Política

Eleitor alagoano não liga para alianças dos candidatos

Durante a pré-campanha, tem sido comum ver carros adesivados com nomes de pré-candidatos que são adversários

Por Emanuelle Vanderlei 01/08/2026 06h03
Eleitor alagoano não liga  para alianças dos candidatos
Eleitorado tem tomado decisões sobre em quem votar, priorizando inicialmente a sua situação política e econômica - Foto: Adailson Calheiros

Com os adesivos ganhando os carros nas ruas de Alagoas, é possível perceber que as escolhas de cada eleitor não seguem um roteiro muito linear com os planos dos partidos e candidatos. Se por um lado o senador Renan Calheiros (MDB) é aliado de primeira hora do presidente Lula (PT), o eleitor coloca em seu carro o adesivo dele junto ao nome de Flávio Bolsonaro (PL).

Arthur Lira (PP), pré-candidato ao Senado e JHC (PSDB), pré-candidato ao Governo de Alagoas, podem estar separados e não terem fechado aliança, mas no carro de outro eleitor, estão lado a lado, dividindo espaço inclusive com Alexandre Ayres (MDB), candidato a estadual do grupo de Renan, que não tem acordo com nenhum dos dois.

Uma significativa parcela reproduz esse comportamento nos carros e até declara que não liga para partidos, vota nas pessoas. A empresária Miceia Santos costuma decidir em quais candidatos votar observando apenas o perfil individual. “Para mim não faz diferença o partido, eu sempre penso na pessoa que ela é e no que ele faz”.

Esse ano, para as duas vagas no Senado, pretende votar no deputado Alfredo Gaspar, e também no senador Renan Calheiros. O fato de eles se posicionarem como antagonistas e estarem em grupos diferentes, não interfere na decisão dela. “Eu não estranho, acredito que cada um tem suas qualidades e individualidades”.

Ela reconhece que não lembra em quem votou para deputado estadual, deputado Federal e senador nas eleições de 2022, mas mesmo assim, observando o sistema eleitoral no Brasil, ela é favorável. “Acho um formato muito original e seguro”.

O curioso é que, de acordo com o sistema eleitoral brasileiro, a lógica é inversa. O cientista político Ranulfo Paranhos explica.

“O nosso sistema eleitoral está desenhado olhando para responsabilização e para a legislação, toda ela montada em torno do partido político. Então, a vaga pertence ao partido político, a captação do recurso pertence ao partido político, então quanto mais parlamentares na Câmara dos Deputados e senadores maiores os recursos, o fundo partidário anual que chega na conta do partido político e é redistribuído pelo partido político, e internamente ele pode definir como pode fazer a distribuição, o fundo eleitoral também chega na conta do partido político e aí tem uma regra só para financiamento de campanhas para mulheres, mas no geral, todo o comportamento eleitoral no Brasil ele é feito olhando para o partido político”, explica Paranhos.

A contradição entre a regra e sua aplicação, pode ser explicada por alguns detalhes.

“A gente sempre tem regras que estão olhando para o sistema partidário, isso implica em dizer que em tese o sistema partidário é muito importante no Brasil. Agora quando a gente vai para a prática eleitoral isso não se traduz como a gente esperava. Porque na prática eleitoral o eleitor não vota no partido. Isso porque a gente tem um sistema de lista aberta e não de lista fechada. Então o sistema de lista aberta vai dizer que os candidatos concorrem, inclusive dentro dos próprios partidos e aquele mais votado, depois de obtido o quociente eleitoral, vai ser o cara que vai assumir a vaga”.

Ele faz a ressalva que, mesmo o mais votado assumindo a vaga, ele não tem autonomia.

“As vagas proporcionais [vereador, deputado estadual, deputado federal], ela não pertence nem ao eleito. Ela pertence inclusive de novo ao partido político. Para você ver o peso que o partido político tem. Agora, na prática, no dia a dia, no eleitor, aí você vai encontrar votos de grupos totalmente diferentes. Então você vai encontrar uma pessoa que pode optar por um deputado federal que pertence ao partido X e um deputado estadual que é oposição ao partido X. É o menos X, e um governador que é inclusive já um outro, é o X mais um. Então são três vertentes diferentes para um mesmo eleitor”.

Para explicar por que isso acontece, Paranhos fala sobre o modelo eleitoral.

“Tem alguns fatores que explicam. Primeiro, o nosso modelo de sistema de lista. Se o partido oferecesse a lista e você votasse no partido e aí o partido tivesse uma lista com o primeiro colocado, o primeiro da nossa lista é esse, o segundo é esse e a votação fosse feita no partido, a gente teria uma outra lógica, mas não é essa, a gente escolhe o candidato”.

Ele também atribui isso à realidade da vida de cada eleitor. “É a trajetória do voto personalista. Então o indivíduo racionaliza o seu voto, ou seja, ele escolhe em quem votar baseado numa série de escolhas e essas escolhas dizem respeito primeiro à perspectiva de melhoria das suas condições econômicas, é o que a gente chama de voto econômico. Isso é uma teoria testada desde a década de 70, do século passado. Então, a gente já tem 50 anos de teste dessa teoria. E é a que melhor explica o voto, a teoria do voto econômico”.

Fora isso, ele não descarta as relações pessoais. “Quanto mais próximo do eleitor é o candidato, e isso depende do nível da campanha, maior probabilidade de que a imagem, a persona do candidato se coloque acima do partido político, dos interesses ideológicos, das questões partidárias. Isso quer dizer o seguinte, se você tem eleições municipais, vereadores são muito próximos de eleitores. Quando as eleições são essas gerais, deputados estaduais, federais, governadores, senadores, presidente da República, à medida que você tem o candidato mais distante, então o mais próximo é o deputado estadual, depois o deputado federal, depois o senador, depois o governador, depois o presidente da república”.

A proximidade, segundo Ranulfo Paranhos, se dá com as ações de cada político.

“O mais próximo que eu estou falando é: é aquele que ele tem mais contato. Então é mais provável que um eleitor de interior tenha mais contato com o candidato a deputado estadual, por conta das relações desse candidato com o prefeito, por conta dessa relação desse candidato a deputado estadual com os líderes locais, com o pessoal que atua nos bairros o pessoal que atua em ONG, ou que enviou emenda para o próprio prefeito. Isso gera uma aproximação. Essa aproximação vai gerar uma imagem de personalidade. Eu vou votar porque, independentemente do cara ser eh de partido A ou B, de defender ideologia macro X ou Y, eu estou votando nele porque é de meu interesse votar nele porque eu estou muito mais próximo”.

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