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Vídeo: Das trilhas do cacau ao primeiro chocolate

História de cooperativismo e empreendedorismo no município de Matriz de Camaragibe começou há cinco anos

Por Claudio Bulgarelli - Sucursal Região Norte / Tribuna Independente 14/03/2026 08h28 - Atualizado em 14/03/2026 08h43
Vídeo: Das trilhas do cacau ao primeiro chocolate
Empreendedor Ramon Dantas apostou no cacau e transformou a Região Norte de Alagoas - Foto: Edilson Omena

Pequenas áreas de plantação de cacau já existem há algum tempo em Alagoas, sobretudo, em Colônia Leopoldina, Joaquim Gomes, Novo Lino, União dos Palmares, Porto Calvo, com área de expansão com plantio de novas mudas, além de São Miguel dos Campos e Teotônio Vilela, com integração cacau-coco. Mas é o município de Matriz de Camaragibe, região norte, que se destaca como polo, abrigando a primeira fábrica de chocolate 100% alagoano e sendo sede de encontros estaduais de produtores.

Mas tudo começou há uns 5 anos, durante uma trilha em uma reserva de Mata Atlântica, na região de Matriz de Camaragibe, que o agricultor Ramon Dantas se deparou com uma plantação de cacau em uma área de um antigo engenho. A curiosidade pela planta, aliada à sua experiência com a agricultura familiar, levou-o a buscar mais informações sobre a origem e o potencial da produção de cacau em Alagoas.

Acredita-se que o cacaueiro surgiu na região amazônica, mas pesquisas indicam uma domesticação precoce também na fronteira entre Colômbia e Equador. Os povos da Mesoamérica (atual México e América Central) foram os primeiros a domesticar e cultivar o fruto, utilizando-o para fazer uma bebida amarga chamada xocolatl. Para os Astecas e Maias, o cacau era sagrado, valioso (usado como moeda) e consumido pela nobreza em rituais.

Após a chegada dos espanhóis à América no século XVI, o cacau foi levado para a Europa, popularizando-se como bebida e, posteriormente, evoluindo para o chocolate sólido com a Revolução Industrial no século XIX. No Brasil, o cacaueiro já existia nativamente na Amazônia, mas o cultivo comercial estruturado teve início no sul da Bahia em 1746.

Mas antes de descobrir o potencial do cacau, e muito antes de surgir a fábrica e a produção de chocolate genuinamente alagoano, Ramon criou a agência de passeios ecológicos Flor de Camará Ecoturismo, oferecendo trilhas ecológicas com cachoeiras, ecociclismo e camping pelo Vale do Cacau, dentro da Reserva Santo Antônio, onde é possível conhecer um pouco da história do cacau, o processo de cultivo e produção do chocolate na região Norte de Alagoas.

O passeio, que tem atraído muitos turistas, pode ser feito em três etapas. Uma trilha mais leve, de aproximadamente um quilômetro, um percurso mais moderado, com seis quilômetros, e uma trilha para grupos mais experientes, com trajeto total de 9 quilômetros. As trilhas terminam em um casarão histórico de onde é possível ver toda a região que o cacau é plantado. Somente no ano passado, as trilhas do cacau levaram quase 1.500 à região e a expectativa é de ultrapassar 2.000 visitantes em 2026.

Assim, as ações do turismo ecológico, aliado a paixão pelo cacau, levou o agricultor- empreendedor Ramon Dantas a apostar na ampliação do cultivo do fruto na região. E após anos de estudo e investimento, ele criou a primeira fábrica de chocolates de Alagoas, a Cacau Matriz, marca que surgiu para diversificar a economia local, focada na produção do grão à barra com cacau orgânico, valorizando a agricultura familiar e o ecoturismo.

A região de Matriz de Camaragibe, tradicionalmente voltada para a cana-de-açúcar, buscou novas alternativas agrícolas. O cacau adaptou-se bem ao clima e solo locais, com plantios experimentais que evoluíram para uma produção consolidada. Inicialmente, acreditava-se que a produção era isolada, mas a participação em eventos como a Expoagro revelou um alto potencial de cacau cultivado na região, bem como trouxe em outros municípios, levando à criação da Cooperativa dos Produtores de Cacau de Alagoas e Derivados da Floresta – Copcacau, que reúne dezenas de produtores associados.

E foi Ramon Dantas, técnico agropecuário e vice-prefeito de Matriz, que teve um papel central ao visualizar o cacau como uma âncora de desenvolvimento, unindo o cultivo à produção de chocolate e ao turismo de experiência. Depois disso veio a fábrica e o produto, o primeiro chocolate 100 por cento alagoano. Inaugurada para ser uma vitrine e minifábrica, a Cacau Matriz oferece chocolates artesanais, sem conservantes, além de produtos sazonais, como panetones, valorizando o sabor autêntico de Alagoas.

Para Ramon, a Cacau Matriz, cuja loja funciona às margens da AL-105, em Matriz de Camaragibe, representa a transformação de um “sonho” em um negócio estruturado que gera renda para a agricultura familiar local e impulsiona o turismo na região Norte de Alagoas.

“Felizmente, a demanda por nossos produtos tem crescido nos últimos meses, e a loja está consolidando e impulsionando ainda mais a divulgação da marca e das vendas”, diz o empreendedor, destacando que, na última Páscoa, a marca vendeu cerca de quatro mil ovos de chocolate. Atualmente, a produção é dividida entre pousadas da região e encomendas diretas de clientes por meio do Instagram e outras redes sociais.

Loja está se consolidando e vendas aumentaram nos últimos meses, mudando a realidade local (Foto: Divulgação)

Ramon conta também que, apesar de toda a pesquisa pessoal realizada, foi apenas com o suporte de consultorias que a fábrica conseguiu desenvolver processos como a padronização de receitas e o controle de temperatura, melhorando a qualidade e a durabilidade dos diversos tipos de chocolate — incluindo versões mais nobres, com 60%, 80% e até 100% de cacau — além de chocolates brancos e pastas de cacau (mescladas com amendoim), entre outros produtos.

Segundo o fundador da Cacau Matriz, uma das missões da marca é também estimular a expansão da cultura do cacau em Alagoas, por meio do mapeamento de pequenos produtores no Estado e da distribuição de mudas, incentivando o aumento da produção local. “Nossa meta é distribuir cerca de 15 mil mudas de cacau por ano para ajudar os produtores locais a expandirem sua produção”, afirma Ramon, que continua atuando como guia pela trilha hoje conhecida como Vale do Cacau, na reserva da Usina Santo Antônio, para mostrar que 100% do cacau utilizado na fábrica vem de pequenos produtores alagoanos – não apenas do entorno de Matriz de Camaragibe, mas também de municípios como Joaquim Gomes, União dos Palmares, Colônia Leopoldina, Branquinha, entre outros.