Política
Movimento negro quer mudar nome de escola em Atalaia
Escola presta homenagem ao bandeirante Domingos Jorge Velho, responsável pela morte de Zumbi dos Palmares
A proposta da defensora pública estadual Carina de Oliveira Soares, de debater com a população e as autoridades de Atalaia a mudança no nome da escola pública municipal Domingos Jorge Velho — bandeirante paulista responsável pela destruição de Palmares e pela morte de Zumbi — foi bem recebida por lideranças do movimento negro e de religiões de matriz africana.
Os historiadores e antropólogos ouvidos pela reportagem da Tribuna Independente também defenderam a mudança no nome da escola, a exemplo do que vem acontecendo em outras cidades. Para o professor Alex Rolim Machado, historiador formado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), manter o nome do bandeirante na escola, além de uma afronta, representa uma lembrança macabra.
“Quando aceitou a oferta de destruição do Quilombo dos Palmares, negociou com a Coroa portuguesa muitas benesses, dentre elas terras, escravos e até mesmo a jurisdição de uma vila que viesse a construir em território palmarino. Seu intuito, na destruição de Palmares, era saborear a vida confortável de senhor de escravos que tanto conhecemos nos livros de história. Não conseguiu de imediato essa vida mansa, pois era um agente da sociedade branca e escravista”, afirmou Alex Rolim, que é um estudioso do assunto.
Antropóloga
Para a antropóloga Rachel Rocha, ex-reitora da Ufal, a iniciativa de dar à escola o nome do bandeirante assassino de Zumbi só “aconteceu porque a história vem sendo contada sempre pelos mesmos, os brancos vencedores… mas não esqueçamos que a história tem vieses, olhares e experiências plurais e deve ser enxergada com todas as suas nuances. O despertar de uma consciência sobre nosso próprio papel na história”.
Já o jornalista e babalorixá Fernando CPI afirmou ser uma contradição histórica um município como Atalaia, que serviu de refúgio para os remanescentes do Quilombo dos Palmares, prestar homenagem ao assassino de Zumbi. “Homenagear quem perseguiu, destruiu e derramou o sangue de um símbolo de resistência é mais do que um erro, é uma afronta à memória, à dignidade e à ancestralidade de um povo inteiro. Zumbi dos Palmares não foi apenas um homem, foi um herói nacional”, destacou CPI.
Na opinião de Pai Célio, é um absurdo manter uma escola pública com o nome do bandeirante, por isso ele defende a mudança. “Outra coisa: a gente tem conhecimento, através da história, que boa parte das terras de Atalaia pertencia a esse bandeirante que dá nome à escola, terras que ele ganhou como recompensa pelo extermínio de negros escravizados e pela destruição do Quilombo dos Palmares. Portanto, precisamos trocar o nome dessa escola urgentemente”, defendeu.
Segundo a jornalista Valdice Gomes, editora da coluna Axé, publicada pela Tribuna Independente, a mudança de nome dessa escola faz parte da estratégia de luta do movimento negro por igualdade racial, em defesa da verdade e da memória. Ela destacou que as entidades e a Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas (OAB/AL) estão unidas em torno dessas mudanças, a exemplo da proposta que altera o nome da Avenida Fernandes Lima para Avenida Mãe Marcelina — a mãe de santo assassinada por milicianos durante o episódio que ficou conhecido como “Quebra de Xangô”, ocorrido em Maceió, em fevereiro de 1912.
Segundo a defensora pública Carina Soares, a prefeitura e a Câmara Municipal de Atalaia já foram notificadas sobre a requisição feita por ela quanto às providências que os poderes Executivo e Legislativo devem tomar em relação à mudança no nome da escola. Os ofícios foram encaminhados à Prefeitura e à Câmara no dia 9 de abril, com prazo de dez dias para a manifestação do prefeito Nichollas Theotônio e do presidente da Câmara, vereador Cícero Santos. “Depois dessas duas manifestações, vamos marcar a data da audiência pública e convocar a população para debater o assunto com especialistas nesse tema”, revelou a defensora.

Rua de São Paulo foi rebatizada em homenagem a Zumbi dos Palmares
Segundo o defensor público estadual Othoniel Pinheiro, que impetrou ação na Justiça para mudar o nome da Avenida Fernandes Lima para Avenida Tia Marcelina, uma rua no centro de São Paulo foi rebatizada e, no lugar do nome do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, passou a se chamar Zumbi dos Palmares — em homenagem ao líder negro assassinado em 20 de novembro de 1695.
A rua, desde 2023 com nome novo, tem pouco mais de 100 metros e fica na esquina da Avenida Santos Dumont, no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo.
Na história do Brasil, o bandeirante paulista Jorge Velho e Zumbi dos Palmares ocupam lugares opostos: o primeiro é considerado o maior exterminador de índios e negros escravizados; o segundo é herói nacional e reconhecido como o maior líder negro da América do Sul de todos os tempos.
Zumbi nasceu em Alagoas em 1655 e é um dos maiores representantes da resistência negra à escravidão. Foi um dos últimos líderes do Quilombo dos Palmares, uma verdadeira cidade autônoma que chegou a ter mais de 20 mil habitantes e que, por mais de 100 anos, foi um importante foco de resistência. Zumbi foi assassinado em 20 de novembro de 1695, em uma emboscada. A data virou o Dia da Consciência Negra.
Já o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho é conhecido por expedições e genocídios contra povos indígenas e a população negra quilombola do século XVII. Documentos históricos apontam que ele foi o responsável pela destruição total do Quilombo dos Palmares.
A mudança é reflexo da luta do movimento negro em busca de reparações históricas. Nos últimos anos, as homenagens aos bandeirantes — tão frequentes em todo o estado de São Paulo — têm sido pauta de debates e protestos.
Em entrevista à imprensa, Gisele Brito, coordenadora da área de Direito a Cidades Antirracistas do Instituto de Referência Negra Peregum, disse à época que a homenagem é um sinal de que minorias estão encontrando brechas para participar das decisões de gestão da cidade.
O projeto de mudança do nome foi apresentado pelo vereador Toninho Vespoli, do PSOL. A proposta foi aprovada pela Câmara Municipal de São Paulo e, após aprovação, encaminhada para sanção do prefeito Ricardo Nunes. Como o prefeito deixou vencer o prazo e nem sancionou nem vetou a lei, ela voltou para a Câmara, que terminou por sancioná-la no lugar do prefeito.
No entanto, a proposta original de rebatizar a rua partiu do projeto Zumbi Resiste, formado por alunos da Universidade Zumbi dos Palmares, instituição de ensino superior localizada a menos de dois quilômetros da antiga rua Domingos Jorge Velho.
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