Política

30 de julho de 2019 08:53

Para presidente da OAB/AL, fala de Bolsonaro foi desrespeitosa

Presidente disse saber como pai de Felipe Santa Cruz desapareceu durante a ditadura

↑ Presidente da OAB-AL, Nivaldo Barbosa Jr., cobra apuração imediata dos fatos (Foto: Edilson Omena/arquivo)

Jair Bolsonaro (PSL) agrediu o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, e a outras vítimas da ditadura civil-militar de 1964. Em entrevista coletiva, o capitão reformado do Exército disse que se o advogado quisesse, ele – Jair Bolsonaro – contaria como seu pai desapareceu naquele período.

Para o presidente da OAB em Alagoas, Nivaldo Barbosa, a fala do ex-militar foi desrespeitosa.

“Desrespeitoso e desnecessário. É de se lamentar essa postura do presidente da República em um momento em que o país clama por equilíbrio. Equilíbrio entre os poderes, entre as instituições, entre os seres humanos que passaram por um processo eleitoral conturbado. É como sempre digo: menos polêmica e mais trabalho”, afirma Nivaldo Barbosa à Tribuna.

Felipe Santa Cruz é filho de Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira, desaparecido em fevereiro de 1974, após de ter sido preso no Rio de Janeiro por agentes do DOI-CODI, o órgão de repressão da ditadura civil-militar. O que ocorreu de fato com Fernando nunca foi confirmado oficialmente.

COMISSÃO

Para o coordenador da Comissão Estadual da Verdade Jayme Miranda, o advogado Delson Lyra, a fala de Jair Bolsonaro despreza a dor das famílias de vítimas da ditadura de 1964.

“Vejo com estranheza o fato de o presidente da República abordar um assunto dessa gravidade da maneira como ele abordou, fora de contexto. É, digamos assim, com menoscabo às vítimas das barbaridades que a ditadura de 1964 impôs à sociedade brasileira. Falta de respeito com a família da vítima específica e das demais. Realmente é muito lamentável”, comenta Delson Lyra. A Comissão Estadual da Verdade Jayme Miranda encerrou suas atividades em 2017.

As mortes dos alagoanos pela ditadura civil-militar de 1964 ocorreram nas cidades do Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, mas o número de vítimas pode ser maior porque a investigação em Alagoas enfrentou dificuldades.

Não se pode reescrever a História, rebate advogado

 

As falas como a de Jair Bolsonaro atuam no intuito de reescrever fatos históricos. No caso, uma tentativa de dar outra versão à ditadura civil-militar de 1964 e todos os crimes cometidos pelo Estado brasileiro naquele período. Para Delson Lyra, esse objetivo não pode ser alcançado porque a História não muda por causa da conjuntura política.

Delson Lyra ressalta que as verdades não podem ser modificadas (Foto: Sandro Lima/arquivo)

“As verdades não se modificam porque as circunstâncias políticas tenham se modificado”, afirma o ex-coordenador da Comissão Estadual da Verdade Jayme Miranda. “Não há espaço para essa rediscussão porque o Estado brasileiro já reconheceu o que ocorreu e já assumiu responsabilidades pelo que ocorreu. Não se trata de governo A, B ou C, mas do Estado brasileiro, o Estado constitucional chamado Brasil”, completa o advogado.

Ele enfatiza que o trabalho das comissões da verdade espalhadas pelo país, assim como a Nacional, não tinham objetivo de vingança.

“Mas  o de assegurar às pessoas, às famílias e à sociedade, o conhecimento dos casos que ocorreram e uma definição de responsabilidade histórica”, comenta Delson Lyra à Tribuna.

ANACRIM

Quem também se manifestou sobre a agressão de Jair Bolsonaro ao presidente nacional da OAB foi a Associação Nacional da Advocacia Criminal (Anacrim). Por meio de nota, a entidade afirma que a declaração do capitão reformado do Exército viola “a memória de todos os mortos, torturados e desaparecidos na ditadura, assim como a dignidade e sentimento de cada familiar e amigo”.

Para a Anacrim, Jair Bolsonaro “deve prestar explicações à sociedade e às autoridades judiciais, sobre o conteúdo das suas declarações, que o remetem à condição de conhecedor dos meandros de crimes, torturas e desaparecimentos perpetrados na ditadura”.

Fonte: Tribuna Independente / Carlos Amaral

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