Política

15 de novembro de 2019 08:24

PC do B aposta no diálogo para lançar candidato

Partido lança pré-candidatura à prefeitura da capital em meio ao acirramento político lançado nacionalmente contra comunistas

↑ Cícero Filho ressalta que o partido está aberto às possibilidades políticas e não deve fechar as portas para ninguém (Foto: Edilson Omena)

A quase um ano das eleições municipais, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Maceió decidiu por apresentar uma pré-candidatura à prefeitura. Se consolidada, Cícero Filho – presidente do Sindicato dos Oficiais de Justiça de Alagoas (Sindojus) –, será a primeira candidatura a prefeito do partido na capital alagoana. E logo sob um clima de acirramento ideológico onde qualquer bandeira mais humanista virou “coisa de comunista”. Mesmo assim, para o oficial de Justiça, é possível construir sua candidatura, desde que se invista no diálogo e na tolerância. “É o melhor mecanismo para uma boa política”.

 

Tribuna Independente – O país vive um clima anticomunista paranoico, também estimulado por Jair Bolsonaro e seus filhos, e Maceió é uma das capitais onde o presidente tem maior aprovação. Como o senhor vê uma candidatura do PCdoB diante deste cenário, há viabilidade?

Cícero Filho – Encaro tudo como um grande desafio. Primeiro, pelo cenário nacional onde se criou – acredito que a partir de 2013 com aquelas manifestações e depois após a eleição da Dilma [PT] em 2014 e a postura do Aécio Neves [PSDB] – esse clima mais acentuado de rivalidade e intolerância. Esse acirramento na política brasileira, eu acho que é ruim para todo mundo. Essa visão maniqueísta, de bem contra o mal, não é bom para o país. Acho que é preciso haver equilíbrio. Agora, naturalmente, eu sei que ainda existem setores extremamente conservadores na sociedade que sempre veem com maus olhos os candidatos do campo da esquerda, mais progressista. Mas a gente sabe que isso faz parte do debate político e vamos tentar mostrar ser possível militar no campo da esquerda, ser de um partido comunista, e não necessariamente ver como inimigo quem marcha em outro campo político. Acho que o melhor mecanismo para uma boa política é o diálogo. É preciso tentar estabelecer diálogos, apesar de o momento ser difícil, tendo em vista o resultado das ultimas eleições, com o avanço dos setores mais conservadores da sociedade. Contudo, acredito ser possível estabelecer esse diálogo com muito equilíbrio. Quanto mais se acirrar, pior a situação.

Tribuna Independente – Sua pré-candidatura, se consolidada, será a primeira do PCdoB à Prefeitura de Maceió – ao menos sob a bandeira do partido. Até que ponto o senhor avalia isso como dificuldade ou como facilitador para a construção da candidatura propriamente dita?

Cícero Filho – Por ser a primeira vez que o partido pretende lançar uma candidatura majoritária em Maceió, isso aumenta a responsabilidade e o desafio. Até porque a gente não tinha como prática ter candidatos majoritários, obviamente a gente não tem – digamos – essa expertise política. Mas também vejo o lado positivo, que é o de oferecer uma alternativa, uma nova possibilidade [de voto]… É comum na sociedade alegação de falta de alternativa, de sempre são os mesmos nomes. Daí o PCdoB, de forma ousada, pois é um projeto ousado, resolver apostar num nome novo e que nunca ocupou cargo eletivo, apesar de ter uma história que tem a ver com o partido. Eu comecei minha vida profissional como músico, ainda bem jovem; depois ingressei nos Correios e fui carteiro por 6 anos e nesse período comecei na faculdade de Direito; me formei, passei na OAB e no concurso do Tribunal de Justiça. Atualmente exerço a função de oficial de Justiça, presido o sindicato da categoria e estou na diretoria da federação. Então, é um desafio, mas ao mesmo tempo abre-se uma alternativa para que a gente comece a enxergar a política com pessoas que não advém da própria política. Temos uma tradição – no Brasil também – em Alagoas da hereditariedade, dos clãs políticos.

Tribuna Independente – E como o partido está vendo a questão das alianças, o PCdoB pretende compor uma frente ou sair sozinho em 2020?

Cícero Filho – O PCdoB está aberto às possibilidades. Não se vai fechar a porta para ninguém. Na verdade, o PCdoB tem agido assim já há bastante tempo. Isso é fato e é preciso que seja dito. Temos como maior exemplo o governador do Maranhão, Flávio Dino, cujo vice na primeira eleição era do PSDB. Hoje Flávio Dino está sem eu segundo mandato, é um dos governadores mais bem avaliados do país e sua base de apoio tem 16 partidos. Isso mostra como o PCdoB é favorável a uma política menos estreita, do diálogo, ampla, onde se saiba que o objetivo maior é o crescimento dos indicadores sociais. Foi assim que aconteceu no Maranhão, com os melhores pisos salarias de professores e policiais civis. Vários avanços na saúde. Essa é nossa ideia, não estreitar e conversar com os setores políticos. Eu, particularmente, faço isso durante minha vida toda. Não tenho dificuldade nenhuma. Chega de sectarismo. Existem pessoas boas, com boas intenções em todos os partidos.

Tribuna Independente – Com a soltura do ex-presidente Lula, há quem analise que apenas ele livre já dá fôlego à esquerda no país. Acredita que se isso se mantiver até as eleições de 2020, terá influência na disputa aqui em Maceió?

Cícero Filho – Ele é um dos maiores quadros políticos do país, uma das maiores lideranças populares de todos os tempos do Brasil, inegavelmente. O papel que ele vai jogar agora solto será importante. Mas a gente também tem de avaliar pelo prisma do restabelecimento da ordem democrática. A meu ver, não era o empunhar a bandeira ‘Lula livre’ porque tinha ser ele livre. Entende? Era pela defesa da institucionalidade democrática. A Constituição brasileira, em seu Artigo 5º, inciso 57, é muito clara: só pode ser considerado culpado após o trânsito em julgado, após sentença transitada em julgado. Ou seja, é aquela que não cabe mais recurso. E isso é cláusula pétrea. Se não gosta, dentro das regras, se faz outra Constituição. Além disso, é preciso cobrar que o Judiciário atue como deve. Juiz tem de ser imparcial, ficar equidistante das partes e não pode combinar nada com nenhuma delas. É assim que consta no Código de Processo Penal.

 

Fonte: Tribuna independente / Carlos Amaral

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