Política

28 de março de 2020 12:19

Opiniões causam isolamento político de Bolsonaro

Pronunciamentos de presidente geram impacto negativo na classe, sobretudo no enfrentamento ao Covid-19

↑ Recomendações de Bolsonaro passam incólumes pela classe política (Foto: Divulgação)

Jair Bolsonaro (sem partido) foi ao rádio e à tevê para defender o fim do isolamento social no combate ao contágio em massa do coronavírus (Covid-19). Para ele, apenas os idosos e enfermos devem ficar confinados e a doença não passa de “uma gripezinha”. Sua fala gerou descontentamento de todas as partes.

Os governadores ignoraram sua ideia e mantiveram as medidas de isolamento para achatar a curva de contágio; o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) concedeu entrevista coletiva para defender o oposto do titular; os presidentes da Câmara e do Senado se manifestaram em defesa das medidas estaduais; e até aliados no Congresso Nacional, a exemplo do senador Major Olímpio (PSL), se manifestaram contra o defendido pelo ex-capitão.

Ao que aponta, outro ator da vida pública brasileira deve entrar em isolamento: o próprio Jair Bolsonaro. Isso inclusive entre seus colegas chefes de Estado. Dos países atingidos pela pandemia, apenas o presidente brasileiro – até o fechamento desta edição – defende o fim do isolamento social em massa. Nem mesmo Donaldo Trump, dos EUA, e ídolo de Jair Bolsonaro, adota tal discurso.

As ações recentes de Jair Bolsonaro têm gerado pedidos de impeachment na Câmara dos Deputados. Uma petição online, organizada pelo PSOL, até a noite da última quinta-feira (26), tinha 750 mil assinaturas.

Para a cientista política Luciana Santana, não há condições políticas para um processo de impeachment do presidente da República. Em sua avaliação, justamente pela causa dos recentes descontentamentos com Jair Bolsonaro.

“Hoje não há condições políticas para o Congresso acatar um processo de impeachment. Quem acompanhou o processo da Dilma [Rousseff, PT] lembra como foi bastante desgastante e demandando a presença dos parlamentares. Hoje, com os trabalhos se dando de forma remota, não consigo vislumbrar um cenário com um processo de impeachment acontecendo”, avalia. “Isso não quer dizer que avalie as ações do Bolsonaro sensatas. Ao contrário, avalio como irresponsáveis e prejudiciais à população. O fato de não haver condições para abertura de um processo de impeachment, não significa que as instituições não devam atuar para barrar ações do Executivo. É função do Legislativo, por exemplo, fiscalizar as ações e apresentar medidas para deixar a população mais tranquila”, completa Luciana Santana.

Ainda na avaliação da cientista política, os governadores têm “sido mais responsáveis” no combate à pandemia do coronavírus no Brasil. Ela ressalta a necessidade e de cautela com as próximas ações em relação ao isolamento.

“O isolamento total não foi instituído no Brasil, locais considerados prestadores de serviços essenciais seguem funcionando. Precisamos ter cautela em relação ao que será feito nos próximos dias, se o isolamento será ou não flexibilizado e os impactos disso”, comenta Luciana Santana.

Deputada cita que presidente opta por ataques

Tribuna Independente buscou ouvir a opinião de alguns deputados federais. Para Tereza Nelma (PSDB), as ações do Governo Federal não atendem às necessidades da maioria da população.

“É um governo que não tirou do papel nenhuma das medidas que propôs, e que não representam recursos novos, mas apenas antecipações de recursos dos próprios trabalhadores. Pura enganação. Chegou ao cúmulo de propor a suspensão dos contratos de trabalho por quatro meses, sem nenhuma compensação para os trabalhadores. Atacou também direitos da população pobre, dos ambulantes e desempregados, além de investir novamente contra as pessoas com deficiência”, afirma a parlamentar.

Já o deputado federal Paulão (PT) aponta isolamento político do presidente, que segue apostando em discursar para seus eleitores como forma de disputa com os demais poderes e a imprensa. Já o deputado federal Paulão (PT) aponta isolamento político do presidente, que segue apostando em discursar para seus eleitores como forma de disputa com os demais poderes e a imprensa.

“Percebo o seu isolamento. O vice-presidente fez uma ‘live’ da Amazônia fazendo observações diferentes à fala do Bolsonaro; o ministro do Exército fez uma fala sem citar o Bolsonaro como chefe maior das Forças Armadas; a gente percebe uma parte do empresariado mantendo distância, a não ser aqueles que querem tirar proveito desse debate econômico versus coronavírus que, em minha visão, é um grande equívoco. Os dois presidentes do Congresso – Senado e Câmara – criticaram a fala de Bolsonaro; ministros do STF também criticando; e a grande imprensa, que teve papel no último processo eleitoral, reagindo. Ele está em processo de isolamento, mas aposta em dialogar com seus eleitores e criar desobediência às orientações da OMS”, afirma Paulão.

“Governo aposta no quanto pior, melhor”, avalia economista

Se do ponto de vista político, o presidente Jair Bolsonaro briga para não se isolar, no âmbito econômico sua postura visa à instauração de caos para conseguir aprovar as reformas de sua equipe. A avaliação é do economista Cid Olival.

“O governo tem se mostrado pouco preocupado com as questões sociais e humanitária e bastante interessado nas questões econômicas que favoreçam às grandes corporações. Em função disto, há uma inação ou uma atuação não condizente com a rapidez que a crise exige. Para mim, o governo trabalha com a ideia de quanto pior, melhor”, afirma. “O governo luta para instaurar o caos econômico e instabilidade na sociedade para conseguir aprovar as reformas que pretende, todas elas liberais. Com o caos econômico, fica mais fácil passar algumas dessas medidas, impopulares no Congresso. A bola da vez é a reforma administrativa, que quer destruir o serviço público federal brasileiro, e retirar, cada vez mais o Estado da atividade econômica e da atuação em diversos setores para favorecer alguns grupos econômicos do país”, completa o economista.

Em sua avaliação, o pronunciamento do presidente sobre a pandemia na última terça-feira (23), foi mais uma demonstração de sua predileção pelas grandes corporações.

“Tudo que o governo Bolsonaro tem feito é para agradar aos grandes empresários, seja do setor produtivo ou do financeiro. É um governo sem qualquer tipo de preocupação com as camadas menos favorecidas da sociedade. Um dos exemplos disso é o anúncio da suspensão dos contratos de trabalho por três meses, num primeiro momento”, diz Cid Olival.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Carlos Amaral

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