Interior
Ilha do Ferro busca proteção para preservar nome de um dos artesanatos mais reconhecidos de Alagoas
Indicação Geográfica pode proteger identidade da Ilha do Ferro e fortalecer mercado do artesanato alagoano
Cada peça produzida na Ilha do Ferro carrega mais do que madeira, formas e criatividade. Nela também estão presentes a história de uma comunidade ribeirinha, o olhar de seus artesãos sobre a natureza e um modo de fazer que transformou o pequeno povoado de Pão de Açúcar em uma das principais referências da arte popular alagoana.
Com o apoio do Sebrae Alagoas, agora essa identidade caminha para receber uma proteção oficial. Os artesãos estão concluindo a estruturação do pedido de Indicação Geográfica (IG), para a madeira e o artesanato produzidos na comunidade, que fica às margens do Rio São Francisco.
Neste mês de julho, o Sebrae realizou a última reunião presencial da consultoria especializada responsável por orientar o processo. O encontro com os artesãos marcou o encerramento de uma série de etapas necessárias para organizar a documentação que será encaminhada ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI.
Entre as ações desenvolvidas estão a delimitação da área geográfica da Ilha do Ferro, o fortalecimento da associação dos artesãos, a elaboração de regras específicas para o uso da IG, a criação do signo distintivo que representará o reconhecimento e a definição das características que as peças precisarão apresentar.
O que é uma Indicação Geográfica?
A Indicação Geográfica é um reconhecimento concedido a produtos ou serviços que possuem reputação, características ou formas de produção ligadas a um território. Na prática, funciona como uma garantia de origem, ajudando o consumidor a identificar que aquele produto realmente foi feito no lugar ao qual está associado.
É o que acontece com o Champagne, produzido na região francesa de mesmo nome, com o Vinho do Porto, em Portugal, e com o Queijo Canastra, em Minas Gerais. Produtos semelhantes podem ser fabricados em outros locais, mas não podem utilizar esses nomes protegidos ligados ao território de origem real.
“A Indicação Geográfica reconhece que, em um território específico, existe a produção de um produto ou serviço próprio daquele lugar. É uma forma de reconhecer e proteger aquele produto e a maneira como ele é feito”, explica a analista do Sebrae Alagoas Marina Gatto.
Atualmente, o Brasil possui 150 Indicações Geográficas nacionais reconhecidas pelo INPI, sendo 119 Indicações de Procedência e 31 Denominações de Origem.
Na Ilha do Ferro, o reconhecimento poderá ajudar a impedir que peças produzidas fora da comunidade sejam comercializadas utilizando indevidamente o nome do território.
“O consumidor poderá adquirir uma peça com a certeza de que aquele produto realmente é da Ilha do Ferro. Hoje, já existem muitas cópias e produtos semelhantes sendo feitos por artesãos que não são da comunidade”, destaca Marina.
Proteção e gestão
Conquistar uma IG exige mais do que comprovar a fama de um produto. Os produtores precisam estar organizados, definir as regras de produção e estabelecer mecanismos para controlar o uso do reconhecimento.
Por isso, parte importante do trabalho desenvolvido pelo Sebrae foi direcionada ao fortalecimento da Associação dos Artesãos da Ilha do Ferro, presidida pelo artesão Yang da Paz. A entidade será responsável pela solicitação junto ao INPI e terá participação direta na gestão da futura IG.
Um grupo de controle também deverá acompanhar a produção e verificar se as peças identificadas com o selo atendem aos critérios definidos no caderno de especificações técnicas.
Segundo Marina, o processo representa a continuidade de uma atuação que o Sebrae desenvolve há anos na comunidade, com capacitações em gestão e formação de preço, inserção dos artesãos em feiras e mercados, parcerias comerciais, ações de design e iniciativas de sustentabilidade, como o projeto Reflorir.
O projeto estimulou a construção de um viveiro, o plantio de mudas e a conscientização dos artesãos sobre a importância de compensar a retirada da madeira utilizada na produção das peças.
Pertencimento
Para Yang da Paz, a proteção do nome Ilha do Ferro está entre os principais resultados esperados pela comunidade. A preocupação aumentou diante do uso da identidade local por pessoas que não vivem nem produzem no território.
“De vez em quando, os moradores vêm falar comigo que alguém que não mora aqui está usando o nome da Ilha do Ferro. A Indicação Geográfica vai nos ajudar a proteger o nome da comunidade e a arte que é produzida aqui”, conta.
Como presidente da associação, Yang também enxerga o reconhecimento como uma oportunidade para levar as peças a novos públicos e realizar um dos seus principais objetivos, que é ampliar a presença do artesanato da Ilha do Ferro em outros países.
“A Ilha do Ferro é conhecida, mas eu viajo muito e ainda encontro pessoas que não conhecem o nosso trabalho. Acredito que a Indicação Geográfica vai nos ajudar a alcançar outros mercados e levar esse nome a lugares onde ele ainda não chegou”, afirma.
Ele reconhece, no entanto, que o processo ainda é uma novidade para parte da comunidade. Por isso, os integrantes da associação vêm realizando um trabalho de conscientização entre moradores e artesãos.
Mais autenticidade, mais valor
Após os últimos ajustes, a documentação deverá ser protocolada no INPI. A partir daí, o órgão analisará se o pedido atende aos critérios exigidos para a concessão do registro.
Caso seja aprovado, o reconhecimento abrirá uma nova etapa para a comunidade, com ações voltadas ao posicionamento da marca, ao controle de qualidade e à ampliação dos mercados alcançados pelos artesãos.A proposta vai fortalecer o valor de cada criação, preservar o modo de fazer e garantir que a história da Ilha do Ferro continue sendo contada por quem vive e produz no território.
“A intenção não é simplesmente aumentar a produção, mas melhorar a qualidade, a forma como os artesãos produzem e como vendem as suas peças”, conclui Marina.
A ilha mágica
Às margens do Rio São Francisco, no município de Pão de Açúcar, a cerca de 235 km de Maceió, a Ilha do Ferro reúne pouco mais de 450 habitantes e uma das maiores concentrações de artistas populares do Brasil. O pequeno povoado sertanejo transformou a madeira da caatinga, os bordados e a criatividade de seus moradores em uma identidade reconhecida dentro e fora do país.
O legado iniciado por nomes como Seu Fernando, Mestre Aberaldo, Zé Crente e Roxinha segue vivo nas novas gerações de artesãos, entre elas Yang da Paz, Vavan, Vandinho, Petrônio e Camille Souza, que mantêm a tradição e fazem da comunidade um verdadeiro ateliê a céu aberto.
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