Política

13 de janeiro de 2020 09:29

Rei do Mambo: quem é o dançarino de lambazouk que atacou o Porta dos Fundos

Ás do ritmo, guardador de carros, integralista. Até os “terroristas” brasileiros são uma piada

↑ ‘Uma Blasfêmia sempre será infinitamente pior do que qualquer reação contra ela’, justifica o foragido (Foto: Reprodução)

Basta buscar por “Eduardo Fauzi” no YouTube para encontrar na lista de resultados dois tipos de vídeos com conteúdo contrastante: no primeiro, um homem alto e forte, de camisa aberta, dança com bailarinas em performances profissionais de lambazouk, ritmo caribenho de dança de salão. No segundo, o mesmo cidadão agride ao vivo, em 2013, com um soco na cabeça, o então secretário de Ordem Pública do Rio de Janeiro, Alex Costa, por ocasião do fechamento de estacionamentos irregulares no Centro carioca. As duas atitudes vêm do único suspeito identificado pela Polícia Civil como participante do ataque com coquetéis molotov à produtora Porta dos Fundos, na Zona Sul da cidade, em 24 de dezembro.

Apelidado de “Rei do Mambo” ou apenas “Mambo” pela perícia na dança de salão, Eduardo Fauzi Richard Cerquise foi o reconhecido entre os cinco suspeitos que a polícia considera terem participado do ataque, uma vez que, ao contrário dos demais, ele aparece com o rosto descoberto nas imagens de câmeras de segurança. Segundo os agentes, Mambo teria sido o responsável por dirigir o veículo utilizado na ação, além de filmá-la, o que foi suficiente para que um mandado de prisão fosse expedido contra ele no dia 30, seguido de uma batida em seus endereços. Àquela altura, Fauzi, que se define como guardador de carros por estar ligado ao ramo de estacionamentos, tinha embarcado para Moscou, onde tem filho e namorada. Em entrevista ao site Projeto Colabora, em terras russas, afirmou não se arrepender, justificou a ação a partir de dogmas cristãos e disse ter recebido informações de que seria preso a tempo de deixar o País.

A polícia pediu a inclusão de Fauzi na lista de procurados pela Interpol e o Itamaraty deu início, na terça-feira 7, aos trâmites para o processo de extradição. Os outros suspeitos ainda não foram identificados e a polícia afirma que “as investigações estão em andamento”, com “os agentes analisando informações, provas obtidas e documentos”, além de o caso ter sido “tratado inicialmente como crime de  explosão e tentativa de homicídio”, e não como ataque terrorista. Ainda assim, Fauzi tem passagem de volta comprada para o fim de janeiro e disse pretender retornar nessa data para “enfrentar as consequências”, embora afirme ter ingressado com pedido de asilo político na Rússia.

Mambo acumula 20 anotações criminais, entre elas a de ameaça e agressão denunciadas pela ex-mulher, além de ser investigado por envolvimento com milicianos em estacionamentos rotativos irregulares no Centro do Rio – o que levantou suspeitas sobre os tipos de “conexões” que o teriam colocado a par dos procedimentos internos da polícia que resultaram em seu mandado de prisão.

Foi com surpresa que alunos da Faculdade de Economia receberam a notícia de que Eduardo Fauzi é egresso da instituição. “Barbárie”, “vergonha”, “vamos fazer um ato de repúdio!”, escreveram alguns estudantes em um grupo do Facebook. Politicamente, era filiado desde 2001 ao PSL, antigo partido do presidente Jair Bolsonaro, e também à Frente Integralista Brasileira. As duas organizações resolveram expulsá-lo depois de divulgada sua relação com o ataque à produtora.

O obscurantismo não dá, porém, tréguas. Na quarta-feira 8, o desembargador Benedito Abicair, da 6ª Câmara Cível do Rio de Janeiro, acatou uma ação da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura e mandou a Netflix retirar do ar o Especial de Natal Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo. O desembargador refez uma decisão de primeira instância, que havia negado a censura ao material. O especial de 46 minutos apresenta Jesus, interpretado pelo humorista Gregório Duvivier, surpreso com uma festa de aniversário de 30 anos ao voltar do deserto acompanhado pelo namorado, Orlando, desempenhado por Fábio Porchat. Na quinta-feira 9, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, concedeu liminar autorizando a exibição.

Nos depoimentos concedidos, o economista e empresário deixa clara a motivação religiosa do ataque ao Porta dos Fundos. Na entrevista ao Projeto Colabora, o fugitivo afirma que “um cidadão imerso na pós-modernidade liberal e ateísta não tem como acessar a violência simbólica do ato de profanação causado pelo Especial de Natal do Porta dos Fundos” e que “uma blasfêmia sempre será infinitamente pior do que qualquer reação contra ela”.

Apesar de ter afirmado a intenção de voltar ao Brasil no fim do mês, “a menos que não se sinta seguro”, o processo de extradição de Fauzi, ainda a ser encaminhamento às autoridades russas, formaliza a atitude sob um acordo de cooperação entre os dois países.

Caso o pedido seja aceito, após passar pelo Departamento de Recuperação de  Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça e o Ministério das Relações Exteriores, o Brasil tem 60 dias para retirá-lo da Rússia e, ainda de acordo com a lei acertada entre os dois países, Fauzi não poderá cumprir pena maior do que teria se fosse condenado pelo mesmo crime em solo russo.

Não é prudente esperar um empenho do governo brasileiro. Passadas três semanas do ataque, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi incapaz de se pronunciar a respeito dos acontecimentos.

Seu chefe, Jair Bolsonaro, fez pior: manteve o silêncio em relação ao Porta dos Fundos, mas condenou ardorosamente o “atentado terrorista” contra o empresário Luciano Hang, o “veio da Havan”. Poucos dias depois de Fauzi e sua turma lançarem coquetéis molotov contra a produtora do programa humorístico, uma estátua da Liberdade que enfeitava uma loja da Havan em São Carlos, no interior paulista, pegou fogo – incêndio criminoso, segundo a polícia local. “Ao empreendedor Luciano Hang, a nossa solidariedade”, escreveu no Twitter o ex-capitão.

Somos ou não o país da piada pronta?

Fonte: Carta Capital / Victor Calcagno

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