Política

Pré-candidatos veem lideranças evangélicas fiel da balança de votos

Ex-prefeito JHC e senador Renan Filho mantêm nas suas agendas de campanha reuniões com religiosos

Por Emanuelle Vanderlei / Tribuna Independente 13/06/2026 08h00 - Atualizado em 13/06/2026 08h47
Pré-candidatos veem lideranças evangélicas fiel da balança de votos
JHC e Renan Filho consideram que o papel do público religioso é cada vez mais determinante nas eleições e ambos garantem maior atenção política nesse período de pré-campanha em Alagoas - Foto: Sandro Lima e Edilson Omena

Na corrida pelo apoio de aliados para as eleições de outubro deste ano em Alagoas, os pré-candidatos têm disputado a atenção de lideranças evangélicas. Organizados, os evangélicos já conquistaram representatividade eleitoral nos espaços de poder, a exemplo da Assembleia Legislativa do Estado (ALE) e Câmara Municipal, e pretendem crescer apresentando candidatura a deputado federal em 2026. Mas, não se trata de um agrupamento simples, coeso, na prática são algumas dissidências e assim os diferentes grupos políticos tentam trazer para perto as lideranças que conseguem abertura.

O ex-prefeito de Maceió, JHC (PSDB), que tem se apresentado como pré-candidato ao Governo do Estado, mantém cotidianamente publicações de trechos bíblicos em suas redes sociais e vem direcionando ações para conquistar esse público, reivindica uma relação consolidada.

Em nota enviada pela assessoria, o partido do ex-prefeito reconhece o peso que o grupo tem. “O PSDB Alagoas entende que a população evangélica representa uma parcela significativa da sociedade e contribui de forma relevante para o desenvolvimento social, comunitário e humano do estado. O diálogo com esse segmento ocorre de forma natural e permanente, assim como acontece com diversos outros setores da sociedade. A relação é pautada pelo respeito à liberdade religiosa, pela valorização da participação cidadã e pela construção de políticas públicas que atendam às necessidades da população como um todo”.

O partido coloca JHC como aliado da causa e próximo desta base. “No caso do pré-candidato ao Governo de Alagoas, JHC, trata-se de uma relação construída ao longo dos anos, baseada na convergência de valores como compromisso social, defesa da família e atenção às demandas das comunidades. Esse diálogo faz parte de uma atuação pública que busca ouvir diferentes segmentos da sociedade e construir soluções que beneficiem a todos os alagoanos”.

Durante boa parte de sua gestão na prefeitura, JHC manteve uma relação com lideranças como Gunnar Nunes, pré-candidato a deputado federal, e o deputado Mesaque Padilha (União Brasil). Mas houve ruptura e até exoneração massiva de comissionados indicados por ele após o anúncio da filiação de Gunnar ao PP, do deputado federal Arthur Lira, que é pré-candidato ao Senado.

Em maio deste ano, Gunnar e Mesaque estiveram reunidos com Renan Filho (MDB), pré-candidato ao Governo do Estado, gerando a notícia de que estariam apoiando a candidatura do senador ao Governo de Alagoas, mas o apoio não foi confirmado por eles.

Apesar de o público evangélico ser visto como um campo consolidado mais à direita, Renan Filho tem conseguido avanços nesse campo. Em abril deste ano, o senador esteve reunido com o pastor presidente da Assembleia de Deus em Alagoas, José Orisvaldo, na sede da igreja, no bairro do Farol, em Maceió.

De acordo com o que foi divulgado pelos participantes à época, a reunião contou com a presença de integrantes da igreja e lideranças religiosas. E o senador destacou a importância da atuação da instituição na transformação social, falando sobre o acolhimento de famílias e a construção de valores, além de reconhecer a contribuição da igreja na mudança de vidas.

Em declaração de Renan Filho na ocasião, ele defendeu que está candidato para evitar retrocesso nas comunidades, onde alega ter transformado a realidade social. “Fui eleito senador, tenho mandato até 2031, mas o Estado, como uma obra, se não for cuidado com dedicação, pode se deteriorar rapidamente. Precisamos garantir condições para que o Estado continue avançando”, afirmou.

NO RADAR

Na visão da cientista política Luciana Santana, é natural que esse público esteja no radar dos postulantes.

“A base de evangélicos hoje no Brasil é um grupo muito almejado pelos políticos de uma forma geral, tanto os cargos majoritários quanto proporcionais, porque os evangélicos aumentaram muito, ocupando um espaço relevante e adentrando as disputas políticas e ideológicas. Buscar a base nesses grupos, em lideranças dos movimentos e denominações evangélicas tem sido uma estratégia importante para viabilizar mesmo o capital político eleitoral nessa perspectiva”, contextualiza.

O advogado Gustavo Ferreira, especialista em Direito eleitoral, explica que há liberdade de manifestação de voto, mas algumas ações podem gerar problemas para os candidatos favorecidos.

“Não só sobre igrejas evangélicas, mas sobre a igreja em geral, católicas, religiões em geral. Tanto de candomblé, umbanda, sinagogas, mesquitas e por aí vai. Não existe dentro do Direito Eleitoral brasileiro nenhum abuso de poder religioso, essa figura não está prevista na legislação. Então, o fato de uma igreja apoiar um candidato ou outro, está no exercício regular que ela tem de defender a sua fé, defender aqueles candidatos que ela entenda que estão em conformidade com essa fé. É como um sindicato quando declara apoio para uma candidatura. No entanto, da mesma forma que os sindicatos, devem ter cuidado com o uso de recursos financeiros”, explica.

MP Eleitoral acompanha as denúncias sobre abusos de poder político

Apesar de ser um apoio importante nas eleições, é preciso ter cautela ao usar essa estrutura das parcerias que garantem o voto dos evangélicos. O Ministério Público Eleitoral (MPE), que atua no sentido de fazer o controle social de forma independente nos processos eleitorais, orienta a não ultrapassar o limite da legalidade.

De acordo com a Procuradoria Regional Eleitoral em Alagoas (PGR/AL), sempre durante o processo eleitoral há um acompanhamento de eventuais denúncias e notícias de irregularidades relacionadas à captação ilícita de votos e aos abusos de poder previstos na legislação eleitoral.

“A Constituição Federal assegura a liberdade religiosa e a livre manifestação de crenças. No entanto, a utilização da estrutura, dos recursos ou da autoridade de organizações religiosas para favorecer candidaturas pode, em determinadas circunstâncias, configurar abuso de poder político ou econômico, desde que demonstrados o desvio de finalidade e o comprometimento da igualdade de oportunidades entre os candidatos”, ressaltou a PGR/AL.

Observando o histórico do próprio Tribunal, a orientação tranquiliza sobre a atuação individual das pessoas, mas alerta sobre os espaços.

“A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral [TSE] firmou entendimento de que não existe a figura autônoma do chamado ‘abuso de poder religioso’. Entretanto, atos praticados por meio de igrejas ou de lideranças religiosas podem ser enquadrados nas modalidades de abuso já previstas na legislação eleitoral, a depender das circunstâncias de cada caso concreto”.

Marcial Coelho ressalta que o MP Eleitoral monitora denúncias e analisa cada situação para preservar igualdade (Foto: Assessoria CNMP)

Embora não haja, neste momento, atuação específica ou recomendação voltada exclusivamente a esse tema em Alagoas, o Ministério Público Eleitoral orienta candidatos, partidos, lideranças religiosas e eleitores a observarem rigorosamente as normas eleitorais, preservando a liberdade de escolha do eleitor e a lisura do processo democrático.

“A legislação eleitoral estabelece limites que devem ser observados por todos os atores envolvidos no processo democrático. O Ministério Público Eleitoral acompanha eventuais denúncias e analisa cada situação concretamente, sempre com o objetivo de preservar a igualdade de oportunidades e o equilíbrio entre os candidatos, preservando a liberdade de escolha dos eleitores”, comentou o procurador regional eleitoral em Alagoas, Marcial Coêlho.