Polícia

10 de abril de 2021 09:39

Marcelo Tadeu diz que Poder Público se omitiu na apuração de atentado

Durante coletiva, juiz aposentado falou sobre a descoberta de um plano organizado para lhe matar

↑ Marcelo Tadeu ao lado de seu advogado quando tratou sobre a investigação da PF que indiciou Paulo Cerqueira (Foto: Edilson Omena)

Após 12 anos, o atentado contra o juiz – agora aposentado – Marcelo Tadeu volta a ganhar os holofotes. O inquérito da Polícia Federal (PF), aponta o atual delegado-geral da Polícia Civil, Paulo Cerqueira, como o mandante do crime que vitimou por engano um advogado mineiro chamado Nudson Harley Mares de Freitas. Em entrevista coletiva realizada na última sexta-feira (9), o magistrado relata omissão do Estado – Governo do Estado, Ministério Público e Judiciário – em apurar o caso. Ainda na sexta-feira, Cerqueira informou a entrega do cargo.

“Estive no Ministério Público com Alfredo Gaspar [ex-procurador-geral de Justiça e atualmente secretário de Segurança Pública] e pedi providências, mas ele disse para deixar para lá, que o assunto estava resolvido”, lembra. “Batia nas portas das instituições e elas estavam fechadas. Fui até o Tribunal de Justiça para pedir envolvimento do delegado no crime, mas foi quando a PF assumiu”, completa Marcelo Tadeu.

O ex-juiz destaca que até o então governador de Alagoas, Teotonio Vilela Filho (PSDB), desconsiderou seus apelos. “Enviei um pedido oficial ao governador Teotonio Vilela pedindo atenção do Estado para que investigasse de modo que ficasse bem claro. Isso está tudo documentado. Não tive resposta”, conta Marcelo Tadeu.

Ele diz que chegou a procurar o então delegado responsável pelas investigações do atentado, Paulo Cerqueira. “Procurei pessoalmente o senhor Paulo Cerqueira, na época diretor de Inteligência. Ele não me ouviu, sequer, como testemunha. Desde o primeiro instante se negou a isso. Ele não quis saber de investigar em uma possibilidade de erro de execução”, relata Marcelo Tadeu. O delegado só o ouviu após um ano e meio do ocorrido.

O ex-juiz lembra da noite de 3 de julho de 2009, quando chegou a uma farmácia após deixar seus filhos em casa. No local, ele avistou Nudson Freitas, mas diz que decidiu ir em outro estabelecimento.

“Assim que entrei já na outra farmácia ouvi os tiros. Perguntei a uma senhora o que tinha acontecido e ela contou que dois homens tinham atirado. Depois, fiquei sabendo qur um suspeito avisou para o outro que tinha matado a pessoa errada e que eu estava trajando roupas parecidas com a vítima”, conta.

MOTIVAÇÃO

Marcelo Tadeu acredita que o motivo de alguém querer matá-lo foi sua postura como juiz. Na Vara de Execuções Penais, ele mantinha uma postura mais humanitária e sempre cobrava melhores condições carcerárias aos reeducandos. Além disso, ele também condenou alguns membros da “gangue fardada”, organização criminosa formada por policiais militares e mantida financeiramente por usineiros e políticos alagoanos.

Marcelo Tadeu também denunciou um usineiro pelo assassinato do tributarista Sílvio Vianna e decidiu por tomar bens de figuras importantes do setor de açúcar e álcool de Alagoas. Ele também cassou o mandato de prefeito de Olho d’Água do Casado, Wellington Damasceno Freitas – conhecido como Xepa – irmão do desembargador Washington Luiz, que chegou a ser apontado como mandante do atentado, ocorrido após esta decisão judicial. O caso ganhou repercussão nacional em reportagem do Fantástico, da rede Globo, em julho de 2016. Washington Luiz sempre negou ter relação com este crime.

INDICIAMENTO

A Polícia Federal indiciou Paulo Cerqueira, delegado-geral da PC, como autor intelectual do atentado contra o então juiz, Marcelo Tadeu, em julho de 2009, no bairro de Mangabeiras. O crime, no entanto, vitimou o advogado Nudson Freitas que, segundo relatos, estava com roupas parecidas ao do ex-magistrado.

Segundo as investigações da PF, o autor dos disparos, Antônio Wendell de Melo Guarniere, foi cooptado pelo policial militar Natan Simião para praticar um homicídio, a mando de Paulo Cerqueira. O atirador não sabia quem estava por trás do militar que o contratou.

Ainda de acordo com a PF, até mesmo as hospedagens de Antônio Guarniere foram pagas pela Polícia Civil, o que foi confirmado por Paulo Cerqueira em depoimento.

Paulo Cerqueira passou a comandar o inquérito do atentado após solicitar para assumir a função, mas, segundo a Polícia Federal, sem apresentar motivos concretos para tal. Enquanto coordenou oficialmente o inquérito, o atual delegado-geral da PC jamais considerou a hipótese de o alvo ser Marcelo Tadeu, segundo o magistrado.

A PF ainda aponta que o inquérito de Paulo Cerqueira sequer citou Antônio Guarniere e que nenhuma diligência para eliminar a tese de erro de execução fora realizada. O delegado teria tentado encerrar as investigações de forma precoce, o que foi impedido por intervenção do próprio Marcelo Tadeu.

CARGO ENTREGUE

Em nota divulgada no início da tarde da última sexta-feira (9), o delegado-geral da Polícia Civil, Paulo Cerqueira, entregou o cargo. Cerqueira rechaça qualquer envolvimento em trama criminosa, “muito menos em desfavor de uma pretensa vítima [Marcelo Tadeu], com a qual sempre mantive relação cordial e respeitosa”.

“Tomei a iniciativa de entregar o honroso cargo de delegado-geral, pelo amor que dispenso à minha instituição e para não permitir ataques infundados aos relevantes serviços prestados diariamente pela Polícia Civil à sociedade alagoana. Com a consciência tranquila e uma história de vida pautada na honestidade e no trabalho, recebi a notícia do indiciamento com a certeza de ser uma grande injustiça, pois sempre pautei minha atuação com respeito ao cidadão e à Lei”, diz um trecho da nota.

Em outro trecho, Cerqueira diz que demonstra respeito à PF, mas que a instituição errou em promover o seu indiciamento.

Fonte: Carlos Amaral / Tribuna Independente

Comentários

MAIS NO TH