Política

9 de novembro de 2019 10:10

“Bolsoraro estimula a violência”, diz a presidente da Fenaj

Segundo pesquisa da entidade que representa os profissionais, Jair Bolsonaro realizou 99 ataques à imprensa durante 10 meses

↑ Legenda da foto: Para Maria José, o jornalismo político, por sua análise, tem gerado descontentamento dos detentores de mandatos (Foto: Edilson Omena)

Este mês, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou pesquisa que realizou sobre os
ataques que o presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) tem feito à imprensa e aos
profissionais da categoria. Os dados apontam que em 10 meses, o titular do Palácio do
Planalto cometeu mais de dois ataques por semana, totalizando 99 deles. Na avaliação de
Maria José Braga, presidente da Fenaj, o ex-capitão do Exército “desrespeita a liturgia do
cargo, a Constituição brasileira e a própria democracia”.

Tribuna Independente – Um levantamento da Fenaj aponta que Jair Bolsonaro já fez 99
ataques à imprensa desde que assumiu o mandato como presidente da República. Na média,
em 10 meses, isso é mais que dois por semana. Isso é preocupante para a Federação?

Maria José – Os ataques do presidente a jornalistas e à imprensa são muito preocupantes,
porque significam uma institucionalização de ameaça à liberdade de imprensa no país.
Bolsonaro utiliza o cargo de presidente para agredir verbalmente, ameaçar e tentar intimidar
jornalistas e também para ameaçar e retaliar veículos de comunicação não alinhados ao
governo. Com isso desrespeita a liturgia do cargo, a Constituição brasileira e a própria
democracia, que não existe sem as liberdades de expressão e de imprensa. Mas há ainda outro
aspecto: ao fazer os ataques e tentar naturalizá-los Bolsonaro, por seu exemplo, incentiva que
outros, políticos ou não, também utilizem a violência como método de questionamento ao
trabalho dos jornalistas e da imprensa de uma forma geral. Jornalistas e veículos de mídia não
são isentos da crítica, mas não podemos confundir agressões com críticas. E as agressões do
presidente têm o claro propósito de promover a desacreditação do Jornalismo e dos
jornalistas. Ele quer se passar por vítima de uma perseguição que, obviamente, não existe.
Aliás, a maioria dos veículos de comunicação do país fazem uma cobertura nada crítica dos
atos e projetos do governo. Para constatar isso, basta analisar a cobertura do mais recente
pacote administrativo, que foi quase que aplaudido em vez de ser analisado.

Tribuna Independente – Outros presidentes também questionaram a atuação da imprensa,
ou de veículos específicos. O que difere agora?

Maria José – O jornalismo, especialmente o político, quase sempre gera descontentamento,
porque deve, sim, ser crítico. Outros presidentes e outros políticos já questionaram a atuação de jornalistas e veículos de comunicação, mas isso não significou uma ameaça concreta à
liberdade de imprensa, como ocorre atualmente. Bolsonaro utiliza palavras e atos para
agredir, ameaçar e retaliar. Como exemplo, podemos citar a Medida Provisória que antecipava
a entrada em vigor da desobrigação de publicação dos balanços das empresas de capital
aberto, que ele mesmo disse que era para tirar dinheiro dos jornais impressos; a ameaça de
não renovação da concessão de TV da Rede Globo e o favorecimento à TV Record na
destinação de verbas publicitárias. São medidas de governo com o claro propósito de restringir
o trabalho da imprensa.

Tribuna Independente – O presidente tem dito que irá cortar recursos destinados a órgãos
de imprensa e até mesmo falou em não renovar a concessão da Rede Globo. Qual o
posicionamento da Fenaj em relação a isso?

Maria José – A Fenaj defende que as concessões de rádio e TV sejam feitas e renovadas com
transparência, de acordo com a legislação em vigor e atendendo aos interesses da sociedade.
Elas não podem ser utilizadas para ameaçar, para conquistar apoios ou para beneficiar aliados,
como historicamente foi feito no Brasil. Do mesmo modo, as verbas publicitárias do governo
federal devem ser destinadas à divulgação de assuntos e projetos importantes para a
sociedade e devem ser democraticamente distribuídas, levando-se em conta, inclusive, os
veículos regionais e locais. Repito, o presidente não pode utilizar o cargo para restringir a
liberdade de imprensa.

Tribuna Independente – A Fenaj também tem relatado censura por parte do governo federal,
a exemplo do caso “Antenize”, dirigido por Vancarlos Alves, demitido porque a reportagem
original veiculava um cordel em que aparecia a imagem da ex-vereadora Marielle Franco. Na
versão para a internet, a imagem de Marielle foi eliminada. Acredita que esse tipo de
postura tende a aumentar daqui para frente?

Maria José – A Fenaj e os Sindicatos de Jornalistas do Distrito Federal, de São Paulo e do
Município do Rio de Janeiro têm denunciado as frequentes censuras e intimidações que estão
ocorrendo na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), desde que o golpista Michel Temer
assumiu a presidência. Essa prática foi intensificada depois da posse de Bolsonaro e com a
unificação da TV Brasil com a NBR, que transmitia os atos de governo. Sabemos que o projeto
de Bolsonaro é transformar a EBC apenas numa empresa estatal de comunicação, eliminado
inteiramente seu caráter inicial de emissora pública. Mas estamos atentos e os jornalistas e
demais trabalhadores da EBC estão resistindo e lutando para salvar a empresa da destruição e
para manter uma produção jornalística, artística e cultural de qualidade.

Fonte: Carlos Amaral / Tribuna Independente

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