Política

Ex-presidente do Iprev teve carta branca da Prefeitura de Maceió

Ronnie Mota integrava todas instâncias de decisão que poderiam ter impedido repasses do Instituto ao Banco Master

Por Assessoria 03/09/2026 08h50
Ex-presidente do Iprev teve carta branca da Prefeitura de Maceió
Caso é investigado pela PF na operação que apura fraudes bilionárias cometidas pelo banqueiro Vorcaro - Foto: Sando Lima

O ex-presidente do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev) Ronnie Reyner Teixeira Mota tinha carta branca da Prefeitura de Maceió para realizar os repasses que somaram R$ 97 milhões ao Banco Master. Nomeado para o cargo em maio de 2023, Mota também foi indicado para integrar os dois colegiados que poderiam ter detectado e impedido a fraude.

Investigado pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero, que apura as fraudes financeiras bilionárias cometidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, Ronnie Mota participava do Conselho de Administração e do Comitê de Investimentos do Iprev, passando a atuar em todas as instâncias de decisão que permitiriam o repasse ao Banco Master.

Os documentos recolhidos pela PF durante a operação realizada em Maceió mostraram que Mota presidia as reuniões dos dois colegiados.

Em dezembro de 2023, Ronnie Mota comunicou ao Conselho de Administração do Iprev que a instituição repassaria R$ 80 milhões do fundo de previdência dos aposentados de Maceió para o Banco Master, em troca de títulos financeiros fraudulentos.

Na época, o Banco Master não constava na relação do Ministério da Previdência Social de instituições elegíveis para receber recursos de regimes próprios, tendo sua inclusão ocorrido apenas em 2024.

A operação financeira foi conduzida pela empresa de consultoria Crédito & Mercado, também alvo dos mandados de busca e apreensão cumpridos pela PF em Maceió.

Novo aporte

Um novo aporte de R$ 17 milhões foi feito pelo Iprev em maio de 2024. Somados, os repasses feitos pela instituição ao Banco Master representavam 20% de todo o patrimônio do fundo. De acordo com a PF, “a governança do instituto foi subvertida para atender a interesses alheios à proteção do erário”.

Posicionado em todas as esferas de decisão do Iprev, Ronnie Mota teve a autonomia que precisava para fazer com que as operações com o Banco Master passassem por todos os mecanismos que poderiam ter evitado o desaparecimento de R$ 97 milhões dos aposentados de Maceió.

Ronnie Mota foi demitido apenas em setembro de 2025, na semana em que o escândalo das fraudes financeiras do Banco Master veio a público e pouco antes da primeira prisão de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal.

Outras prefeituras

Institutos municipais de previdência e governos estaduais aplicaram recursos das aposentadorias de servidores em Letras Financeiras do Banco Master, gerando riscos de rombos bilionários e investigações após a liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central.

Cerca de 18 entes públicos (incluindo estados e municípios) investiram aproximadamente R$ 1,86 bilhão em títulos do banco.

Pelo menos 15 municípios realizaram aportes, com destaque para capitais e cidades como Maceió (AL) — que aplicou R$ 97 milhões por meio do Iprev —, além de Cajamar (SP), São Roque (SP) e Campo Grande (MS).

As Letras Financeiras (LFs) adquiridas por esses fundos previdenciários não possuem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Vários dos institutos que aplicaram recursos no banco passaram a registrar desequilíbrios em seus balanços financeiros, pressionando as contas locais.

Conforme a legislação federal (Lei nº 9.717/1998), a responsabilidade final pelo pagamento de aposentadorias e pensões e pela cobertura de eventuais prejuízos nos fundos previdenciários recai sobre os cofres públicos das prefeituras e governos estaduais.

A Polícia Federal e órgãos de controle apuram se os gestores públicos burlaram regras de governança.

As apurações analisam a falta de estudos comparativos de risco, a supressão de etapas na aprovação dos conselhos locais e o direcionamento desproporcional do patrimônio dos servidores para ativos de alta volatilidade e baixa liquidez.