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25 de março de 2020 08:17

Alagoanos na Itália relatam como está rotina com pandemia

Eles dizem que único jeito para diminuir a propagação é com o isolamento e recomendam que as pessoas fiquem em casa

↑ Edlene com marido e filhas: “com o agravamento da situação, começamos a ter medo, depois desespero e pânico” (Foto: Cortesia)

Alagoanos que moram na Itália contam como estão enfrentando a crise na saúde mundial  com a pandemia do Coronavírus – Covid-19, e como estão  lhe dando com as medidas adotadas pelos governantes nesse momento de isolamento social. Eles pedem que os alagoanos obedeçam aos decretos do estado e as orientações dos órgãos de saúde e fiquem em casa.

A dona de casa, Edlene Dantas e sua família, composta por duas filhas e o marido, que é italiano, fala das dificuldades de se adaptar à nova rotina com a quarentena no país. Ela mora na região de Veneto, no Nordeste da Itália – terceira localidade mais atingida pelo vírus. “Moro aqui já há 19 anos. No início não demos muita importância ao coronavírus. Pensávamos, como muitos, que fosse mais um novo tipo de virose. Mas com o agravamento da situação começamos a ter medo, em seguida desespero e por fim pânico, no qual nos impulsionou a invadir farmácias e supermercados  em busca de estoque de suprimentos de primeiras necessidades. Em um segundo momento a racionalidade falou mais alto, o único modo para diminuir a propagação desse vírus é o isolamento social”.

Segundo a dona de casa, há exatamente um mês a vida da  sua família e de milhares de outras pessoas teve uma mudança brusca, com um decreto que os impedia de demonstrar afeto e de estar entre amigos.

“À medida que a situação se agravava, novos decretos foram surgindo e hoje nos encontramos bem no meio de uma pandemia, segregados em casa, só podendo sair um membro da família para suprir as necessidades básicas. Minhas filhas estão tendo aulas on-line e correndo o risco de perderem o ano letivo. Hoje a situação é gravíssima, o sistema de saúde público considerado modelo está em colapso, equipes médicas esgotadas, cemitérios lotados e um país devastado pelo vírus e a perda de entes queridos, sem falar na economia e na garantia de  trabalho. É uma guerra contra o tempo. Muitos já se foram, outros ainda lutam entre a vida e a  morte  mas, devemos continuar firmes e fortes com determinação e convicção nas medidas de prevenção (por isso é tão importante o isolamento social) para combater esse inimigo mortal”, relata Edlene.

Edlene segue firme e com esperanças que tudo ficará bem em breve. E não deixa de lado o lema nacional italiano: Tutto Andrà Bene, em tradução livre para o português seria, “tudo vai ficar bem”.

Já a contadora Patrícia Silva Leandro, mora na cidade de Nápoles, há 10 anos, e afirma que a situação é igual em todo o país. “Não podemos sair de casa de maneira nenhuma. Vai fazer um mês que não saio de casa para nada. Meus filhos têm aula online. As escolas estão fechadas já tem um bom tempo. Somente uma pessoa por família pode sair de casa, para ir ao supermercado. No meu caso é meu esposo que vai, mas só é permitido uma vez por semana. O governo semana passada decidiu que vai continuar com o fechamento de tudo, inclusive as fábricas. Está tudo realmente horrível”.

De acordo com Patrícia, a família tem um restaurante, mas foi preciso fechar com a crise causada pela pandemia. “Não só o nosso estabelecimento, mas muitos outros foram obrigados a fechar. As pessoas têm que se conscientizar que é absolutamente necessário ficar em casa. Imagine que a situação aqui dos hospitais está muito grave, não tem posto para todos, está faltando respiradores. E gostaria que as pessoas aí em Alagoas, no Brasil, soubessem que a saúde pública aqui é excelente, funciona muito bem.  Não se compara minimamente ao SUS [Sistema Único de Saúde] daí, e estamos passando por uma situação problemática e grave, tem gente morrendo. Até o dia 3 de maio continuaremos em casa, é ordem do governo. Os boatos é que a situação pode perdurar até por volta de agosto’’.

EPICENTRO

Epicentro do surto do novo coronavírus na Europa, a Itália é o segundo país mais atingido em todo o mundo, com cerca de 63.927 casos confirmados e 6.077 mortes, segundo o jornal Corriere della Sera, até o primeiro turno da segunda-feira (23). Neste dia, 601 pessoas morreram no país, o que representa uma queda de 7% em relação ao número registrado no domingo, quando ocorreram 651 mortes. Desde sábado (21), quando foi constatado o recorde de 793 mortos, o índice de letalidade da doença caiu em quase 25%. Mas as autoridades italianas se mostram cautelosas em apontar tendência de queda. Isso porque, haviam registrado outra queda no registro diário de mortos entre 15 e 17 março, quando ainda não havia passado de 400 óbitos por dia.

“Em todos os países a reação humana é igual, não é cultural”

 

A aposentada Rose Nizoli, 63 anos, mora há um ano em Bérgamo, epicentro do Covid-19 na Itália. Ela conta que a situação por lá não está diferente. “Estamos seguindo a quarentena de forma enérgica por conta do avanço da doença. Estou isolada, sozinha há um  mês’’.

Na última semana, ela teve a permissão de receber uma amiga para ajudar nas tarefas de casa e ir em buscar do que faltava. “Uma amiga uruguaia pode ficar comigo, uma vez que ela também vive só. Nossa rotina tem sido ir ao mercado, farmácia e ao médico de base, quando ainda estavam atendendo. Hoje a maioria está com o vírus’’, relata.

Nizoli conta ainda que logo no início da ordem de quarentena, o consumo e as filas nos mercados e farmácias para estoques de alimentos e medicamentos eram demasiados. “Por aqui, era normal o consumo em demasia no início do problema, depois entra o medo e inibe até as compras necessárias. Em todos os países a reação humana é igual, não existe cultura, acredito que é uma defesa natural de sobrevivência’’.

Para aposentada, os italianos apesar de serem pessoas de fé, não acreditavam na expansão da doença. “Sou ítalo-brasileira. Amo meus  dois países. Mas, nesse momento, noto que a fé é um fator muito importante e isso o Brasil vai mostrar para o mundo. A intimidade com Deus. Veja nos moradores de rua, eles sabem louvar e orar sem inibição, e estão na linha de frente com o vírus. Aqui são diferentes, calados, falta chorar. Não temiam, por isso talvez isso fortaleceu o vírus’’.

ARGENTINA/EUA

Já na Argentina,  o supervisor shell Sebastián Ferian diz que a situação é controlada no momento. “No país são 266 infectados. E seguimos com a quarentena total, por isso há um controle e o vírus não está se espalhando. Quem não respeita a quarentena em que você está detido, os representantes do governo o notificam, abrem um relatório e escoltam você para sua casa. Como em grande parte do território mundial, apenas serviços essenciais como de supermercados e farmácias estão abertos. Ninguém pode sair acompanhado, uma pessoa só da casa sai por vez’’.

O alagoano Edson Vasconcelos mora há um ano e três meses em Boston, nos Estados Unidos. Ele  conta que a quarentena está sendo seguida totalmente pela população. Edson enviou a reportagem fotos de ruas da cidade totalmente desertas. “Você não vê ninguém nas ruas. A situação é complicada – só saímos para resolver algo importante que precise de nossa presença. O governador disse que pode colocar a guarda nacional nas ruas para que as pessoas não saiam. Tá tudo deserto – sair de casa  só para comprar comida, quando não for possível um delivery’’.

Na edição deste fim de semana da Tribuna Independente, a reportagem continuará com os relatos de alagoanos que moram em outros países e o que mudou na rotina deles com a pandemia.

Fonte: Tribuna Independente / Lucas França

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