Política

6 de abril de 2019 11:56

Governo de Jair Bolsonaro sem política de renda

Enquanto o número de desempregados aumenta no país, presidente não sinaliza mudanças no sistema econômico

↑ Para Cid Olival, Bolsonaro não definiu os rumos da política macroeconômica para reverter indicadores (Foto: Sandro Lima)

Mais de 13 milhões de pessoas estão desempregadas no Brasil. O número foi apresentado pelo Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) na última semana, como resultado do levantamento trimestral da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) contínua. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) pôs a culpa na metodologia adotada no estudo, mas o fato é que as políticas adotadas até aqui vão na contramão do necessário para a geração de postos de trabalho. Esta é a análise do economista da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Cid Olival. “Ajuste fiscal não vai gerar empregos, mas o Estado, que deve estimular a economia”.

 

Tribuna Independente – O último trimestre, segundo o IBGE, apresentou índice de desemprego de 12,4%, o que equivale a 13,1 milhões de pessoas. Por que um resultado tão ruim, e na sequência de outros tanto quanto?

Cid Olival – A gente deve levar em consideração alguns fatores. O governo tem, insistentemente, batido na tecla da questão do ajuste fiscal como forma de solucionar as contas públicas e, a partir daí, conseguir cenário favorável a investimento, o que possibilitaria impulsionar o emprego. Isso não é verdade. O Estado tem outro papel, o de indutor da atividade econômica. Então, quando o Estado se retira e faz políticas de ajuste fiscal, em vez de estimular a economia, ele a contrai. Daí, o resultado será sempre o aumento do desemprego. Por quê? Por que quando o Estado faz isso, o mercado, de um modo geral, entende que a situação – e o momento – é de esperar para ver quais serão as próximas medidas econômicas. Essa espera resulta em não investimentos ou não contratação.  E a gente tem um agravante. A reforma trabalhista precarizou as relações de trabalho e muitas empresas têm demitido para fazer contratações com salários mais baixos ou condições de trabalho precárias. Isso agrava o desemprego. Se a gente pensa o setor educacional, nos últimos meses, mesmo com os calendários estabelecidos, várias faculdades demitiram professores – às vésperas de iniciarem as aulas – exatamente para contratarem com salários mais baixos. A reforma trabalhista tem peso no processo de demissões.

Tribuna Independente – O presidente Jair Bolsonaro afirmou que o alto índice de desemprego é culpa da metodologia adotada pelo IBGE, mas existem outros levantamentos sobre o emprego no Brasil, como o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). Algum deles aponta dados diferentes do IBGE?

Cid Olival – Não. E a Pnad é até melhor que os outros instrumentos de pesquisa. O Caged pega o saldo de empregados e desempregados, mas a Pnad vai além porque tenta captar as pessoas que estão à procura de emprego ou que o fez nos últimos 30 dias, e considera em sua análise que as pessoas com algum tipo de rendimento não estão na categoria de empregados e desempregos, mas que têm alguma renda. Eu te diria que a Pnad é um indicador mais confiável, com parâmetros usados internacionalmente que permitem comparação com outros países, e que é um equívoco tentar desqualificar uma pesquisa séria, que já é feita há vários anos com o propósito de se livrar da culpa pelo desemprego. O governo precisa se responsabilizar por suas ações. Não existe uma política de emprego para a população brasileira. Estamos caminhando para os 100 dias de governo Bolsonaro e a gente não tem nenhuma política. O governo precisa definir quais são os instrumentos de política macroeconômica e de emprego que serão adotadas para reverter esse quadro.

Tribuna Independente – E em perspectiva, qual a sua avaliação? Esse quadro melhora, estagna ou piora?

Cid Olival – Já temos uma margem muito elevada, e, infelizmente, eu não vejo perspectiva de melhora no curto ou médio prazo. Acho que esses dados tendem a se mantes dentro dos atuais indicadores. Por quê? Volto a dizer, o governo não tem sinalizações de intervenção na economia que possam indicar ao mercado que vai agir para melhorar as condições de renda e emprego da população. As sinalizações são de ajuste e de reformas que tendem a precarizar as relações de trabalho. Então, diante desses sinais, não há perspectivas de melhoria. Um dos argumentos que o governo utiliza é o de que se fizer a reforma da Previdência, o cenário vai ficar mais favorável. Isso é mentira. A condição de emprego não, necessariamente, depende da reforma da Previdência, mas como só se tem esse único elemento como objetivo imediato, todas as outras atividades estão paralisadas de alguma forma.

Tribuna Independente – O senhor falou do discurso de que a reforma da Previdência vai gerar empregos. Até que ponto isso está relacionado ou não passa de falácia do governo Jair Bolsonaro?

Cid Olival – Para mim é uma falácia completa. Na verdade, qual é o argumento? Que você retira as obrigações patronais, das empresas, e então sobraria margem para aumentar o número de empregos. Ora, as empresas vão expandir os empregos se houver demanda do consumidor. Se a econômica está paralisada, sem dinamismo, sem demanda, as empresas não aumentarão sua força de trabalho. É a lei básica do capitalismo, oferta e demanda. Esse discurso é um equívoco completo. O governo tem insistido na reforma da Previdência para sobrar dinheiro para juros da dívida. Todas as suas ações convergem somente para gerar excedentes para pagar os juros da dívida pública. E quem ganha com isso é o setor financeiro, que não é altamente empregador, pois não produz nada. Também houve outras medidas do governo de atrasos de repasses, como para o setor de construção civil, que é um setor altamente empregador. Se começa a inibir, ter atrasos, a ter paralisia na área produtiva, essas pessoas logo também estarão desempregadas. O problema é o reaquecimento da economia pela atividade econômica, pela demanda, pela geração de renda à população, mas o governo tem feito o oposto. Tem retirado a possibilidade de renda e consumo da população. E, pela primeira vez em muitos anos, a gente não terá ganho real do salário mínimo. Isso significa que se vai reduzir o poder de compra da população e, assim, diminui demanda por outros bens e serviços. Daí, não se gera emprego.

Fonte: TRIBUNA INDEPENDENTE / Carlos Amaral

Comentários

MAIS NO TH