Política

10 de julho de 2019 09:00

Adiar concurso é prática corriqueira, afirmam donos de cursinhos

Donos de cursos preparatórios comentam decisão do governo Bolsonaro em não realizar certames para contratação de pessoal

↑ Ministro da Economia da gestão de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes (Foto: Divulgação)

O presidente Jair Bolsonaro (PSL), sempre que concede alguma declaração, é certeza de polêmica. Entre as mais recentes, Bolsonaro garantiu que “dificilmente haverá concursos públicos no Brasil nos próximos poucos anos”. Para quem investe nesta área com o sonho de conseguir a “estabilidade financeira”, a expectativa pode não ser das melhores.

O presidente alinhou o discurso com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que já decidiu restringir o orçamento público para conter os gastos com quadro de pessoal do governo federal. Na ocasião, Bolsonaro ainda afirmou que não é o governo quem cria empregos.

Diante desta fala, a reportagem da Tribuna Independente procurou diretores de cursos preparatórios para concursos para saber qual a avaliação deles. O diretor e fundador da Edu Sampaio Cursos, professor Eduardo Sampaio, lembra que não é a primeira vez que o Executivo adota esse tipo de medida para cortar gastos e a tendência é que os concursos continuem ou apenas sejam adiados.

“Primeiro, concurso público é algo constitucional, então sempre tende a acontecer. É verdade que pode haver uma série de mudanças, um prazo mais estendido. No caso do Governo Federal não é uma coisa inédita dizer que não vai ter concurso. Fernando Henrique Cardoso disse, à época, que não teria e teve. Lula disse que cortaria alguns e acabou fazendo vários. A Dilma, em determinado momento, disse que não deveria haver concurso, mas fez. E quanto ao Bolsonaro dizer que não haverá concurso, ele é um mestre em dizer e desdizer. Logo, você tem uma declaração que pode ser desdita a qualquer momento, típico do Bolsonaro isso”, avalia.

Eduardo Sampaio citou o caso do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que está com um déficit segundo ele, de mais de 22 mil cargos.

“A questão do INSS é impossível não ter concurso porque tem a maior autarquia brasileira com um déficit imenso de pessoal depois de aposentadorias e tudo mais. Pós-reforma da Previdência, o cenário para o INSS é favorável. Aí é um jogo de o Paulo Guedes dizer que não vai fazer até pra que as categorias negociem com ele alguma coisa em torno da reforma. Pós-reforma, certamente, não terá o que fazer, ou por livre espontânea vontade do governo ou por pressão do MPF [Ministério Público Federal] que já ameaçou entrar com ação. Outros órgãos federais seguem o mesmo padrão. Então, essa história de não ter concurso pode prolongar um pouco o tempo, mas uma hora ou outra tem que ter concurso se não você não tem como ter ingresso no serviço público. As pessoas saem e fica o buraco lá”.

Sobre uma possível redução de pessoas querendo investir em cursos que preparam para concurso diante desse cenário, Eduardo Sampaio ressaltou que o interesse sempre permanecerá para aqueles que têm o sonho de entrar no serviço público. Porém, ele critica o fato de que a população pense que o melhor caminho será sempre esse.

“O governo não pode abrir tanto porque é como uma empresa. Se você abre tantas vagas para agradar tantos órgãos, tantas autarquias, tantas estatais que uma hora ou outra vai gerar problema enorme para a nação porque o caixa não vai fechar. Você pode empreender, você tem que incentivar a população ao empreendedorismo, a tecnologia, você ser autônomo de alguma maneira. Nos oito anos do Lula, houve uma ideia de que o serviço público é o melhor caminho do mundo e que vai caber todo mundo e isso gerou um sonho muito grande em parte da população e que vem diminuindo desde a crise que se instalou no país”.

Diretor ressalta que já houve anúncios de certames estaduais

 

Diretor do Marcelo Cursos, o professor Marcelo Bastos, acredita que o governo federal não deixará passar mais de dois anos sem a realização de concursos públicos, citando também a situação do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

“Existem alguns órgãos federais que têm uma carência muito grande porque as pessoas estão se aposentando e precisam renovar o quadro, o INSS existe uma precariedade muito grande de pessoal. O concurso foi adiado, mas existe uma necessidade real para acontecer. Não sei se o presidente vai segurar uma onda dessas, passar dois, três anos sem realizar concurso diante de uma carência dessas”.

Marcelo citou também um decreto do presidente Bolsonaro que estabelece normas para concursos públicos. A determinação delega a responsabilidade de autorizar a abertura de editais ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que dará seu aval para a realização de um novo certame após o pedido passar por 14 itens criteriosos de análise. O decreto ainda determina regras para temas que costumam gerar bastante polêmica e entraves judiciais, como a formação de cadastro reserva e a nomeação de excedentes.

“Quer queira ou não, isso é uma trava e vai dificultar porque vai dar uma burocratização para poder fazer concurso. Mas acredito que diante da necessidade de alguns órgãos ele não vai segurar dois três anos”, argumenta.

Com relação aos cursos que podem sofrer um abalo diante da não realização de concursos públicos no âmbito federal, o diretor do Marcelo Cursos pontuou que a diferença de seu cursinho é que eles também trabalham em outras esferas como, por exemplo, turmas que se preparam para o vestibular.

“Como eu tenho outras fontes de arrecadação de receitas, logicamente, eu perco com a não realização de concursos, mas não vivo necessariamente para os concursos. Então, nesse período que não tem a gente tem outras fontes de renda para manter o empreendimento, diferentemente de outros cursos aqui em Alagoas que vivem unicamente de concursos. Então, isso é um abalo muito grande. Uma empresa não pode viver sem receita. Mas a sorte nossa é que existe perspectiva real de concursos aqui no estado. O governador já anunciou alguns. Os concursos estaduais vão suprir o federal”, comenta.

Marcelo acredita, também, que pode haver uma retração das pessoas que procuram cursos preparatórios para fazer concurso, mas entende que aquelas que já vêm se preparando não deixarão de estudar.

PRÁTICA IGUAL

Seguindo a opinião dos outros diretores, a diretora do Alagoas Cursos, Maria de Lourdes, também destacou que todo início de governo existe essa fala negativa sobre a realização de concursos públicos, mas que acredita que isso será momentâneo.

“Mesmo depois desse anúncio por parte do governo, na área de segurança (PRF, PF) serão mais de quatro mil vagas já confirmadas pelo governo, há uma expectativa, também para Depen, então, à medida que o governo vai se adequando, mais concursos serão liberados. É claro que para os cursinhos e concurseiros, gera uma certa expectativa e uma certa retração.  Ao mesmo tempo, temos uma boa expectativa quanto aos concursos estaduais, mais precisamente, Alagoas, com a confirmação de concursos na área de segurança, Sefaz, saúde e educação. O ano inteiro tem vagas para concurso público, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Quem está em busca de uma vaga no serviço público, não pode desanimar com notícias negativas”.

A coordenadora do MC Cursos, Mônica Camerino, também acredita que esse cenário será momentâneo e credita isso ao início de governo. Ela ressalta ainda que não há motivo para preocupação, pois haverá concursos.

“O aluno hoje tem toda a consciência que tem que estudar muito antes da publicação dos editais, pelo menos o MC tem trabalhado dessa forma. Concurso haverá sim. Não há motivo para preocupação. No governo Dilma, por exemplo, qual foi a primeira medida dela? Cancelar os concursos e logo em seguida foi o período que mais teve concurso. As pessoas que já vem estudando sabem que os concursos não acabarão”.

Fonte: Tribuna Independente / Carlos Victor Costa

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