Política

26 de novembro de 2020 18:40

Deputado coordenador da campanha de JHC é suspeito de esquema de rachadinha na ALE

Todo mês, servidores do gabinete do deputado Davi Maia devolvem a ele parte dos salários

↑ Parte dos salários dos funcionários do gabinete é devolvida, no que se chama de 'rachadinha' (Imagem Reprodução)

Com a ajuda de uma secretária parlamentar e de um irmão, o deputado estadual Davi Maia (DEM) comanda um esquema de “rachadinha” com o salário dos servidores de seu gabinete na Assembleia Legislativa. O irmão do parlamentar que opera o negócio, Marcelo Maia, é assessor do deputado João Henrique Caldas (PSB), candidato a prefeito de Maceió. Davi Maia, por sua vez, é o coordenador da campanha de JHC. A Tribuna teve acesso a um conjunto de diálogos mantidos por WhatsApp que confirmam a prática do suposto crime.

Nas conversas pelo aplicativo, Cláudia Marques Freire, secretária parlamentar de Davi Maia, aparece combinando com servidores a devolução de parte do salário. Em alguns casos, ela lembra o número da conta da Caixa Econômica na qual o servidor deve depositar o dinheiro. E chega a enviar uma imagem do cartão do banco para o funcionário conferir os dados (ver ilustração).

Cláudia Marques também mostra preocupação com a segurança da operação. E manda um alerta para o servidor sobre o local de depósito. “Boa tarde. Oiã, faz o depósito na loteria visse. Pq não identifica” [a reportagem reproduz a grafia original das mensagens].

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Diálogos mostram a operação (Foto: Reprodução)

A mesma preocupação com o sigilo da trama financeira aparece em outras conversas da secretária no WhatsApp. “Bom dia. se vc puder fazer via lotérica eu agradeço”, fala a operadora de confiança de Davi Maia. Do outro lado um servidor responde: “Vou tentar. Se conseguir, aviso, tá?”. A secretária arremata o acerto: “Ok, obrigada. Era isso viu que queria acertar contigo”. O depósito nas lotéricas não deixaria rastros das movimentações bancárias.

Em outra conversa, Cláudia Marques orienta uma servidora a, depois de sacar o dinheiro, deixar o valor, em espécie, no escritório de Davi Maia. “Deixa dentro da gaveta que segunda eu estarei no terra”, diz a secretária numa referência ao Edifício Terra Brasilis, na praia da Avenida, onde está localizado o escritório do deputado.

No papel de recolher parte do salário dos servidores – o dinheiro da “rachadinha” –, a secretária Cláudia Marques atua em parceria direta com Marcelo Maia, o irmão de Davi Maia e assessor de JHC. Depois de receber o repasse da secretária, Marcelo entrega tudo para o irmão Davi, fechando o círculo do esquema.

Outro diálogo mostra que Maia é rigoroso na cobrança pelo salário do servidor. A data de repasse tem que ser imediatamente depois do pagamento do salário feito pela Assembleia. “Meu lindo, o salário já tá na conta desde ontem, as meninas já trouxeram e só falta você”, reclama a secretária Cláudia Marques para um funcionário que atrasou a devolução da parte de seu rendimento. “Quero isso logo que Marcelinho vem já aqui no gabinete p pegar”, diz ela numa referência ao gabinete de Davi Maia na ALE. O servidor responde: “Oi Cau, assim que eu estiver indo p a ALE eu vou logo na caixa da praça sacar e levo”. “Caixa”, nesse caso, é a agência da Caixa Econômica da Praça D. Pedro II, ao lado da sede da Assembleia.

“Vc tirou o negócio???”. Começa assim outro diálogo sempre entre a secretária Cláudia Marques e algum servidor do gabinete de Davi Maia. “Negócio” aqui significa dinheiro. “Tirei ainda não. Quer que eu vá agora? Posso tirar 1,5”, responde o interlocutor numa referência ao valor de R$ 1,5 mil a ser devolvido. “Pego tudo amanhã, visse”, reforça a secretária.

As conversas que aparecem nas gravações ocorreram entre dezembro de 2019 e julho deste ano. A sequência mostra que o esquema funciona de maneira sistematizada, devidamente organizado, de modo a garantir mês a mês o repasse do salário dos servidores para as mãos do deputado Davi Maia.

MCCE

O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) vai entrar com representação na Polícia Federal em Alagoas para que o caso seja apurado, afirmou um membro do grupo em Alagoas à reportagem.

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