Interior

29 de outubro de 2020 08:43

Velho São Francisco recupera força e pode chegar a 2.500 m³/s

Casal e população ribeirinha sentem os efeitos positivos do aumento da vazão após longo período de baixo nível do rio

↑ Devido a baixo nível por longo tempo, leito foi ocupado pela população; agora, água pode pode oferecer riscos (Foto: Adailson Calheiros)

Após anos de vazão muito baixa, Rio São Francisco voltou a apresentar elevação em seu nível de defluência, chegando à faixa de 2.000m³/s no dia 24 de setembro de 2020, e com a perspectiva e chegar aos 2.500m³/s nos próximos dias. Os números foram apresentados em carta circular emitida pelo superintendente de operações da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), Tony Ulysses Firmino.

A informação é positiva para a empresa e a comunidade da região, de acordo com o presidente Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), Clécio Falcão. “O aumento de vazão dos últimos meses é importante para a operação das captações pelas companhias de saneamento, pois isso evita custos para a companhia e possíveis transtornos de interrupção do abastecimento para a população. Vale salientar que a Casal atende a cerca de 40 cidades com água captada no Rio São Francisco, incluindo todas as cidades da região semiárida de Alagoas”.

No mesmo documento em que apresenta os dados da operação dos reservatórios da Bacia do São Francisco, Tony alerta para a não ocupação das áreas ribeirinhas situadas na calha principal do rio. “Em condições emergenciais, a exemplo da necessidade de elevação de geração, a Usina Xingó tem a capacidade de turbinar valores da ordem de 3.000m³/s”.

A preocupação em manter as comunidades ribeirinhas se dá porque ao longo dos anos, com o baixo nível que o rio chegou a atingir na região, muitas pessoas ocuparam seu leito, utilizando os bancos de areia que se formaram como local de lazer e turismo. Com a recuperação da bacia, a água pode voltar a ocupar o espaço que não passa há décadas, e oferecer riscos a essas pessoas.

Falcão explica como estava a vazão do rio, e o que foi feito pela Casal. “Com a vazão do Rio São Francisco muito baixa, como ocorreu nos anos anteriores, quando a média ficou em cerca de 550 metros cúbicos por segundo, bem abaixo da média histórica, que era entre 1.350 a 1.500, a captação de água para abastecimento humano ficou prejudicada. A Casal, por essa razão, precisou fazer investimentos e readequações operacionais em suas estruturas de captação”.

De acordo com o gestor, a mais significativa delas ocorreu em Piaçabuçu. “Foi preciso instalar uma nova captação, distante seis quilômetros rio acima da anterior, e uma nova adutora, com seis quilômetros de extensão. O investimento total nesse serviço, com recursos próprios da Casal, foi de aproximadamente R$ 1,5 milhão. Essa nova captação entrou em operação em fevereiro de 2018 e funciona até hoje. O principal objetivo era livrar a captação da intrusão salina, ou seja, do aumento da salinização na água do rio levada pela água do mar, que avançava para o leito do São Francisco”.

Há ainda, muitos outros problemas causados por uma vazão abaixo da média. “Além da salinização, no caso do município mais próximo da foz, que é Piaçabuçu, a redução da vazão do rio também causa o afastamento da água da margem, ou seja, o leito vai se afastando da margem, onde estão situadas as captações para abastecimento humano. Isso exige investimentos em flutuantes, tubulações e instalações elétricas, além da necessidade das licenças ambientais, como o que ocorreu, por exemplo, no Sistema Adutor do Agreste, cuja captação fica em Traipu para atender os municípios da região, incluindo Arapiraca, Craíbas e Igaci”.

Mudanças na vazão impactam diretamente vida da população

 

Clécio complementa ainda com situações que chegam mais próximos do uso direto da população e dos equipamentos que a abastecem. “Outra situação advinda da redução de vazão é o assoreamento, que ocorre quando os sedimentos se depositam no leito do rio, vindo à tona na forma dos bancos de areia, que dificultam a navegação e também, em alguns casos, a captação para abastecimento humano. Outra consequência da redução de vazão é a proliferação de plantas aquáticas no entorno das captações, podendo haver entupimento das bombas. Sem força e sem correnteza, o rio deixa de arrastar essas plantas, que vão se proliferando incontrolavelmente, a exemplo do que já ocorreu na captação do Sistema Coletivo da Bacia Leiteira, em Pão de Açúcar”.

No abastecimento, a população não deve sentir diferença. De acordo com a Casal, as ações feitas foram preventivas. De 2015 para cá, quando a vazão diminuiu muito, a empresa fez os ajustes necessários para continuar operando os sistemas sem causar prejuízos à população. Então, com esse aumento de vazão agora, o benefício direto é sentido apenas pela Casal, para questão operacional.

Mas para quem trabalha diretamente no rio, o efeito já é perceptível. Gicelmo Castro tem uma lancha e trabalha com transporte de pessoas. Ele garante que a recuperação da vazão trouxe ganhos para a comunidade. “Melhorou muito pra nós em vários sentidos. Por exemplo, no canal principal onde a gente navega tem canto que estava passando com a embarcação topando no banco de areia. Então fica muito complicado pra navegar”.

Ele percebeu a mudança até na margem do rio. “Está limpando! Aumentou a corrente, e aumentando a corrente dá uma limpada geral no São Francisco. O rio estava sem força. Na margem dele juntou muito mato, estava sujo, lixo, esses esgotos que são jogados dentro do rio, que as autoridades não tomam providências, tá limpando.”

A baixa vazão deu lugar a uma vegetação que prejudicava o trabalho de pessoas como ele. “Estava cheio de baronesa e de rabo de raposa [um tipo de mato], que dificultam a nossa navegação porque ficam enganchando na hélice. Melhorou muito para navegar. Tenho certeza que com esse aumento a maioria dos ribeirinhos sai ganhando. Sem falar que eu acredito que é bom até para o peixe, porque tem água nova, e água nova é vida nova. Onde a gente passava com dificuldade, estamos passando tranquilos, sem perigo nenhum”.

Fonte: Tribuna Independente / Emanuelle Vanderlei

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