Política

Deputados pregam cautela com início de governo Bolsonaro

Deputados federais eleitos aguardam que escândalo envolvendo a família do presidente seja esclarecido e não seja mais um capítulo na crise política

Por Repórter Carlos Victor Costa com Tribuna Independente 01/01/2019 09h45
Deputados pregam cautela com início de governo Bolsonaro
Reprodução - Foto: Assessoria
Com ideais de ruptura com tudo o que tem a marca da esquerda no campo da economia, de políticas sociais e alinhamentos diplomáticos do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL) inicia na terça-feira, 1º de janeiro de 2019, as suas atividades como presidente do Brasil, trazendo em seu perfil um governo de extrema direita. Mas, como nem tudo são flores, Jair Bolsonaro não contava com um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que identificou uma série de transações financeiras atípicas em contas de assessores de parlamentares, entre eles, o deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente. Esse fato coloca em cheque todo o discurso de Jair Bolsonaro durante a campanha de que era o único candidato que não tinha envolvimento com corrupção. Tal situação faz com que o seu imaturo governo inicie em volta desse escândalo familiar e político. Segundo o Coaf, Fabrício José Carlos de Queiroz, policial militar e ex-assessor de Flávio Bolsonaro, movimentou R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017 em sua conta bancária. Há poucas informações sobre o destino dos recursos, mas segundo o relatório, uma das transações é um cheque de R$ 24 mil destinado a Michelle Bolsonaro, esposa do presidente eleito. A reportagem da Tribuna Independente, então, consultou deputados federais eleitos em Alagoas para que eles pudessem tratar da expectativa de um novo governo que se apresenta como extrema direita, diante de um cenário interminável e crise política e econômica. [caption id="attachment_115343" align="alignnone" width="640"] JHC (PSB) (Foto: Divulgação)[/caption] Os parlamentares comentaram também sobre a denúncia envolvendo a família do presidente Jair Bolsonaro, e se isso poderia interferir no início da gestão do ex-capitão do Exército. Para o deputado JHC (PSB) que é amigo pessoal de Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, a expectativa é que neste novo momento o Brasil possa destravar algumas pautas que têm impedido o avanço do país, como a tributária e a administrativa. Em relação à denúncia envolvendo o senador eleito Flávio Bolsonaro, o parlamentar alagoano disse que há um desgaste natural, porém os membros da família têm se colocado à disposição para esclarecimentos, sem esquivas. “Em outras, como a previdenciária, será necessário um maior cuidado na análise. É uma postura importante e cabe agora aos órgãos competentes a investigação para sabermos o que de fato ocorreu e quais as implicações jurídicas. Até aqui, as instituições brasileiras têm funcionado com notável desembaraço e não há motivos para crer que essa tônica sofrerá alterações”. Já o deputado Arthur Lira (PP), que lidera o “blocão” dentro da Câmara Federal, analisa que não é bom para o governo iniciar em meio a denúncias e que a situação precisa ser esclarecida. “A nova política falada precisa ser mostrada na realidade com a prática. Tem problemas em todas as áreas, no Legislativo, no Judiciário, no Executivo, e a gente precisa ter calma. Esperar que as coisas sejam aclaradas, que o Poder Judiciário, Ministério Público entrem com afinco na questão e que a gente possa ter uma solução mais rápido possível. O Brasil continua. As pautas continuam”, argumenta Lira. Defensor do futuro governo, o deputado Nivaldo Albuquerque (PTB), que na legislatura anterior estava como suplente, diz que o presidente eleito Jair Bolsonaro representa a esperança do povo brasileiro para colocar “nosso país no trilho do verdadeiro progresso e da ordem”. “Tenho certeza que com vontade e muito trabalho o presidente vai construir o país que tanto desejamos, para nós e para as futuras gerações. Para isso, ele contará com meu apoio no Congresso, pois já venho apoiando o seu projeto político desde que entrei na Câmara pela primeira vez em 2016”. Com relação às denúncias em relação à família Bolsonaro, o parlamentar alagoano acredita na inocência de todos, até que se prove o contrário. “Afinal, o ônus da prova cabe a quem alega. Essas denúncias não vão atrapalhar o início do governo. Isso é patrocinado pela turma do quanto pior melhor, não se atira pedras em árvore infrutífera”. Oposição reconhece crescimento de bancada e cobra explicações [caption id="attachment_104638" align="alignnone" width="1200"] Deputado federal Paulão (Foto: Sandro Lima - Arquivo / Tribuna Hoje)[/caption] Opositor aos ideais defendidos por Bolsonaro, o deputado Paulão (PT) acredita que o futuro presidente terá algumas dificuldades com os próprios aliados, o que pode acabar gerando ainda mais caos para o Brasil, citando o exemplo da falta de alinhamento entre Jair Bolsonaro e seu vice, o General Mourão. “Ele tem uma situação atípica do vice dele dando declarações inclusive com contraditórios cobrando explicações dessa situação do filho do Bolsonaro, que foi eleito senador. Na hierarquia se sabe que o general não fica subordinado a um capitão mesmo na presidência. General Mourão representa um projeto internacional com segmentos das forças armadas que tem alinhamento com os Estados Unidos, e vem dialogando com setor empresarial, fazendo palestras.” Apesar disso, o deputado petista avalia que Bolsonaro terá uma importante base na Câmara Federal, principalmente pelo fato de que seu partido, o PSL, pode crescer dentro do parlamento devido à cláusula de barreira que afetará diversos partidos. “Ele vai ter uma base. O PT é um partido maior, mas a diferença é de 10 membros e esses partidos que não atingiram a cláusula de barreira têm condições de fazer mudanças, então acho que há a probabilidade do PSL na Câmara ser o partido com maior número de parlamentares. Aí você vai ter que verificar também qual será o desenho de quem será eleito para presidir a Câmara Federal e Senado. Então, a gente tem que ter certa calma porque essa decisão só será realizada em fevereiro e isso tem consequência na governabilidade dele”, analisa. Outro fato abordado por Paulão que pode ser determinante para o futuro do país tem relação com as declarações dadas por Flávio Bolsonaro, e que para o deputado alagoano na prática é o ministro das Relações Exteriores e vem gerando problema com conflito comercial, a exemplo da declaração que ele deu sobre Israel. “Se não tiver habilidade, pode criar um problema na economia, já que o agronegócio vem mantendo a balança comercial e de repente esse açodamento pró-Israel pode ter consequências na balança comercial”. Paulão analisa ainda que as denúncias que envolvem o filho de Bolsonaro precisam ser explicadas, mas que independentemente disso, o presidente eleito vai conseguir ter “gordura” no governo por ter sido eleito pela maioria da população. Além de emplacar pautas principalmente trabalhando a base da bancada evangélica neopentecostal, mais fundamentalista, junto com o agronegócio e a bancada da bala. “Esse fio descascado aí do motorista, essa movimentação do próprio Coaf que tem que ser explicada, a omissão do [Sérgio] Moro, mesmo sendo superministro, o silêncio do MPF e da própria PF. Eles aumentaram a correlação de força e vai colocar pauta indenitária, de família, a respeito da segurança, mas ao mesmo tempo na economia eles vão tentar implantar mudanças significativas no ponto de vista liberal, fazer um processo açodado de privatização com Banco do Brasil, Caixa Econômica, Correios, Infraero, a venda da Embraer agora, Petrobras e setor elétrico. É nisso que ele vai atacar. O [Michel] Temer está totalmente seguro na hora que perder o mandato e ficar sem uma proteção jurídica. Então, Temer está fazendo o que o Bolsonaro e equipe querem. É um governo de continuidade, eles vão vender as estatais, vai tentar fazer a reforma da previdência. Vai ter conflito com o movimento sindical dos servidores. Vai ter conflito com movimentos agrários, já que ele colocou no radar o MST como inimigo. Um ano muito tenso”, avalia Paulão. Novata na Câmara Federal, Tereza Nelma (PSDB) é cautelosa com o novo governo por não saber o que esperar diante das medidas já apresentadas por Bolsonaro, antes mesmo de assumir seu mandato. “Nosso país não tem boas lembranças de atitudes de poder da extrema direita. Temos como exemplo a ditadura militar, um abominável episódio da nossa história. Mas, quanto ao governo sempre espero pelo melhor, para os mais pobres e excluídos por tantas injustiças em nosso país. Lutarei por isso na bancada federal. Serei oposição às medidas contrárias ao bem do povo. Mas, se forem benéficas ao povo, irei apoiar. Agirei conforme minhas bandeiras de luta, que carrego há mais de 35 anos de trabalho pelos direitos humanos”, garante. SUSPEITAS No campo da ciência política, a reportagem da Tribuna Independente consultou a cientista Luciana Santana. Ela fez uma análise da projeção política para 2019 no Brasil, com o início de um governo de extrema direita e que já inicia com alguns indícios de escândalos de corrupção. “Sobre esse governo que vai se iniciar em janeiro, eu diria que tudo ainda é bastante incerto. Hoje ainda temos um clima de extrema incerteza, de quais serão os rumos da política nacional em vários aspectos. Diria que os pontos que geram mais incertezas a gente tem na questão da política externa, a própria economia, apesar de algumas posições já apresentadas durante a campanha e também no processo de transição. Não é possível perceber se haverá condição por parte de apoio do Congresso para que seja possível garantir governabilidade”. (C.V.C.)