Mundo

3 de abril de 2020 14:39

Covid-19: Alagoanos pelo mundo contam o que têm visto do vírus da morte

Portal Tribuna Hoje conversou com vários deles que vivem em diferentes continentes

↑ Alagoana Luciene com o marido na última vez que saiu de casa, para depois se isolar (Foto: Arquivo pessoal)

 

Texto: Wellington Santos

O Portal TribunaHoje.com traz esta semana um périplo do olhar alagoano para uma das maiores pandemias que já se teve notícia e que já atingiu mais de 1 milhão de pessoas em todo o planeta. Da Europa – continente mais atingido pelo vírus – passando pela África, pela Oceania até países vizinhos da América do Sul, como a Bolívia, o portal faz um apanhado sobre o que alagoanos que moram nestes lugares estão vendo da tragédia na saúde pública mundial.

Essa quantidade de gente já testou positivo para o coronavírus, que vem aterrorizando pessoas do mundo todo pela sua capacidade destrutiva e pela forma com a qual ele facilmente se prolifera.

De acordo com a Universidade Johns Hopkins, uma das mais conceituadas dos Estados Unidos, até a quinta-feira (2), após duplicarem em uma semana, os casos de Covid-19 no mundo ultrapassaram a marca de 1 milhão. Segundo o levantamento, desses mais de 1 milhão de infectados pela doença — mais de 500 mil estão na Europa e mais de 217 mil nos Estados Unidos. O número de mortos já passa de 51 mil.

Até essa quinta-feira (2), no Brasil, o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais de Saúde divulgaram 8.066 casos confirmados do novo coronavírus, com 327 mortes pelo Covid-19.

Em Alagoas, também até 2 de abril, 18 casos foram confirmados, 352 suspeitos e um óbito por Covid-19, segundo dados do Informe Epidemiológico da Sesau. E, sobre essa tragédia epidemiológica, os alagoanos  espalhados pelo planeta que moram há pouco ou muito tempo no exterior trazem suas impressões e o que estão vendo disso tudo.

Alagoana conta sobre o horror que assiste na Itália

A primeira alagoana nesta reportagem é de Maceió e conta o que está vendo. Mora há 28 anos na Itália, atualmente o epicentro da epidemia. A socióloga Luciane Araujo sempre morou em Roma, mas há um ano ela e o esposo se transferiram para Taranto, uma linda cidade da Região Puglia, por motivo familiar. Praticamente toda esta semana, Luciene manteve contato com a reportagem atualizando notícias do que está testemunhando por lá. E já nesta sexta-feira, relata a mais nova tragédia:

“Hoje aqui nós tivemos notícias das casas que cuidam de velhinhos, em Roma. São mais de 270 casas que estão fechando porque os velhinhos praticamente morreram todos, coisa absurda, absurda. Casas que tinham 90, morreram 80 velhinhos, casas que tinham 50, morreram 40”, conta.

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Ruas completamente desertas na Itália por causa do medo (Foto: Arquivo pessoal)

Ela é casada, tem dois filhos. Um casal, Bruno, 27 anos, jogador de basquete que mora na cidade de Palermo, e Lidia Susanna, 24 anos, modelo e empresária, que vive em Roma, onde tem uma loja de roupas masculinas.

“Até o final de janeiro, a vida seguia adiante normalmente, cheia de sonhos. Satisfação e tranquilidade. Se falava tanto da epidemia naquela distante cidade da China, mas parecia uma tragédia que ficaria por lá. No dia 29 de janeiro, na televisão, se falava de dois casos positivos ao coronavírus, em Roma. Era um casal de chineses. Daí o governo colocou todos em alerta, pedindo que se evitassem aglomerações e fazer atenção à higiene, lavar as mãos, cobrir a boca ao tossir… Um segundo caso no dia 6 de fevereiro sempre em Roma, mas era um italiano que chegou de Wuhan, mas até aí tudo tranquilo, sob controle”, narra.

Inferno na Itália teve início no dia 21 de janeiro; colapso geral

Mas no dia 21 de fevereiro, Luciene lembra que se iniciava ali o inferno. Os primeiros casos de pessoas contagiadas sem ter viajado para a China. Ocorre então o primeiro foco do vírus na Itália, em uma pequena cidade do Norte da Itália chamada Codogno. E naquele momento tudo muda.

Fecham-se escolas, universidades e, em seguida, cinemas, restaurantes, shoppings, bares, lojas, até o ponto em que os únicos negócios abertos eram supermercados e farmácias. E o pior: o confinamento. “Todos em casa por duas semanas, depois nos informaram que tudo se prorrogava a 3 de abril, em seguida até a Páscoa e agora talvez ao fim de abril”, diz Luciene.

Depois a Itália começou a enfrentar problemas além da superlotação de hospitais e da falta de médicos e enfermeiros. Nas últimas horas, surgiram também dificuldades na gestão dos corpos das vítimas.

Desde que a crise foi deflagrada, em 20 de fevereiro, o país já soma mais de 900 mortes relacionadas ao Covid-19. Além do maior número de corpos, que congestionam o serviço funerário de cidades pequenas, a remoção dos cadáveres que possam estar infectados tem exigido um protocolo de segurança específico. Por causa da possibilidade de contágio, somente agentes funerários especializados podem acessar o local do óbito, munidos de roupas, equipamentos e caixão de máxima proteção. Além disso, antes de serem transferidas, as vítimas devem ser submetidas ao teste para o vírus.

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(Foto: Arquivo pessoal)

Foi sob essa justificativa das autoridades sanitárias que uma mulher precisou ficar mais de 24 horas ao lado do marido morto em casa, em Borghetto Santo Spirito, na região da Ligúria, no norte do país. Ele havia apresentado sintomas compatíveis com coronavírus nos dias anteriores e, ao passar mal, chegou a ser reanimado por socorristas antes de morrer. Eles não puderam levar o corpo, e a mulher, em regime de quarentena compulsória, não pode deixar a própria casa sem autorização e nem receber a ajuda de familiares.

“Uma situação horrível e desagradável que nem consigo definir em palavras. disse Luciene.

Na cidade de Alzano Lombardo, no entorno de Bérgamo, uma das províncias da Lombardia mais atingidas nos últimos dias pelo Covid-19, o problema é a quantidade de corpos à espera da cremação. Ano passado, nesse mesmo período, foram quatro óbitos. Agora, já são 22.

“No início se podia ir ao supermercado e farmácia quando necessário. Depois o mínimo possível. Hoje uma vez por semana, só uma pessoa da família pode sair para fazer as compras, obrigatoriamente, com máscara e luvas. As pessoas que não respeitam podem pagar uma multa de €400 a €3.000 e responder penalmente por colocar em risco a vida de outras pessoas. Com pena de 1 a 3 meses”, relata Luciene.

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(Foto: Arquivo pessoal)

Ela acrescenta que as pessoas acima de 65 anos devem ser assistidas ao máximo para que não saiam de casa. “Ou se devem sair que seja o mínimo possível. Enfim, estamos confinados a praticamente um mês. Vivemos a cada dia a esperança que tudo acabe”, completa a alagoana.

A situação da economia, apesar do empenho do governo em ajudar os cidadãos e empresas e também aos mais pobres, conta ela, é preocupante. As empresas de manufatura tessile, transporte e turismo que são importantíssimas, são as mais atingidas.

“Em meio a todo esse pesadelo, vejo a preocupação da minha família e amigos que estão aí em Maceió e em outras partes do Brasil a verem todas essas notícias através da mídia. Eu estando aqui e com a terrível macabra experiência que estou vivendo, passo boa parte do dia tentando conscientizar a todos aí, que o isolamento social é importantíssimo para combater esse vírus”, orienta.

Na Espanha, alagoana Rosânia vive isolamento familiar

A segunda personagem alagoana é Rosânia Rodrigues dos Santos. Mora em Marbella, no sul da Espanha, e também possui residência em Bexhill-on-sea, no sul da Inglaterra. É casada com um britânico de 85 anos há 15 anos, aposentado, mas que tem uma empresa.

“Antes do vírus nós vivíamos uma vida tranquila e agora estamos em isolamento domiciliar há 12 dias em Marbella e só saímos para ir ao supermercado”, conta Rosânia.

De acordo com Rosânia, na Espanha, os casos confirmados de óbitos já somam mais de 50 mil. Na região de Málaga ontem, casos confirmados: 665; hospitalizados: 333; recuperados: 46; óbitos: 26.

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Noticiário sobre coronavírus na Espanha alerta que país já possui mais mortos do que os registrados na China, onde tudo começou (Foto: Reprodução)

Onde ela reside, é uma cidade turística, litorânea, banhada pelo mar Mediterrâneo e próxima ao estreito de Gibraltar. “O dia a dia aqui é tranquilo. Há 16 anos moro na Europa, entre Espanha e Inglaterra. Estive no Brasil em janeiro deste ano”.

Sobre a família, Rosânia diz que tem saudades, mas não pretende voltar, “pois tenho minha vida estabilizada aqui. Mantenho contato todo dia. Eles estão calmos e querem que eu fique aqui segura”.

“Eu estou bem e tranquila. As recomendações são ficar em casa, lavar bastante as mãos, usar álcool em gel, e só sair para ir ao supermercado, por exemplo”.

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Alagoana Rosânia e o marido (Foto: Arquivo pessoal)

“Um dos principais problemas que pode ocorrer é com relação à economia e falta de subsídios na saúde”, diz a alagoana.

Alagoana diz que na Bolívia parte do povo não liga para a pandemia

Neste périplo do olhar de alagoanos sobre a pandemia no mundo, a Tribuna também foi ouvir gente que mora vizinho ao Brasil, como Marlene Omena da Silva, que vive na Bolívia. Ela é uma das habitante de La Paz, onde a população está em quarentena geral desde 13 de março.

Marlene saiu de Alagoas aos 17 anos para morar em São Paulo com a irmã Aurenice. Chegou a viver no sudeste por 5 anos e logo depois mudou para a Bolívia. “Eu já tenho 20 anos que moro aqui”, conta.

“Olha, aqui na Bolívia nós estamos tratando de recuperarmos de todo o caos que vivemos o ano passado com o ex- presidente Evo Morales. E agora que estamos esperando por novas eleições, que tinham que ser realizadas no mês de março, e tiveram a data mudada para o dia 4 de maio, mas agora com a situação pela qual estamos passando com respeito ao coronavírus, imagino que novamente as eleições não poderão ser realizadas nessa data”, afirma Marlene.

“A situação é de medo, insegurança por causa do contágio. Acabo de ver as notícias: já temos 32 casos confirmados e no momento eu não tenho o número exato de casos suspeitos”, diz Marlene.

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Marlene e a família na Bolívia (Foto: Arquivo pessoal)

Ela conta que no sábado passado foi decretada quarentena geral na Bolívia, mas muitas pessoas acreditam que é uma medida exagerada e não estão acatando 100%.

“Tem gente que sai para dar um passeio com cachorro. Inventam de ir às compras e estão caminhando pelas ruas. Não têm consciência do perigo pelo qual estão passando de ser contagiados”, diz a alagoana.

“Nós aqui em casa somos cinco pessoas. Os meus dois filhos não estão indo às aulas”.

Marlene é administradora, mas no momento não está trabalhando para nenhuma empresa. “Trato de trabalhar com um empreendimento próprio, o que faz a minha situação financeira ficar preocupante. Trabalho com pessoas que estão o dia inteiro nas oficinas, sou consultora de cosméticos de alta estética”, completa.

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Ruas desertas em La Paz, na Bolívia (Foto: Arquivo pessoal)

“Todos os dias tenho agendado visitas em várias oficinas ou residência. Trato de cobrir as necessidades daquelas pessoas que não têm tempo para sair. Foi a forma que eu encontrei para trabalhar, sem descuidar tanto dos meus filhos e da minha casa”, diz.

“Tenho muita saudade do Brasil, mas considero ter uma vida relativamente tranquila aqui. No momento com a situação do coronavírus não tenho vontade de voltar a morar no Brasil”, afirma.

No final, Marlene faz um alerta: “é muito triste isso, mas muitas pessoas vão morrer por causa de imprudência, porque muitas vezes é aquela história: ‘ver para crer’ e quando vão tomar medidas para se cuidar já vai ser muito tarde”.

Nem o país da melhor qualidade de vida se livrou do tormento, conta alagoano

A Austrália é um país que oferece uma das melhores condições de vida do planeta e o quarto país mais feliz do mundo, segundo o ranking de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas mesmo com um portfólio desse naipe, com essas qualidades, não passou incólume ao vírus da tristeza e da morte.

Por lá, em Melbourne, está o alagoano e jornalista Eduardo Vieira, que em abril faz um ano na Austrália e traz para o portal Tribuna Hoje um apanhado da situação. As últimas notícias davam conta de que mais de 900 casos foram confirmados de coronavírus, a grande maioria em áreas urbanas. Em Sidney, maior e mais populosa cidade do país, foram registradas cinco mortes em decorrência do vírus. Ao todo já são nove óbitos.

Atualmente relações públicas na WEST 1 Melbourne, agência de intercâmbio brasileira – Eduardo diz que a vida lá é bem corrida mas bem comum também. “Trabalho de segunda a sexta, das 9h às 17h, como relações públicas numa agência de intercâmbio. Eu estudo duas vezes na semana à noite (tô fazendo uma especialização em mídias sociais), rotina era pegar trem todos os dias pra ir e voltar ao trabalho, depois estudar ou lazer”, conta Eduardo.

“Transporte público é dos mais eficientes do mundo aqui, então é bem movimentado, maioria da população usa o transporte pra tudo, ônibus, trem e tram (uma espécie de bondinho). Melbourne foi por anos a melhor cidade do mundo pra se viver, não é à toa, tem muita coisa pra se fazer, muita segurança, cidade é bem organizada”, acrescenta.

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Eduardo Vieira na Austrália (Foto: Arquivo pessoal)

Mas ele alerta para o choque de realidade atual. “Agora tudo mudou. Desde o início da semana tô trabalhando em home office, de casa. Eu e toda equipe de cinco pessoas que trabalha comigo. O governo implantou uma quarentena parcial, fechando restaurantes, cafés e bares (permitido só delivery), cinemas, igrejas, praças, parques, praias, lugares de entretenimento, boates. Sair na rua ficou bem tenso já há pelo menos um mês, muita gente usando máscara, evitando todo tipo de contato”, diz o jornalista.

“O movimento diminuiu muito nas ruas, as grandes empresas todas adotando home office. Isso traz consequência pra quem trabalha em cafés, restaurantes e bares também. Muita gente perdeu o emprego, minha esposa é uma delas. O café que ela trabalha continua funcionando, mas com menos movimento, dispensaram quase todos os funcionários”, conta Eduardo.

“Nos tínhamos uma viagem pra Bali, Indonésia, marcada para o fim de abril. Mas tivemos que cancelar, óbvio, pela situação. Estivemos em Sydney há três semanas a passeio e a situação lá é ainda mais tensa, é o epicentro do problema aqui”.

“O governo já lançou vários pacotes de ajuda e incentivo às empresas, pequenas e médias principalmente. Todos os dias tem coletiva do primeiro ministro com novas medidas. Noticiário só se fala nisso. Muita campanha de conscientização pra se ficar em casa”, diz.

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Nem um dos melhores países em qualidade de vida no mundo escapou da pandemia (Foto: Arquivo pessoal)

“Agora estamos chegando no inverno, então tá ficando mais frio. Média de uns 16 graus, caindo pra menos”.

“Os voos internacionais estão fechados para quem não é cidadão. Só entra no país cidadão australiano ou residente. Internacionais estão proibidos por tempo indeterminado. Fronteiras fechadas”.

“Muita saudade da família, mas não penso em voltar agora. Pretendo esperar a crise passar, torcendo pra que passe logo, e ficar mais uns dois anos por aqui. É um lugar muito próspero, você é bem pago por qualquer trabalho que faça. Dinheiro rende aqui. Fora segurança, saúde, lazer. Possibilidade de fazer viagens pra destinos turísticos na região. Ainda quero aproveitar mais disso tudo aqui”, conta.

“Família preocupada, mas sabem que tô mais bem protegido aqui do que aí. Sistema de saúde aqui é mais preparado, governo mais organizado. Corro menos risco por aqui, assim imaginamos”.

Na África, alagoana prevê muitas dificuldades para conter doença

A Tribuna também deu uma “passada” na África, onde lá também conversou com outra alagoana. Anita Regina Soares Reis Chegão, pedagoga, de Maceió, mas que mora em Angola há 12 anos. No momento não exerce a profissão. O marido é angolano formado em administração de empresas, e é diretor administrativo e financeiro de uma empresa há 14 anos.

“No momento, estamos vivendo uma situação de preocupação e cuidados necessários. Segundo as autoridades locais, só tem três casos de mortes confirmadas sobre o coronavírus”, diz. Mas completa: “Acho que se houver uma pandemia, vamos sofrer muito, pois as doenças são muitas por aqui: tuberculose, malária, conjuntivite, pneumonia e outras e a saúde é muito precária. Eu passo o dia em casa, na internet, lendo. Já entramos em quarentena”.

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Alagoana Anita e o marido vivem em Angola, na África (Foto: Arquivo pessoal)

“Tenho saudades da minha família, tenho três filhos, uma neta, mãe e toda a minha família aí no Brasil. Todos querem a nossa volta, mas no momento não podemos sair do país, o espaço aéreo está fechado”, relata Anita.

“Emocionalmente estamos bem apesar de tantas notícias ruins. Só lamento o mundo estar passando por essa pandemia e as consequências que estão vindo”.

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Ruas de Angola, no continente africano (Foto: Arquivo pessoal)

E ainda sobre o momento que o mundo passa, Anita pede reflexão. “Espero uma conscientização geral da humanidade e que haja sempre amor, fé e esperança”, apela.

Portugal, da liberdade ao confinamento: o pesadelo real

Voltando ao Velho Continente, a Tribuna conversou com o psicólogo, jornalista e coach alagoano Vitor Luz, que faz uma descrição detalhada sobre como vivia antes de o coronavírus chegar a Portugal, mas precisamente na cidade do Porto.

“Antes da chegada do coronavírus a Portugal os dias eram repletos de liberdade, idas e vindas e, acima de tudo, contato social. As primeiras notícias foram chegando pelos principais portais de notícias, mas por enquanto ele ainda estava muito longe, não era assustador, tampouco ameaçador”, relata.

Em Portugal, Vitor é estudante de Mestrado em Psicologia na Universidade do Porto. Realiza atendimentos on-line e acompanha brasileiros que moram no exterior. “Meu dia a dia consiste em estudar, trabalhar à distância e criar estratégias para auxiliar as pessoas a lidarem melhor com suas emoções”.

“As aulas na universidade aconteciam normalmente. As atividades físicas dentro e fora das academias eram realizadas normalmente e os encontros entre brasileiros eram garantidos aos finais de semana. Após as aulas sempre marcávamos um encontro para relaxar, colocar as novidades em dia e interagirmos”, afirma o jornalista.

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Carro em Portugal com dizeres “Fique em Casa!” (Foto: Arquivo pessoal)

“Mas o coronavírus rompeu as barreiras do país e encontrou seus hospedeiros portugueses. Do dia para a noite nossa rotina virou de ponta cabeça. Começou uma corrida às farmácias em busca de máscaras, álcool em gel, vitamina C e tudo que pudesse fortalecer nossa imunidade. Os supermercados também estavam na lista dos lugares os quais precisávamos ir, o objetivo era garantir alimentos suficientes para algumas semanas, tendo em vista que o cenário já estava nebuloso”, conta o alagoano.

“Os casos foram aumentando e as restrições começaram a surgir. As lojas começaram a fechar, as empresas reduziram seus horários e o estado de emergência foi decretado, fique em casa, essa é a mensagem que não sai das nossas mentes”.

Até quarta-feira, 25/3, de acordo com Direção-Geral da Saúde (DGS) de Portugal, já haviam sido registradas 43 mortes e 2.995 casos de Covid-19. O país decretou estado de emergência e apenas supermercados e farmácias funcionam. Alguns estabelecimentos que fornecem comidas estão atuando por delivery.

Vitor saiu de Alagoas no dia 7 de setembro de 2019, o que já soma seis meses. “Sinto saudades de muitas coisas, dos meus familiares, dos meus amigos e dos meus cães, mas quando embarquei para realização deste sonho eu estava preenchido de muita determinação e esperança. Estar aqui é realizar um sonho de evolução profissional e pessoal. Para cada escolha uma renúncia e para todas elas uma consequência”, filosofa o alagoano.

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Psicólogo e jornalista Vitor Luz, alagoano que vive em Portugal (Foto: Arquivo pessoal)

“Meus familiares perguntaram se eu desejava voltar ao Brasil, logo quando as primeiras notícias na China surgiram, mas a minha escolha foi ficar em Portugal. Eu entendo que aqui é o meu lugar e voltar ao meu país de origem, mesmo diante deste cenário, seria abrir mão de um sonho e não estava disposto”, completa Vitor.

Do ponto de vista das recomendações, Vitor diz que em Portugal a maior recomendação é “Fique em casa!”. “Além de cuidarmos da nossa saúde e tomar todas as providências necessárias para nossa segurança”, disse.

“Emocionalmente eu estou tranquilo e em paz. Entendo que existe tempo para todas as coisas e compreendo que o coronavírus chegou também para nos lembrar coisas essenciais: aprender a amar nossa companhia, sermos mais criativos, mais afetivos, amáveis, cordiais, solidários, generosos, atenciosos e acima de tudo, cuidados com a nossa própria saúde”, e finaliza Vitor. “O que vai ocorrer no mundo depois de tudo isso? Não seremos mais os mesmos, jamais! Estamos aprendendo a sermos leves, flexíveis, sinceros, transparentes e acima de tudo, estamos aprendendo a amar a nossa liberdade e a presença daqueles que amamos”.

Alagoana na Alemanha ironiza declarações de Bolsonaro

A jornalista Flávia Batista, antes mesmo de responder as questões sobre sua visão da doença na Alemanha, onde está há quase um ano, não perdeu a ocasião para aproveitar e dar uma ironizada na frase do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. “E aí, estamos sabendo que tem uma ‘gripezinha’ rolando por aí!!”.

“Moro numa cidade deliciosa chamada Schonrdorf, no estado de Baden-Württemberg, no sudoeste da Alemanha. A vida aqui não é moleza. A gente trabalha à beça, mas vê nossa grana render. Eu e Nuno trabalhamos duro, mas conseguimos manter uma qualidade de vida. Nosso filho estuda numa escola pública, onde faz integração e já fala bem alemão”, diz.

Especificamente sobre a doença, relata: “Nossa rotina foi bem modificada desde que a Alemanha adotou as medidas preventivas para barrar o crescimento do Covid-19. Desde 17 de março todas as escolas estão fechadas com previsão de retorno para depois das festas de Páscoa, que é 20 de abril. Então estamos em quarentena, já que eu trabalho numa escola”, informa a jornalista.

“De toda forma, a Alemanha não decretou toque de recolher. As pessoas ainda podem circular, mas sob duras regras: não é permitido reunião de mais de duas pessoas na rua, sob risco de pagar multas bem altas”, disse.

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Jornalista Flávia Batista com esposo e filho na Alemanha (Foto: Arquivo pessoal)

“No geral as pessoas obedecem (alemão não perde dinheiro por nada)”, completa.

Flávia afirma que os transportes públicos circulam, mas os motoristas estão separados do resto do povo, numa espécie de cabine de isolamento e os assentos da frente não podem ser ocupados.

“Schorndorf fica perto de Stuttgart, que é um poço industrial fortíssimo da Alemanha. Cidade-sede da Porsche e Mercedes-Benz, para se ter ideia. Então tem muita gente circulando, a cidade ferve”, conta.

No entanto o marido de Flávia, Nuno Batista, falou que se nota uma clara diferença. As ruas estão vazias, os supermercados sem filas, pouco movimento mesmo. “Para nós, a rotina mudou muito. Eu que antes saía de casa antes das 6h para trabalhar, agora virei dona de casa. Passo o dia em afazeres domésticos e me virando como dá para manter a ordem mental”, relata.

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Já é possível ver prateleiras vazias na rica Alemanha por causa da pandemia (Foto: Arquivo pessoal)

“Mas tudo isso me mete muito medo, claro! A Alemanha é o terceiro país europeu com mais casos de Covid-19. Mas o menor em mortalidade. Acho que 0,3%, enquanto a média espanhola é acima de 8%”.

“A estrutura hospitalar aqui é muito boa. Para você ter ideia, enquanto a França tem cerca de 7 mil leitos para doentes graves, a Alemanha tem 25 mil”, informa Flávia. “Então esse cenário acaba por nos dar mais segurança”.

Além disso, a chanceler Angela Merkel já anunciou aporte financeiro para esse período. As empresas vão ter ajuda para se manterem e o estado vai ajudar a pagar os salários dos trabalhadores. “Meu marido inclusive ontem já foi pré avisado de que poderá ficar em casa nos próximos tempos. A empresa paga metade do salário e o governo o restante”, diz.

“O que me preocupa mesmo é a situação do Brasil. Meus amigos e minha família toda estão aí”. “Meus pais já são idosos e minha mãe é paciente renal. Então grupo de super risco. Ela inclusive está em Curitiba, na casa da minha irmã. Teve a passagem adiada sem previsão de retorno. E como todos os idosos, dando um trabalhão”, completa.

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Marido de Flávia chega a ir a quatro locais diferentes e algumas mercadorias não estão disponíveis (Foto: Arquivo pessoal)

Claro que não passamos ilesos a isso tudo. Os supermercados estão sem muitos produtos para vender, temos medo de faltar o essencial. É sempre uma luta pra reabastecer a despensa. Para encontrar pão, água e leite, às vezes o esposo tem de ir a quatro mercados. E tem produtos que não encontramos mesmo”, relata Flávia.

Fonte: Tribuna Hoje / Texto: Wellington Santos

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