Interior

1 de maio de 2021 19:31

Abril Indígena e os saberes indígenas na defesa do seu povo na pandemia

Projeto Magia da Terra, Mãe Terra, Sopão da Koran, suco e chá verde são saídas para lutar contra as adversidades da pandemia

↑ Foto: Assessoria

A pandemia de covid-19 trouxe mudanças significativas na rotina do mundo inteiro e para isso povos tiveram que se reinventar para se defender dessa doença que só no Brasil já tirou a vida de mais de 400 mil pessoas. A realidade é que dificuldades todos estão passando, porém existe uma outra fatia da população menos favorecida que sofre ainda, como comunidades indígenas por exemplo, mas é delas que também vemos exemplos de ações de combate a pandemia muito eficazes, como as ações promovidas pela mezineira Koran da tribo Xucuru Kariri da mata da cafurna em Palmeira dos Índios.

Os Xucuru Kariri usam a cura e a manutenção da saúde através do uso de ervas medicinais, além de cânticos e artes como a dança. A mezinheira, que significa mulher que cura com as ervas e alimentação, além disso Koran é fundadora do projeto Magia da Terra e Sopão da Koran que apesar de serem projetos permanentes, são grandes aliados nessa luta contra a covid-19 e fizeram parte das ações do Abril Indígena.

“O projeto Magia da terra em si surgiu em 2006, porque eu achava que faltava algo dentro da associação, outro intuito do Magia da Terra era juntar o empoderamento da mulher, seus conhecimentos e fortalecer a cultura indígena junto com o lado de ser mãe, da mulher que planta, acolhedora de fato a magia da terra, o dom dentro de cada mulher” explica Koran.

O Projeto faz parte da Associação Indígena Associação Indígena do Grupo Wpyra – Swpyra Xukuru, criada em 2012 para divulgar a cultura indígena, fortalecer a medicina tradicional indígena e trabalhar grupos de dança indígena como forma de cura. Outro intuito era ajudar dando inclusive uma forma de fonte de renda e o empoderamento da mulher, trabalhando com as ervas, para melhora da cura pessoal e da cura coletiva, aprendendo a multiplicar o pouco que se tiver sem precisar sair da aldeia.

A maioria das mulheres trabalham em casa, mas ainda assim precisam de uma renda e muitas precisam sair para buscar essa renda fora, na casa do “homem branco” na cidade e assim precisam deixar seus filhos em casa e o pouco que ganha o que muitas vezes não dá para dar uma qualidade de vida para ela e a família, “o projeto Magia da Terra pensa nessa qualidade de vida das mulheres, dentro da aldeia, cuidando e estando perto dos filhos e ainda assim gerar renda sem precisar que ela saia da comunidade” defende a mezinheira.

As soluções encontradas foram, o resgate da argila e da cerâmica na fabricação de jarros e panelas, o artesanato mais propriamente dito que foi chamado de “Mãe Terra” por essa característica de trato direto com a terra. Além disso tudo, elas aprendem também sobre essa violência doméstica, que é um problema que está no mundo todo, e o projeto traz esse debate, sobre as violências, sobre o corpo e o respeito a ele, foi com esse intuito também que nasceu o projeto.

Outro projeto é o do corte e costura, o Moda AFroIn que trabalha as duas expressões das etnias Afro e Indígena feito em parceria com o projeto Jared Vianna (Maceió) projeto feminista, aliados aos povos de terreiros e as comunidades periféricas. O trato e fabricação de artesanato também ajudou no combate a ansiedade, síndrome do pânico por parte das mulheres e no incomodo com a TPM só pelo fato de estarem entretidas com uma outra atividade que trazia prazer a elas, mas ela acabou notando que os jovens estavam se destacando mais do que as mães, e agora nesse projeto participam 15 jovens no Mãe Terra.

A comunidade da Mata da Cafurna é pequena, com cerca de 160 famílias e em torno de 500 pessoas que são moradoras, o terreno é pequeno graças a falta da demarcação e com as casas bem próximas umas das outras, em algumas delas com mais de uma família morando juntas, dai veio a questão do isolamento social e as medidas de segurança.

“Comecei a pesquisar os efeitos da Covid-19 no corpo, o que ela causava e assim busquei na terra “o tratamento” necessário, ervas, sementes, raízes e pós das raízes, já que se nosso corpo se comunica com o que comemos, se nos alimentamos bem nosso corpo se fortalece, então fomos buscar as plantas, raízes e etc que fortalecem nossa imunidade, uma erva pudesse fortalecer nossa função pulmonar por exemplo, explica Koran.

Com todo esse conhecimento da terra conseguimos produzir um sopão e um suco verde que trabalhava no aumento da imunidade que é distribuído para as mães e crianças que vão tomar vacina no posto de saúde. Ela conta que eles “atacaram” a covid antes que ela os atacasse, trabalhando o fortalecimento do corpo antes que o mal se instalasse, sendo assim o magia da terra se antecipou, cuidou e fortaleceu o corpo para que as pessoas não fossem acometidas pelo vírus.

O sopão ele está parado por conta da falta de recursos para a produção, pois a comunidade possui bastante macaxeira, batata doce, banana porém muitos outros ingredientes são comprados como semente de girassol, linhaça e outros para um sopa rica em nutrientes, coisa que sempre foi tratada com muito cuidado, para oferecer uma sopa rica em nutrientes e não apenas com carboidratos por exemplos “por 5 meses conseguimos manter com a ajuda de doações, mas pela alta dos preços as pessoas não estão conseguindo mais doar” lamenta a líder comunitária.

Pela falta de exames (subnotificação) não é possível um número oficial, mas caso se fossem feitos exames em todos, chegaríamos a um número de 80% de infectados, mas nenhum com sintomas graves, oficialmente tivemos apenas 5 infectados e todos assintomáticos, a estratégia foi a de ação logo nos primeiros sintomas e isso contribuiu para que não tivéssemos casos mais graves na comunidade.

O sopão da Koran que beneficia tantas mães e famílias está parado por falta de recursos, mas você pode ajudar contribuindo para que essa ação continue alimentando com qualidade diversas famílias fazendo qualquer doação para compra dos materiais necessários. As doações podem serem feitas através de depósito em conta:

Caixa Econômica:
Ag.: 0057
Op:013
C/p:45303-2
Banco do Brasil:
Ag:0136-8
C/c:10.178-8
Ou Pix
69996245420

“Um recado que deixo para a comunidade brasileira é cuidar, preparar seu organismo, aprender a se alimentar e fazer uma faxina mental, pensar positivo, não deixar o medo tomar conta de você, olhar para esse mundo que é belo, essa vida que Deus nos deu que ela é maravilhosa, da sua família, respirar, agradecer, tomar banhos de sol, ingerir alimentos crus, aprender a descascar mais, quebrar mais do que desembalando apenas e amar ao outro, a maior cura é o amor ao próximo, quando aprendermos a amar e respeitar o próximo e suas diferenças estaremos curados” finaliza Koran.

Matéria produzida por Paulo Canuto, estudante de jornalismo e voluntário no projeto de extensão Bureau de Comunicação Comunitária On-line no Combate à Covid-19 da Agerp Cos/UFAL, coordenado pela professora Manuela Callou e adjunta Keka Rabelo

Fonte: Assessoria

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