Interior

Mulheres empreendedoras revolucionaram povoado São Bento, em Maragogi

Produção artesanal de sequilhos movimenta a economia do município do Litoral Norte de Alagoas

Por Claudio Bulgarelli / Tribuna Independente 27/08/2026 10h04 - Atualizado em 27/08/2026 11h22
Mulheres empreendedoras revolucionaram povoado São Bento, em Maragogi
Os famosos sequilhos são sucesso entre os alagoanos e os milhares de turistas que visitam Maragogi - Foto: Assessoria

Os sequilhos de São Bento, conhecidos popularmente como bolinhos de goma, são um importante patrimônio cultural imaterial de Alagoas, símbolo máximo da identidade gastronômica de Maragogi, no litoral Norte alagoano. O doce, que nasceu da adaptação de biscoitos portugueses coloniais, substituindo o trigo por ingredientes locais como a goma de mandioca e o leite de coco fresco extraído à mão, pode ser encontrado em bancas instaladas ao longo da rodovia AL-101 Norte, nas fábricas artesanais que resistem ao tempo e nos mercados da região.

Biscoito, raivinha de goma, bolacha e até saquarema. O sequilho tem vários nomes, mas a fama é única, já que, independentemente do nome, o seu sabor é incomparável e combina com todos os momentos. Mas você sabe de onde ele surgiu? De origem portuguesa, os sequilhos chegaram ao Brasil junto aos primeiros colonizadores, lá no século 17, e foi ganhando os corações dos brasileiros. Ainda na mesma época, houve um momento de extrema escassez de mantimentos, então essas deliciosas bolachinhas de goma foram reinventadas. Com os indígenas, os portugueses aprenderam a substituir o trigo dessa receita por derivados da mandioca, como o polvilho, deixando os sequilhos com uma textura mais leve e crocante.

Então quem vai a Maragogi, além das belezas naturais, pode se deliciar também com as iguarias da gastronomia local, e uma delas são os famosos sequilhos, ou bolinhos de goma, como são conhecidos na região. Mas porque em São Bento? A história conta que durante o período de colonização, com relatos de herança do período de ocupação holandesa, os moradores do povoado, sobretudo nas proximidades do mosteiro de São Bento, adaptaram receitas tradicionais de doces e sequilhos europeus. Por gerações, o biscoito chamado regionalmente bolo de goma, apesar de ter textura de sequilho não era comercializado. Ele era feito estritamente de forma artesanal para o consumo das famílias e como acompanhamento para o café oferecido às visitas.

A popularização comercial e o formato famoso do bolinho começaram há mais de 50 anos através de moradoras locais, tendo como principais referências a produção de Dona Marlene, Tia Carmelita e Tia Leni, as rainhas do sequilho, além de outras doceiras. Originalmente os sequilhos eram apenas achatados com garfo. As quituteiras de São Bento inovaram ao moldar os bolinhos manualmente usando pequenas tesouras para criar o formato decorativo de conchas do mar e pingos, uma homenagem direta à identidade litorânea de Maragogi. Hoje, as fábricas artesanais familiares instaladas nos quintais e cozinhas de São Bento movimentam a economia local, geram empregos, aumentam a qualidade de vida, e, o mais importante, passam de geração em geração, mantendo a tradição de mais de 5 décadas. O saber tradicional passou de geração em geração e hoje sustenta dezenas de famílias na região. O famoso bolo de goma amanteigado que derrete na boca virou atração turística obrigatória para quem visita o litoral de Maragogi. A iguaria foi reconhecida oficialmente como patrimônio cultural de Alagoas, preservando a história viva da comunidade de São Bento.

Pioneiras passam o conhecimento para as novas gerações da família

Marlene de Lima dos Santos, conhecida como Tia Marlene, transformou a receita familiar em renda, e sua casa é um dos lugares mais tradicionais de produção de bolo de goma em São Bento, onde é comum ver mulheres trabalhando, ralando o coco, preparando a massa ou dando forma aos bolinhos. Há 45 anos, os bolinhos de goma da Tia Marlene são produzidos com dedicação e carinho, quase que diariamente, na praia de São Bento. Uma receita que atravessa gerações, feita com leite de coco, margarina, ovo, açúcar, sal e goma da mandioca ou amido de milho.

Outra quituteira famosa é tia Leni, ou Leni Maria dos Santos, que hoje tem uma pequena fábrica da guloseima no vilarejo. Ela aprendeu a fazer os famosos bolinhos há 37 anos, com uma prima. No início, era apenas para o consumo da família. Depois, ela começou a vender os quitutes em casa. Os bolinhos fizeram tanto sucesso que tia Leni os levava para vender nas docerias de Recife. Daí, o negócio não parou de crescer.

Neste contexto é que surgiu também uma personagem muito popular no povoado São Bento: Carmelita Santos Alves, a popular “Dona Carmelita”, in memorian, que criou o delicioso bolinho de goma “sequilho” há mais de 40 anos, e que se tornou um dos símbolos da tradicional delícia que marca o município litorâneo.

Ela começou a fazer os sequilhos na fábrica da Tia Leni com as primas, e dividia o tempo com o serviço público trabalhando de auxiliar de serviços gerais na Prefeitura de Maragogi, mas com a aposentadoria, o tempo ficou livre para preparar as requisitadas encomendas. Em uma entrevista antes de falecer, dois anos atrás, ela disse: “Fui a primeira a colocar barraca na pista pra vender por um bom tempo. Mas depois eu quis ficar só na fabricação e conto com ajuda pra fazer os bolinhos”.

Ela se foi, mas deixou um legado importante para as futuras gerações. Atualmente a produção continua, e o sucesso também, ocupando comentários totalmente positivos nas redes sociais, comandada pela sobrinha, e “filha”, Yasmin Carvalho, e sua mãe, Benedita Alves, que toma conta da produção. Em 2024 a Assembleia Legislativa de Alagoas aprovou por unanimidade o projeto de lei que reconheceu o Bolinho de Goma, popularmente conhecido como Broa de Maragogi, como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado de Alagoas. O projeto, idealizado pela deputada Fátima Canuto, destaca não apenas a importância gastronômica, mas também o impacto cultural e econômico dessa iguaria na região. O reconhecimento da Broa de Maragogi como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial é um marco para Alagoas, celebrando a história, a cultura e o empreendedorismo de sua gente.