Política

30 de março de 2019 10:46

Bancada critica a falta de projetos de Bolsonaro

Prestes a chegar a 100 dias à frente da presidência, governo coleciona recuos e busca manter popularidade nas redes sociais

↑ Arthur Lira destaca que empresários que apoiaram Bolsonaro estão preocupados com a ausência de medidas (Foto: Reprodução)

Na iminência de completar 100 dias de governo, a gestão de Jair Bolsonaro (PSL) à frente da presidência da República vem sendo marcada por recuos; pedidos de exonerações; troca de farpas entre os seus aliados; desgaste na relação com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ); aumentando ainda mais a crise política junto ao Congresso Nacional graças ao texto da reforma da Previdência. A falta de diálogo com a base também tem peso.

Além disso, o que o presidente Jair Bolsonaro fez de diferente em relação aos seus antecessores foi elencar uma agenda de ações nos primeiros meses do ano. Ele prevê ainda que, quando completar 100 dias de Governo, possa fazer uma cerimônia para comemorar o período – algo semelhante ao que os presidentes americanos fazem. Nesse período já será possível se ter uma ideia qual será o Brasil de Bolsonaro, de fato. Só que não se sabe o que ele irá festejar.

À Tribuna, parte da bancada federal alagoana, entre deputados e senadores, avaliaram a conduta política e de gestão do presidente nestes três primeiros meses do ano.

Considerado um dos líderes do blocão na Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP) entende que não deveria está ocorrendo atrito entre Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que segundo ele é um dos maiores defensores da aprovação da reestruturação previdenciária. Lira acrescenta, ainda, que a articulação política é importante neste momento e que acha que essa briga está sendo fomentada principalmente no dialeto da nova e da velha política.

“O governo, não digo o presidente, como usa o interlocutor Paulo Guedes [Ministro da Economia] tem por obrigação defender a reforma. O que nos preocupa é que a gente tem uma fala do presidente dizendo que já cumpriu o papel dele somente enviando o projeto para a Câmara. Sem articulação de governo, não é só previdência. Qualquer projeto de interesse dele, ele tem que defender”, analisa o parlamentar.

Arthur distancia o fato de que a articulação política de um presidente com a Câmara não é apontar os cargos que os parlamentares podem indicar os seus aliados.

Empresariado já cobra medidas para desenvolvimento

O deputado Arthur Lira destaca ainda que o Brasil segue atravessando um período de muita dificuldade e isso ocorre porque obras estão paralisadas e os serviços do governo federal também não estão avançando.

A fatura, segundo o parlamentar alagoano, começa a chegar para o presidente Jair Bolsonaro. As construtoras de médio e grande porte já pararam as obras porque estão sem receber há dois ou três meses pelos serviços.

“O orçamento está aprovado desde dezembro do ano passado. Foi sancionado e não está sendo executado. Os ministérios estão recebendo 1/18 avos do que tem direito por mês. Então, isso não dá para nada. Muita coisa precisar dar uma serenada. A cada vez que se dá uma declaração, é uma declaração pública, de confronto, de frases de efeito, de muita rede social, de muito like [curtidas nas redes sociais]. Muito embora a política tenha sido ganha dessa maneira, eu não acredito que vá se administrar um país desta forma”, ressalta o parlamentar.

Questionado sobre a fala do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que sugeriu ao presidente Jair Bolsonaro sair do Twitter e começar a presidir o país, Arthur Lira concorda e destaca que não é uma crítica pontual de Maia.

“Ela [prática das redes sociais] está quase ficando estabelecida no Brasil, a não ser aqueles radicais que vivem nessa pratica diária. Ninguém está satisfeito com essa situação. Você vai para o empresariado, todo mundo está querendo crescimento, todo mundo está querendo emprego, capital estrangeiro, desenvolvimento. Nada disso vem promovendo postagens no Twitter. Aqueles empresários que apoiaram, exclusivamente, a mudança do sistema e a mudança de governo, estão todos preocupados hoje porque não estão vendo medidas propositivas”, contextualiza o parlamentar.

À ESPERA

Líder da bancada alagoana, o deputado federal Marx Beltrão (PSD), resumiu esses três primeiros meses de Bolsonaro, lamentando a falta de informações. Beltrão cita que os ministérios não enviaram um plano de governo para o parlamento. Ele defende que Executivo e Legislativo precisam deixar o discurso ideológico de lado e buscar as pautas de desenvolvimento.

“Presidente ofereceu um país que ele não sabe gerenciar”

Já a deputada Tereza Nelma (PSDB) acredita que os eleitores de Jair Bolsonaro estão decepcionados com os 100 dias de governo, pois, segundo ela, o presidente fez o povo acreditar em um novo país, que ele não sabe como oferecer e nem muito menos gerenciar.

“É confuso, contraditório e repleto de escândalos internos e familiares. Um total descontrole. Como o pai só cria crises, os filhos o imitam e querem mandar mais no país do que o próprio presidente. É triste porque o povo brasileiro não merece esse governo. Somos uma piada internacional. Mas, é exatamente isso que vejo nesses quase 100 dias. Esse governo só fala em repressão, violência. Como disse o presidente da Câmara [Rodrigo Maia, DEM-RJ], não há propostas e nem projetos”, ressalta a deputada alagoana.

Afiada nas críticas, a parlamentar tucana pontua ainda que o governo Bolsonaro não avança porque não tem diálogo, não tem propostas e tampouco planejamento.

“É um governo de imposições e que traça diretrizes baseando-se em exemplos inadequados de outros países, muito distantes da realidade do Brasil. Não há um só projeto para melhorar a saúde, a educação e a assistência social do país. O projeto de reforma da Previdência é um exemplo do total desconhecimento deste governo da realidade do povo brasileiro, do pobre, do trabalhador. Fala-se tanto em equiparação de direitos, mas se esquece que não vivemos todos nas mesmas condições. A exemplo dos trabalhadores do campo, idosos e pessoas com deficiência. Pelo contrário, é uma reforma que beneficia apenas militares e banqueiros, exigindo que o povo pague pelas dívidas antigas de grandes empresas com a previdência. Me empenharei até o último instante para que essa reforma não seja aprovada da forma como está posta. Já avançamos e os números apontam que ela não passará”, argumenta a deputada em entrevista à reportagem da Tribuna.

A reforma segue em debate e os parlamentares cobram do governo respostas sobre pontos conflitantes do texto.

Falta de comando tem sido evidente

De acordo com o deputado JHC (PSB), o governo de Jair Bolsonaro tem se mostrado incapaz de estabelecer uma agenda unificada e – sem entrar no mérito das propostas –, fazer avançar sua pauta.

“Cabe ao Legislativo, nesse cenário, assumir o protagonismo institucional que a Constituição Federal lhe confere e servir de ponto de equilíbrio para o país. Há uma evidente ausência de diálogo e comando. É necessário que o governo apresente as suas pautas de forma unificada e transparente para que o Congresso possa agir. A construção de uma coalização é possível por meio de ideias, porém essas ideias precisam existir e precisam ser apresentadas”, justifica o parlamentar em entrevista à reportagem da Tribuna.

SEM ENTENDIMENTO

Em seu primeiro ano de mandato no Senado, Rodrigo Cunha (PSDB) avalia que o governo tomou posse em meio a um grande processo de mudança política, com um cenário de grande renovação também no Congresso. Para ele, o que se percebe é que essas duas esferas do Poder ainda não estão conseguindo se entender.

“Algumas declarações do presidente [Jair Bolsonaro], principalmente nas redes sociais, geraram ruídos. Mas, acredito que o presidente não deve perder a oportunidade de estar, ainda no início de seu governo, para aprovar projetos importantes para o país. Ele foi eleito em cima de uma pauta de combate à corrupção e do crime organizado, e tem grandes chances de conseguir avançar nessa área logo no começo de seu mandato. Acredito que o governo ainda precisa melhorar na interlocução com o Congresso. Seria produtivo se o presidente se dedicasse pessoalmente às tratativas institucionais com a Câmara e o Senado”.

ESPERANÇOSO

Dos parlamentares entrevistados pela Tribuna para uma análise da gestão Bolsonaro em quase 100 dias de governo, o deputado Nivaldo Albuquerque (PTB) foi quem mais demonstrou otimismo. Nivaldo apoiou a candidatura do capitão reformado do Exército no ano passado.

“Não sei qual a dificuldade pontual do governo Jair Bolsonaro em avançar. Está sendo consolidada a base governista, talvez devido a essa ‘demora’ dessa consolidação que alguns segmentos desaprovem o início do governo”.

Em outras oportunidades, Nivaldo destacou que o presidente Jair Bolsonaro tem uma boa vontade para executar as políticas públicas para desenvolvimento do país. Apesar da defesa, parlamentares estão cobrando maior empenho do capitão reformado do Exército.

Renan Calheiros usa redes sociais para tecer críticas

A reportagem da Tribuna tentou contato com o senador Renan Calheiros (MDB), mas recebeu a informação de que ele tem tido um discurso moderador, calmo, cuidadoso até no que coloca nas redes sociais. Em seu Twitter, Renan Calheiros fez algumas leves críticas às últimas posições do presidente Jair Bolsonaro, principalmente em relação à viagem que o chefe do Executivo fez aos Estados Unidos.

O senador disse que o encontro entre o presidente do Brasil e o presidente Donald Trump só serviu para que os Estados Unidos acabassem com as vantagens do Brasil. Na sua última postagem feita na terça-feira (26), Renan disse que “exaltar o golpe que fechou o Congresso Nacional, censurou a imprensa, cassou mandatos, prendeu e matou pessoas é uma ofensa aos brasileiros”, fazendo menção a declaração de Bolsonaro em defender a comemoração do regime militar ocorrido em 1964.

MUNICÍPIOS

No tocante às gestões municipais, a reportagem da Tribuna consultou o presidente da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), Hugo Wanderley para que ele fizesse uma avaliação do governo federal. Os municípios são dependentes de Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e repasses federais para educação e saúde. Nesses três meses, o governo Bolsonaro sequer anunciou investimentos ou programas para dois dos setores mais importantes para os estados.

“Esperamos que nessa Marcha a Brasília, realizada em abril, o governo federal sinalize projetos, ações e um caminho para a melhoria da qualidade de vida nos municípios. Infelizmente, nesse início do ano ainda não podemos perceber nenhum tipo de aceno favorável aos municípios. Os municípios têm sofrido muito com o desmantelamento dos Mais Médicos, e com o inchaço dos projetos federais, mas aguardamos uma resposta positiva durante a Marcha.”

Hugo Wanderley, disse em entrevista à Tribuna, na edição de fim de ano que não acreditava que a crise política e econômica não se findasse logo que o presidente Jair Bolsonaro tomasse posse.

Fonte: Carlos Victor Costa / Tribuna Independente

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