Polícia

Em depoimento, professor nega ter cometido injúria racial

Professor afirmou que apontou para o adolescente, de forma aleatória, dando sinal para que a aula continuasse

Por Valdete Calheiros 12/03/2026 07h03
Em depoimento, professor nega ter cometido injúria racial
Aluno acusou professor de o ter comparado a um gorila do caderno - Foto: Reprodução

O professor de Matemática, acusado de comparar um aluno adolescente a um gorila, dentro de uma sala de aula em uma escola particular no bairro do Benedito Bentes, em Maceió, poderá responder, na Justiça, por injúria racial qualificada. Caso o professor seja julgado e condenado pela Justiça poderá cumprir de três anos e meio a sete anos de prisão.

Ele prestou depoimento, durante cerca de duas horas, na manhã de ontem, na Delegacia Especial dos Crimes contra Vulneráveis Yalorixá Tia Marcelina, localizada no Complexo de Delegacias Especializadas (Code), em Mangabeiras. O caso está sendo investigado também pela Delegacia Especializada do Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle), uma vez que o dono do caderno é também um adolescente. Ambos os estudantes têm 13 anos de idade. O caso aconteceu no último dia 12 de fevereiro.

O professor negou que tenha praticado injúria racial contra o aluno. O professor afirmou que apontou para o adolescente, de forma aleatória, dando sinal para que a aula continuasse.

A acusação de injúria racial aconteceu depois que outro aluno, também adolescente, levou para a sala de aula um caderno com a figura de um gorila. Esse aluno perguntou ao professor com quem o gorila era parecido. O professor, segundo relatos, apontou para o aluno que contou o caso aos pais que denunciaram o caso à polícia.

Toda a cena foi gravada pelas câmeras existentes dentro da sala de aula. Embora, sem áudio, para a Polícia não há dúvidas sobre as sequências das cenas.

O professor foi demitido pela escola dois dias depois do episódio. Inicialmente, o profissional havia sido afastado das funções pela unidade educacional que, posteriormente, optou pelo desligamento do professor. Ele também leciona em escola pública. Caso seja julgado e condenado, poderá perder o cargo público.

O advogado de defesa do professor, Eduardo Vasconcelos, salientou que o professor é inocente, é uma pessoa negra, tem filhos negros e, portanto, sabe o peso do racismo e tem problemas auditivos, usa até um aparelho para audição e que não ouviu a associação que o aluno dono do caderno fez ao outro aluno.

“O professor não entendeu o porquê de os outros alunos terem praticado bullying com o aluno depois que ele apontou para o menino, de forma aleatória, apenas para sequenciar a aula. E que teria mandado o aluno que levou o caderno, guardar a gravura do gorila. “Foi uma cena cotidiana da sala de aula”, frisou a defesa de professor investigado por injúria racial.

Segundo o advogado Eduardo Vasconcelos, o docente não teve a intenção de dolo específico de judiar. “Um aluno trouxe uma imagem de um gorila. O professor apontou aleatoriamente para a turma. Um dos alunos se sentiu ofendido. E houve toda essa polêmica. O professor tem mais de 20 anos de sala de aula e nunca houve nada que desabonasse sua conduta profissional”, defendeu o advogado.

Polícia Civil

A delegada Rebecca Cordeiro afirmou que a defesa está ignorando a presença de mais ou menos 20 testemunhas em sala de aula. “Nem tudo tem prova material, a prova testemunhal é válida e sólida. O professor tem direito a todas as defesas que quiser, mas a ausência de um áudio não invalida o procedimento investigatório”, argumentou a delegada.

“Existem sim provas da prática de ato racista contra o estudante. Não estou dizendo que o professor seja racista. Ele cometeu um ato racista. E isso é um crime muito grave”, pontuou a autoridade policial.

O advogado da vítima, Alberto Jorge, explicou que o aluno ficou tão perplexo que ficou sem ação diante da injúria. “As imagens são claras. Embora, não tenha áudio, não restam dúvidas da postura do professor. Tanto o menor quanto a família estão profundamente abalados”. Conforme as imagens, após a comparação, os alunos riem, enquanto a vítima permanece imóvel.

Colégio

Em nota, a escola afirmou repudiar qualquer ato de racismo, discriminação ou preconceito e destacou que as condutas são incompatíveis com os valores e com o ambiente educacional que busca manter.

“Desde que tomou conhecimento do ocorrido, o colégio adotou providências imediatas e medidas institucionais cabíveis. O profissional foi afastado e não integra mais o quadro de colaboradores”, informou a direção.

O colégio também afirmou que a família do estudante recebe acompanhamento da equipe pedagógica e psicossocial da instituição. O Conselho Tutelar foi acionado e acompanha o caso.

Ainda segundo a escola, há monitoramento permanente da coordenação e do setor psicossocial para identificar e apurar situações de bullying ou discriminação dentro do ambiente escolar.

“A instituição reafirma seu compromisso com a ética, a responsabilidade social e a promoção do respeito e da dignidade de todos”, conclui a nota.

Como parte da investigação, tanto a Delegacia Especial dos Crimes contra Vulneráveis Yalorixá Tia Marcelina quanto a Delegacia Especializada do Adolescente em Conflito com a Lei irão ouvir também coordenadores pedagógicos e estudantes. A previsão é que o inquérito seja concluído na próxima semana.