Interior

20 de novembro de 2019 09:21

“Arapiraca não valoriza sua negritude”

Professor Clébio Araújo diz que Arapiraca não tem memória dos negros no desenvolvimento da cidade

↑ (Foto: Arquivo pessoal)

Ex-reitor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), o professor-doutor Clébio Correia de Araújo afirma que Arapiraca não tem memória da história dos negros que contribuíram com o desenvolvimento do município.

Palestrante e conferencista, Clébio Araújo coordena o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) e desenvolve estudos e pesquisas sobre identidade, diversidade cultural e racismo, além de ministrar disciplinas sobre a História da África, Cultura Afro Brasileira, Direitos Humanos e Diversidade Cultural.

Para ele, Arapiraca sempre será um lugar de encontros, encruzilhada por onde se cruzam e se tocam muitas vidas, de cores, histórias, crenças e amores diversos.

“Dessa convergência de tantas formas de ser, resulta certamente esse ímpeto progressista, essa multiplicidade de energias que afloram a toda hora, buscando novos caminhos que apontem para o futuro. Todavia, nessa construção a tantas mãos, pretas, brancas e caboclas, há de se perguntar para qual futuro se dirige o olhar dessa Arapiraca, quando se sabe que não há destino coletivo que não se alimente da energia brotada da memória, da presença sempre viva dos antepassados”, indaga Clébio Araújo.

Ainda de acordo com o historiador e ex-reitor da Uneal, em pleno mês da consciência negra, ele questiona onde repousa adormecida a consciência da negritude arapiraquense?

“Tal questão implica, da mesma forma, indagarmos pelo lugar da memória negra dessa cidade, esfinge, que exige o autoconhecimento de si como condição para a passagem em direção ao futuro. Penso em que esquinas, becos, vielas e estradas circularão as narrativas que atestam a presença de corpos negros, de vidas negras, de almas negras na construção da consciência de ser cidadão e cidadã arapiraquense”, reforça.

Clébio Araújo frisa que o mito Manoel André, fundador de Arapiraca, exerce centralidade absoluta em sua absoluta ‘branquitude senhorial’. Para o professor universitário, Arapiraca não oferece sombra a corpos negros, tampouco qualquer lugar de descanso para suas memórias, segundo ele, invisibilizadas no tempo.

O historiador afirma que, sob o mito branco do senhor, passa subsumido o negro Manoel Tomás, com suas migrantes gentes, silencioso entre o Cangandu, palavra sobrevivente no negreiro vindo de Angola, e o Pau d’Arco empretecido com sua chegada em finais do século 19.

“Passam igualmente invisíveis, carentes de luzes memoriais, os pretos vendedores que ecoavam seus bordões em dia de feira e, durante a semana, pelas ruas da ainda imberbe Arapiraca, filha de Limoeiro do Anadia. Posso ouvir suas vozes ao longe… ‘quebra queixoooo”, “olha o peixeee”, “cavacooo”… descendo a rua da Matriz”, relembra.

“Não há um centímetro de vida que possa ter crescido por essas terras, que não tenha passado pelo hálito criador de negros e negras vindos da África e de seus descendentes”, acrescenta ele.

Clébio Araújo também cita, das regiões de Sergipe e Garanhuns, Manadeuí, Maria Garanhuns e tantas outras mulheres trabalhadoras que irradiaram as religiosidades afros, lançando as sementes das dezenas de terreiros de candomblé, que hoje fertilizam de vida a pobreza das periferias de Arapiraca.

Para ele, são hospital, farmácia, consultório psicológico, a assistência social dos desassistidos, que buscam nas casas Nagô, Congo-Angola e Gege o alento para suas dores.

“Há tantas raízes a serem descobertas, para que outras sombras abriguem também os mortos pretos, pardos e caboclos que, do alto, muito vivos, esperam o dia em que seus nomes ressuscitarão e nomes de ruas, praças e monumentos, mas, principalmente, nas encruzilhadas das consciências históricas de tantas Arapiracas”, completou.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Davi Salsa / Sucursal Arapiraca

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