou a pesquisa de opinião pode ter apresentado isso, não tem nada a ver com isso. E também não tem a ver com possível derrota eleitoral das duas candidatas. Tem a ver com a decisão no núcleo familiar. É óbvio que quando a gente olha para o nosso desenho institucional democrático, a decisão deveria ter sido tomada dentro do partido político”.
A preferência natural, alega ele, é de quem está no mandato. “Se um candidato é dono do mandato, ele tem no caso da Flávia, por exemplo, ele tem a prerrogativa de se candidatar à reeleição, mas nesse caso é como se as decisões tivessem sido tomadas dentro da cozinha da casa entre filhos e pais. E decisões políticas na cozinha da casa não são decisões democráticas, republicanas, representativas de partido político, representativas de anseio da sociedade. São decisões particulares”.
Entre as candidatas que ainda não estão na casa, mas que ele vê campanhas competitivas que poderiam repor a lacuna deixada pelas colegas, Ranulfo aponta uma petista. “Eu acho que Teca Nelma talvez seja uma candidata competitiva que possa acessar a Assembleia, eu acho que é uma forte candidata”.
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