Interior

Mineração ameaça varrer cidade de Craíbas do mapa

Vale Verde fatura R$ 6,1 bilhões com venda de minério de cobre em Alagoas

Por Ricardo Rodrigues - colaborador / Tribuna Independente 01/04/2025 07h58 - Atualizado em 01/04/2025 09h50
Mineração ameaça varrer cidade de Craíbas do mapa
Área de mineração do cobre fica localizada bem próxima ao setor urbano da cidade de Craíbas, que vem sofrendo com impactos ambientais - Foto: Edilson Omena

A Mineradora Vele Verde comercializou em 2024 cerca de 103.447 toneladas de minério de cobre extraídas do subsolo do município de Craíbas, que pode ter mais da metade do seu território abocanhado pela mineração. O alerta foi feito por ecologistas e é uma das preocupações dos ativistas do Movimento Nacional pela Soberania Popular na Mineração (MAB), segundo estudo de caso feito pela bióloga Neirevane Nunes.

De acordo com a Administração do Porto de Maceió, a movimentação de cargas de minério de cobre para exportação em Alagoas, no ano de 2024, foi 103.447 toneladas; em 2023 foi de 116.154 toneladas; em 2022 foi de 90.778 toneladas; e em 2021 foi de 10.500 toneladas. A administração do Porto diz que quantidade toda desse minério deve ter sido produzida pela Vale Verde. Até porque a própria mineradora assume que é a maior produtora de minero de cobre de Alagoas.

Com a cotação média do minério de cobre, no mês de março, na Bolsa de Mercadorias & Futuro, a US$ 9,500,00 a tonelada, a Mineradora Vale Verde deve ter faturado no ano passado mais de US$ 1,1 bilhão. Com um dólar valendo câmbio atual em torno de R$ 5,60, o faturamento da Vale Verde, no ano de 2024, em Alagoas, deve ter ficado em torno de R$ 6,1 bilhões. Esse faturamento ultrapassa o orçamento da Prefeitura de Maceió para 2025, que ficou em torno dos R$ 5 bilhões.

A produção da Mineradora Vale Verde é exportada para vários países, a exemplo da Índia, Polônia, Finlândia e China. O minério de cobre é usado, entre outras coisas, na fabricação de baterias de carro, celulares e outros eletrônicos. Como a indústria automobilística está migrando para o carro elétrico e este precisa de bateria potente, o preço da tonelada de minério do cobre disparou. Pode chegar a 11 mil dólares a tonelada, nos próximos dias.

Talvez por isso, a Vale Verde esteja em plena expansão, como prova a autorização que recebeu da Agência Nacional de Mineração (ANM), para explorar em 48% do território de Craíbas.

Prefeitura e empresa não revelam repasses

Apesar do faturamento alto, a empresa não revela quanto repassou, à Prefeitura de Craíbas, de Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). Em Alagoas, Craíbas é o município que recebe o maior montante de CFEM, repassado pelo governo federal. Mesmo assim, possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo. O Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico também é muito baixo. A CFEM deveria ser usada na diversificação da economia local, em saúde, educação e assistência social.

No entanto, o prefeito Teófilo Pereira (PP), que foi eleito com mais de 60% dos votos nas eleições municipais de 2024, evita falar no assunto. A reportagem da Tribuna Independente esteve, na última quarta-feira (26/3), na sede da prefeitura de Craíbas, mas o prefeito não quis conceder entrevista.

Quem visita Craíbas vê que a cidade se transformou em um verdadeiro canteiro de obras, a maioria bancada com recursos da mineração. No entanto, os moradores dizem que não recebem ajuda nenhuma da Vale Verde. “Muito pelo contrário, a mineração só dar prejuízo. Além dos tremores de terra, das rachaduras nas casas e da poeira constante, o Rio Traipu, está poluído. A gente entra para tomar um banho e sai com a pele coçando, de tanta poluição”, relatou uma moradora. Como trabalha na prefeitura, ela pediu para não ser identificada, temendo retaliações.

Cidade de Craíbas, localizada na Região Agreste de Alagoas (Foto: Reprodução)

MPF diz que fiscalização cabe ao MP estadual

O Ministério Público Federal em Alagoas (MPF/AL) foi procurado para dizer se recebeu denúncia de crime ambiental contra a Vale Verde ou se realizou recentemente alguma fiscalização no canteiro de operação da mineradora em Craíbas. Por meio de nota, o MPF de Alagoas esclareceu que não há, no momento, denúncia ou investigação em tramitação contra a mineradora Vale Verde.

“Em 2023, o caso foi analisado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que decidiu que a atribuição para apuração dos fatos é do Ministério Público estadual (Conflito de Atribuições nº 1.00589/2023-12). No entanto, o MPF acompanha a ação civil pública ajuizada pela Defensoria Pública da União (DPU) na Justiça Federal relacionada ao tema, atuando na qualidade de fiscal da lei”, acrescentou o MPF de Alagoas, por meio da sua assessoria de comunicação.

O Ministério Público de Alagoas (MP/AL) também foi procurado, por meio da sua assessoria de comunicação, para se manifestar sobre as reclamações dos moradores de Craíbas, com relação à suposta contaminação do Rio Traipu e o Riacho Salgado, por parte da mineradora, mas não deu resposta.

A Defensoria Pública da União (DPU) confirmou que tem uma Ação Civil Pública (ACP) ajuizada na Justiça Federal, na Comarca de Arapiraca, sobre as rachaduras nas casas dos moradores do povoado Pau Ferro, supostamente provocadas pela Vale Verde, mas disse que “no momento, não tem informações atualizadas sobre a questão, em Craíbas”.

Já os moradores dizem que “neste momento, as preocupações do povoado Pau Ferro e do Sítio Serrote são com as rachaduras nas casas; inúmeras casas com as estruturas comprometidas, doenças relacionadas a poeira, a mortandade de animais recém-nascidos por conta das explosões por parte da mineradora”.

Mineradora Vale Verde garante que as atividades desenvolvidas em sua área de mineração obedecem a todas as exigências da legislação (Foto: Edilson Omena)

Mineradora Vale Verde diz que as atividades estão dentro da lei

Procurada para se pronunciar sobre as denúncias de crime ambiental e sobre o seu faturamento em 2025, bem como o que tem feito pela população de Craíbas, a Vale Verde disse, por meio de nota, que todas as suas atividades estão dentro da lei e nenhum crime teria sido cometido por ela, até então. Segue a íntegra da nota:

“A Mineração Vale Verde (MVV) reitera o seu compromisso com o meio ambiente e comunidades anfitriãs de suas operações, bem como o respeito absoluto às regras impostas ao seu funcionamento.

A empresa esclarece que segue a legislação vigente e todas as diretrizes estipuladas por órgãos ambientais, não tendo sido identificada qualquer conduta que violasse essas diretrizes.

Todas as atividades realizadas pela companhia seguem os controles estabelecidos no Plano de Monitoramento validado pelo Órgão Licenciador.
A companhia se mantém à disposição das autoridades competentes e população para esclarecimento de eventuais dúvidas”.

A assessoria de comunicação da Vale Verde, respondendo às perguntas da reportagem, disse ainda, por meio de nota que:

“Não existe destinação de verba para prefeitura. O que existe é o recolhimento de CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) e a geração de ISSQN sobre a prestação de serviços realizada na região, em virtude da atividade minerária”.