Política

Eleitorado com 70 anos ou mais cresce 170% em Alagoas

Por Agência Tatu 12/08/2026 11h29
Eleitorado com 70 anos ou mais cresce 170% em Alagoas
Em 2014, grupo representava menos de 4% de todo eleitorado; em 2026 subiu para 8,7% - Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil

Em 12 anos, o eleitorado brasileiro com 70 anos ou mais, faixa para a qual o voto é facultativo, cresceu 59%. Entre os estados, Amapá e Alagoas lideram o aumento percentual,com 224%% e 172% eleitores a mais nessa faixa etária, enquanto Maranhão e Ceará registraram os menores crescimentos, com 31% e 32% respectivamente.

O levantamento realizado pela Agência Tatu considerou os dados de eleitores residentes no Brasil em 2014 e 2026, divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No primeiro ano, o país contava com 10,8 milhões de eleitores com 70 anos ou mais. Em 2026, são 17,2 milhões de pessoas dessa faixa etária aptas a votar.

No Amapá o número de eleitores com 70 anos ou mais passou de 11.235, em 2014, para 36.493 em 2026. Na sequência, Alagoas aparece como o segundo estado com o maior aumento: eram 78.470 eleitores nessa faixa etária em 2014 e, em 2026, o número chegou a 213.507. Sergipe aparece na sequência, com aumento de 137%, saindo de 66 mil para 157 mil.

Benedita faz parte do eleitorado com mais de 70 anos

Benedita faz parte do eleitorado com faixa etária acima de 70 anos

A alagoana Benedita Roberto Lira, de 78 anos, é um exemplo desse comportamento. Moradora de Santana do Mundaú, a cerca de 100 quilômetros de Maceió, ela mantém o hábito de ir às urnas a cada eleição, mesmo com o voto facultativo.

Para a aposentada, participar do processo eleitoral é uma forma de exercer um direito. “Eu sei que não sou obrigada mais a votar, mas acho muito importante e vou votar até o dia que Deus permitir, porque o voto é um direito e uma forma de participar das decisões do país”, afirma.

A decisão de continuar votando também é acompanhada de perto pela filha, Maria da Penha Batista, que admira a disposição da mãe em participar das eleições. “Ela é muito atenta e faz questão de votar. Acho importante essa decisão dela e respeito, pois ela tem o direito de escolha”, afirma.

Menor crescimento

Do outro lado do ranking, os três estados com os menores crescimentos do eleitorado com 70 anos ou mais no período analisado são do Nordeste: Maranhão, Ceará e Bahia.

O Maranhão tinha 343 mil eleitores com 70 anos ou mais em 2014 e, este ano, são 451 mil, um crescimento de 31%. No Ceará, o aumento foi de 32%: o número passou de 508 mil para 671.557 eleitores. Em terceiro lugar está a Bahia, que passou de 782.826 para cerca de 1 milhão de eleitores com mais de 70 anos, ou seja, 37% a mais.

Percentual de todo o eleitorado

A reportagem também comparou, em 2026, quanto o grupo de eleitores com 70 anos ou mais representa em relação ao eleitorado total de cada estado. Entre os estados nordestinos, o Maranhão apresenta o menor percentual: dos 5,1 milhões de eleitores, 451 mil têm 70 anos ou mais, o equivalente a 8,7%. Alagoas aparece logo na sequência, com 8,74%, já que são 213.507 eleitores dessa faixa etária entre os 2,4 milhões de eleitores do estado.

Os estados com os maiores percentuais estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. No Rio Grande do Sul, os eleitores com 70 anos ou mais somam 1,2 milhão e representam 14,5% do total de 8,5 milhões de eleitores, o maior percentual do país. Na sequência aparecem Rio de Janeiro (14,3%) e Minas Gerais (12,7%).

Alagoas tem 673 eleitores com 100 anos ou mais

Outro dado que chama atenção é o aumento do número de eleitores com 100 anos ou mais. Em todo o Brasil, o crescimento foi de aproximadamente 1.300% no período de 12 anos. Em 2014, eram 21 mil eleitores nessa faixa etária; em 2026, o número chegou a mais de 297 mil.

No Nordeste, Pernambuco liderou o crescimento, com alta de 911%, pois no primeiro ano analisado, havia 862 eleitores com 100 anos ou mais aptos a votar, já em 2026, a quantidade chegou a 8.722. Logo em seguida, no recorte regional, aparece Sergipe. Em 2014, havia 74 eleitores sergipanos nessa faixa etária e agora o número chegou a 601, um aumento de 712%.

Alagoas ocupa o 3º lugar, com crescimento de 615%, passando de 94 para 673 eleitores. Confira a seguir onde estão esses eleitores alagoanos.

Interesse pelo voto

Para Augusta Oliveira, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o dado representa um avanço social. “Apesar de não ter a obrigação de votar, é muito importante a participação dessa parcela do eleitorado na escolha de candidatos que tenham políticas públicas voltadas para a população idosa, porque, a partir do momento em que não há esse voto, ele deixa a pauta de políticas públicas muito vaga. Então, o político não se sente na obrigação, já que aquele não é um eleitor dele”, pontuou.

A cientista política chama atenção também para a mudança na forma de os candidatos se comunicarem com esse eleitorado. Ela lembra que existem pesquisas que apontam aumento, inclusive entre os idosos, do uso das redes sociais para obter informação, mas que esse público ainda se concentra em algumas plataformas. Também aponta que há perfis diferentes entre idosos que tiveram ou não acesso à educação e entre aqueles que residem na zona rural, em locais de difícil acesso.

Augusta - Eleitorado com 70 anos ou mais cresce 170% em Alagoas

Cientista política Augusta Teixeira

“Foi constatado que muitos utilizam apenas o Facebook, com uma proporção muito baixa nas outras redes. Além disso, na realidade da população rural, por exemplo, o rádio e a televisão são fundamentais. Então, os candidatos precisam se policiar e saber como vão se comunicar com esses eleitores”, acrescentou.

Na avaliação de Mayres Pequeno, também cientista social e mestre em Ciência Política pela UFPE, o crescimento da participação dos eleitores pode estar relacionado à trajetória política dessa geração: “O eleitor que hoje tem 70 anos ou mais vivenciou períodos de restrição dos direitos políticos e presenciou todo o processo de redemocratização do Brasil. Para essas pessoas, ir à eleição é compreendido como uma conquista civil”.

Mayres também relaciona o fenômeno à transição demográfica brasileira. Com o aumento da população idosa, esse grupo passa a representar uma parcela cada vez mais significativa do eleitorado. Para ela, porém, o envelhecimento da população não explica sozinho a participação desse eleitorado, já que fatores históricos e institucionais também ajudam a compreender o comportamento nas urnas.

Outro fator apontado pela cientista social é a atuação da Justiça Eleitoral na redução de barreiras para o exercício do voto. Medidas de acessibilidade, como a adequação do acesso às seções e a prioridade nas filas, podem favorecer o comparecimento de um eleitorado para o qual o voto é facultativo. “Quando o voto não é obrigatório, o comparecimento elevado desse grupo depende de estímulos contínuos”, afirma Mayres.