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15 de setembro de 2020 15:39

Direita espanhola mergulha em escândalo de espionagem interna

Partido Progressista teria pago, com dinheiro público, um motorista do ex-tesoureiro do partido para descobrir onde estavam guardados documentos que poderiam comprometer a cúpula de dirigentes

↑ Mariano Rajoy, deixa o parlamento após uma moção de censura, que o destituiu do cargo de primeiro-ministro, no parlamento espanhol em Madri, em 2018 (Foto: Francisco Seco/AP)

A oposição conservadora da Espanha está mergulhada em um escândalo que pode manchar a imagem do ex-primeiro-ministro Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), que liderou o país entre 2011 e 2018.

O caso ficou conhecido pelo nome operação Kitchen (cozinha em inglês).

Descobriu-se que um informante da polícia foi pago com dinheiro público para espionar um líder do partido em posse de segredos incômodos. O apelido do informante era Cozinheiro, e por isso a operação foi batizada dessa forma.

Apesar do apelido de Cozinheiro, o homem era na verdade um motorista. Seu chefe era Luis Bárcenas, um ex-tesoureiro do PP. Esse ex-dirigente foi o operador de um esquema ilegal de propinas –empresas davam dinheiro ao partido em troca de contratos públicos.

O PP foi condenado judicialmente em maio de 2018. Além disso, recebeu, imediatamente, uma censura no Parlamento que desencadeou a queda do governo de Mariano Rajoy.

Bárcenas, o ex-tesoureiro, escondia documentos que poderiam comprometer ainda mais o PP e seus dirigentes. Por isso, o Cozinheiro foi recrutado por pessoas do partido para espionar seu próprio chefe e descobrir onde estavam esses papéis, de acordo com a promotoria espanhola.

Em troca de seus serviços, o motorista de Bárcenas cobrava 2.000 euros por mês de fundos reservados do Estado e até recebeu a promessa de ingressar na polícia.

Gravações escondidas

Em novembro de 2017, um delegado espanhol, José Manuel Villarejo, foi preso. Durante anos, ele gravou conversas com juízes, políticos e empresários. Essas gravações são as bases de outras operações da Justiça –uma delas é a Kitchen.

O caso pode chegar ao próprio Rajoy. Em uma das gravações feitas em segredo pelo delegado Villarejo, há uma menção ao fato de que Bárcenas também teria documentos comprometedores para o então chefe de governo.

Número dois do Ministério do Interior

Os promotores afirmaram que dois ex-ministros estão sob suspeita. María Dolores de Cospedal, ex ministra da Defesa, é uma –os documentos que estariam com Bárcenas seriam referentes a ela.

O outro ex-ministro que pode enfrentar uma acusação é Jorge Fernández Díaz, que foi titular da pasta do Interior.

A Justiça conta com a colaboração de um “arrependido”: Francisco Martínez Vázquez, número dois do ministério do Interior na época dos fatos. Incriminado, ele disse ao jornal “El País” no domingo que deseja “contar ao juiz tudo o que sabe”.

Segundo a Promotoria, ele autenticou as mensagens trocadas com Jorge Fernández Díaz, demonstrando que este último tinha conhecimento da operação.

“Meu maior erro no ministério foi ser leal a pessoas miseráveis como Jorge [Fernández Díaz], ou Rajoy, ou Cospedal”, disse ele em outra mensagem incluída na investigação.

PP perde relevância na direita espanhola

O caso chega em um momento ruim para o PP, derrotado pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) de Pedro Sánchez nas duas últimas eleições legislativas de 2019, e prejudicado pela ascensão da extrema direita do Vox.

O PSOE, no poder graças à bem-sucedida moção de censura contra Rajoy, e seu aliado de governo, a esquerda radical do Podemos, solicitaram a criação de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o caso “Kitchen”.

“Desvia as atenções, em um momento em que o PP queria recuperar a unidade da direita e concentrar suas críticas na gestão da pandemia e na economia nos duros meses que se aproximam”, afirma Antonio Barroso, analista da consultoria Teneo.

Com isso, o Partido Popular volta a enfrentar um velho demônio. “A corrupção tem sido a questão que fez os eleitores do PP migrarem para o Vox e o Cidadãos”, um partido liberal de centro direita, lembra Barroso.

Enquanto isso, o líder do PP, Pablo Casado, tenta se distanciar.

“Não estou aqui para prender outros membros do partido. Quem tiver que cair cairá”, disse ele à rádio COPE na segunda-feira (14), acrescentando que, “por enquanto, não estou preocupado”.

Na semana passada, Casado lembrou que, na época dos acontecimentos, “não tinha cargo de responsabilidade no partido”.

Fonte: AFP

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