Polícia

Advogado foi morto na Ponta Verde porque sócio devia mais de R$ 600 mil

Sinval José Alves teria pago de R$ 15 mil a R$ 30 mil à dupla que cometeu o crime

Por Texto: Bruno Martins com Tribuna Hoje 02/05/2018 18h30
Advogado foi morto na Ponta Verde porque sócio devia mais de R$ 600 mil
Reprodução - Foto: Assessoria
A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) concedeu entrevista coletiva na tarde desta quarta-feira (2) para apresentar o resultado da investigação do assassinato do advogado José Fernando Cabral de Lima, ocorrido em três de abril em uma casa de câmbio localizada no bairro da Ponta Verde. De acordo com o inquérito, que foi concluído, Sinval José Alves devia mais de R$ 600 mil a José Fernando, que era seu sócio. Ele teria pago entre R$ 15 mil e R$ 30 mil a Irlan Almeida de Jesus e Denisvaldo Bezerra da Silva Filho, que fingiram latrocínio para executar o advogado. Participaram da coletiva o secretário executivo de Segurança Pública, Manoel Acácio Jr.; o delegado-geral da Polícia Civil, Paulo Cerqueira; a gerente de Polícia Judiciária da Região 1, Ana Luíza Nogueira; o coordenador da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), Eduardo Mero; a delegada presidente do inquérito, Simone Marques; e a delegada plantonista no dia do crime e Paula Francinetti, que acompanhou o início do caso e colheu os primeiros depoimentos. Além da DHC, participaram da operação o núcleo de inteligência da Gerência de Polícia Judiciária da Área 1, a Operação Policial Litorânea Integrada (Oplit), o Tático Integrado de Grupo de Resgate Especial (Tigre) e também a Delegacia de Homicídios da Bahia, que auxiliou na prisão de um dos executores. Bilhete A delegada Simone Marques destacou que a investigação foi dividida em etapas. A primeira delas foi baseada em um bilhete assinado por “Carrasco Gesseiro”. Este homem, identificado posteriormente como Raimundo Pereira de Souza, enviou esse bilhete à vítima uma semana antes do crime, no dia 26 de março. A mensagem foi escrita no verso de uma parte arrancada de papel de um Boletim de Ocorrência que Raimundo teria registrado por ameaça sofrida em 2008. Raimundo foi à casa do advogado três vezes e em uma das visitas tentou parar José Fernando quando este saía da residência. No bilhete, deixado na portaria da vítima, o advogado é identificado pelo nome completo, com número do CPF e do RG. O texto, descrito aqui da forma que foi escrito, diz: “tem pessoas de sua confiança que tão lhe traindo. E vc é uma pessoa boa. Não fale com ninguém antes de falar comigo. Pois eu posso lhe ajudar”. O advogado chegou a tomar algumas precauções, mas não falou sobre o caso à polícia. Ele ficou assustado, segundo a delegada. Logo em seguida, foi marcada a reunião na casa de câmbio, onde os sócios iam resolver questões sobre o fim da parceria. Planejamento e execução Sinval já teria procurado uma pessoa anteriormente para matar José Fernando, de acordo com Raimundo. “Por algum motivo não vingou. O Raimundo sabia, tanto sabia que foi avisar à vítima”, disse a presidente do inquérito. O coordenador da DHC, Eduardo Mero, afirmou que o primeiro contatado para cometer o crime teria cobrado R$ 50 mil, valor que talvez tenha sido considerado alto por Sinval. “O Sinval se encontrou com um indivíduo chamado Irlan na casa de câmbio e eles acertaram a questão do crime, como seria. O Irlan foi apresentado a ele por uma funcionária do Sinval. Ele arquitetou o crime e procurou um amigo, alugou uma moto e o capacete que foi usado no crime e no dia ele e Denisvaldo entraram na casa de câmbio, anunciaram o roubo, que não foi roubo. O Irlan entrou armado e no mezanino passou a arma para o Denisvaldo que atirou na vítima”, informou Simone Marques. No dia do crime uma reunião no local estava marcada e José Fernando estava temeroso, conforme frisou a delegada. A casa de câmbio não estava em funcionamento no dia e investigação aponta que a reunião foi levada ao estabelecimento para forjar o latrocínio e tentar enganar a polícia. “Eles tinham escritório de advocacia com sala de reunião. Nenhum ladrão vai a escritório de advocacia para roubar. Ele cria uma condição para fazer esse encontro na casa de câmbio. A dinâmica do crime é típica de execução, a vítima sofre dois disparos na cabeça e os suspeitos levaram apenas um aparelho celular”, pontuou Eduardo Mero. Eles fugiram do local, com Denisvaldo pilotando a moto e Irlan na garupa, como mostrado no vídeo das câmeras de segurança de um estabelecimento em frente à casa de câmbio. Irlan, que é baiano, fugiu para seu estado de origem quando o caso teve grande cobertura da mídia alagoana. Sinval ficou na DHC até as 21h no dia do crime. A delegada plantonista e Paula Francinetti relata que ele se encontrava pálido, muito suado e nervoso durante depoimento. Veja o vídeo abaixo: https://www.youtube.com/watch?v=4EQKYi3LPnM Simone relatou que Raimundo aparece de novo após o crime. “Aí ele volta e já tendo a informação que seria o sócio, não sabia nem o nome, ele foi ao local do crime, procurou na casa de câmbio alguém que fornecesse o contato do Sinval e ele entrou em contato dizendo que sabia do crime e o extorquiu. Ele disse em depoimento que esperava algo entre R$ 10 mil e R$ 20 mil pelo silêncio dele”, declarou a delegada. Este encontro entre Raimundo ocorreu no dia 11 de abril, em um café situado em prédio empresarial no bairro da Jatiúca. Apesar do encontro, não houve pagamento a Raimundo. A motivação seria por questão de dívida financeira. “O autor devia à vítima algo em torno de R$ 600 mil e mais alguns valores a receber do escritório e isso teria motivado”, falou Eduardo Mero, coordenador da DHC. Prisões Sinval foi detido em 12 abril, uma quinta-feira, e ele nega participação no crime, de acordo com depoimento logo após a morte de seu sócio. Irlan foi preso na sexta-feira, 27 de abril, no bairro Pernambués, em Salvador. Ele confirmou a participação de Sinval e disse que não era ele na moto no dia do crime, apesar do reconhecimento já ter sido feito pela polícia. Irlan também diz que o valor recebido pelo delito foi de R$ 15 mil. Raimundo também foi detido em 12 de abril. Denisvaldo foi preso no Trapiche da Barra e nega participação e não confirma recebimento de dinheiro. O valor de R$ 15 mil a 30 mil cogitado pela polícia considera que Denisvaldo teria embolsado a mesma quantia que Irlan. Sinval será indiciado por homicídio, ele está detido no presídio militar por ser advogado. Todos os quatro serão ouvidos novamente pela polícia. As oitivas devem ocorrer a partir da semana que vem. Todos terão o pedido de prisão prorrogado. Possível participação de Raimundo A polícia ainda não sabe como Raimundo ficou sabendo da primeira trama contra vida de José Fernando. O inquérito do caso é considerado concluído, porém uma comissão vai investigar como o “Carrasco Gesseiro” teve conhecimento, se ele teve algum envolvimento nessa primeira tentativa e quem seria o executor que teria pedido quantia alta para cometer o delito. “Ele conta uma história que não está casando. Ele sabia que tinha esse plano”, falou Simone Marques.