Política

7 de dezembro de 2019 10:20

“Governo nomeia para causar distrações”

Sociólogo Carlos Martins avalia que afirmações como a de Sérgio Camargo estão em consonância com interesse privado

↑ Para Carlos Martins, governo Bolsonaro tem se mostrado confuso, conservador e liberal na economia (Foto: Sandro Lima)

Uma das mais recentes polêmicas do governo Jair Bolsonaro (sem partido) foi a nomeação de Sérgio Camargo para comandar a Fundação Cultural Palmares, cujo objetivo é preservar os valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência da população negra no Brasil. O novo titular do órgão, assim que assumiu a pasta, declarou ser favorável ao fim do Dia da Consciência Negra, por exemplo. Com o rebuliço, uma decisão judicial anulou sua nomeação na última semana. Para o sociólogo Carlos Martins, tudo isso é um jogo de cena para distrair a população e a imprensa, mas ele ressalta que o governo tentar travar uma “guerra santa entre deus e o diabo” em relação à cultura negra.

Tribuna Independente – O recém-nomeado presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, logo de cara, propôs o fim do Dia da Consciência Negra. Que gravidade você entende haver em episódios assim?

Carlos Martins – O propósito da Fundação Palmares é, exatamente, cuidar do patrimônio cultural que o Brasil herdou da África, da vinda dos africanos para cá. O grande problema é que esse pessoal fundamentalista entende que todos os elementos culturais de origem africana tem sentido negativo. Como eles são evangélicos em sua maioria – ou se professam cristãos –, eles trazem, historicamente, que esses elementos culturais de matriz africana fazem parte de uma paranoica guerra espiritual entre deus e o diabo e que esses elementos culturais são articulações do próprio demônio. E aí se tem essa perseguição sistemática a esses elementos culturais. O Bolsonaro já tinha feito algumas declarações achando um absurdo discutir as religiões de matriz africana nas escolas. Ele disse que a maioria da população era cristã e que, portanto, as temáticas religiosas em sala de aula deveriam ser somente cristãs para atender à necessidade da maioria. Ele chegou a dizer que as minorias devem se curvar às maiorias. O patrimônio que a Fundação tem o papel de cuidar é parte estruturante da cultura brasileira, como o samba, o carnaval, a capoeira e tantos outros elementos que foram esvaziados de sentido, como parte das Festas Juninas. Esse Sérgio Camargo cumpre um papel que todos que ocupam espaços neste governo têm cumprido, que é o de distração. É uma estratégia. Todos vêm com ‘pauta-bomba’ para promover confusão na opinião pública, demandar notícias em torno deles, enquanto o que realmente interessa segue de vento em popa, como a privatização de setores estratégicos da economia brasileira, como o setor de transporte, petróleo, telecomunicações, aéreo, marítimo, bancário. Todos os setores estratégicos, que garantem a soberania nacional estão sendo entregues ao mercado internacional. Isso tem servido para manipular os profissionais da comunicação para produzir notícias em torno disso e não pautar as questões que deveriam ser pautadas.

Tribuna Independente – Sérgio Camargo também é negro. Como você avalia os impactos de sua postura diante das bandeiras antirracistas, ainda mais à frente da Fundação Palmares?

Carlos Martins – O fato de ele [Sérgio Camargo] ser negro não é elemento de legitimação das afirmações que faz. A cor da pele não é elemento legitimador. Há pessoas brancas que fazem contraponto ao racismo e elas são tão importantes quanto qualquer militante negro que dedica sua via à luta antirracista. Agora, também existirão muitos negros que cumprem esse papel, em nome de receber benefícios de ordem financeira ou ocupação de espaços importantes, como é o caso da Fundação Palmares. Pela moeda de troca, esses se prestam a esse serviço. Com o interesse privado acima do público, esses cumprem esse papel de capitão do mato, por exemplo. E isso é histórico, desde o período da escravidão há negros cumprindo esse papel de atuar ao lado do opressor, do escravista. Não só aqui no Brasil, mas na própria África também com a estratégia da Europa para se aliar a alguns povos que guerreavam com outros e escravizavam os derrotados. Isso é uma estratégia longa e esse sujeito [Sérgio Camargo] cumpre esse papel. Nesse caso, tinha de ser um negro para tentar legitimar, pois se fosse um branco iam logo acusar de racismo. Colocar um negro é na tentativa de neutralizar uma acusação de racismo, como se negros não pudessem ser racistas.

Tribuna Independente – A oposição ao governo Jair Bolsonaro pediu a anulação da nomeação de Sérgio Camargo para a Fundação Palmares por entender se tratar de “sabotagem” contra as políticas voltadas à população negra e isso acabou por ocorrer na Justiça. Concorda com essa posição?

Carlos Martins – Com certeza essa é juma estratégia do Bolsonaro, sim. Quando falo Bolsonaro, me refiro à toda estrutura, às cabeças que compõem esse governo louco. Querem desestruturar a cultura negra. Veja o governador do Rio de Janeiro [Wilson Witzel, PSC], que atua sistematicamente contra o carnaval carioca. Como já disse, o formato do Carnaval brasileiro é negro, construído a partir dos elementos herdados dos africanos que vieram ao Brasil. Esse pessoal fundamentalista cristão vai trabalhar sistematicamente para destruir [os elementos culturais negros], sob a concepção de que se trata de uma luta espiritual de deus contra o diabo, como se fosse uma guerra santa. Se vai encontrar muitos negros cooptados, que reproduzem essas concepções idiotas. Agora, veja quando o Bolsonaro coloca esses sujeitos, o faz sabendo exatamente o que eles pensam. Eles assumem esses espaços para fazer exatamente isso, criar cortina de fumaça. Essa repercussão é o motivo de ele ter sido colocado lá. Agora, entendo a decisão da Justiça foi acertada. Acredito que isso será a tônica do governo Bolsonaro, um setor mais avançado da Justiça fará esse contraponto. Do ponto de vista jurídico, entendo ter sido acertado, apesar de nossa legislação, no que refere ao racismo, ser equivocada. Veja, no Brasil o racismo é sempre compreendido como expressões de ofensa à população negra. Para o brasileiro, o racismo se resume a isso. O sujeito fez afirmações que ofendem à população negra, de que a escravidão fez bem, e como isso é ofensivo, foi interpretado como racismo, mas racismo vai além disso.

Tribuna Independente – Faltam poucos dias para o Brasil completar um ano de governo Jair Bolsonaro. Qual a sua avaliação das ações governamentais em relação às políticas públicas, especialmente as afirmativas?

Carlos Martins – O governo Bolsonaro, num todo, é confuso do ponto de vista ideológico. Se você pensar que é um governo que se afirma conservador, mas, ao mesmo tempo, se afirma liberal. É a velha máxima de que é conservador nos costumes e liberal na economia. O conservadorismo e o liberalismo são dois pensamentos ideológicos que se antagonizam. E a crise de identidade que paira no governo Bolsonaro se situa nesses dois parâmetros. É extremamente conservador nas pautas que tratam da relação de políticas sociais, de inclusão social, não avançam nos direitos humanos. Na verdade, retroagem.

Fonte: Carlos Amaral / Tribuna Independente

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