Interior

30 de abril de 2019 21:54

Pesca da lagosta azul traz à tona discussão sobre preservação da lagosta em Alagoas

Aparecimento da rara lagosta chamou atenção de especialistas

↑ Foto: Reprodução

Uma lagosta azul apareceu numa rede de pesca duas semanas atrás no povoado de Barra Grande, em Maragogi. Apesar da raridade, Zé Ricardo, o dono do barco, conta que não foi a primeira vez que pescou “lagostim” azul nos mais de 20 anos de profissão. “É raro, mas já pesquei umas três, quatro vezes. Mas esta foi a com a cor mais azul que já vi”, conta ele, destacando que tratou logo de mandar o filho de 12 anos fazer fotos para não ser mais uma história de pescador.

Ele estava com outros dois pescadores quando puxou a rede que jogou durante a noite nos recifes de coral e levou os crustáceos pescados para serem retirados em casa. A lagosta azul, segundo o experiente pescador era um macho, adulto, com mais ou menos 200g. Estava vivo e se mexendo. Foi o filho que tirou as fotos, para logo em seguida devolvê-lo ao mar, como forma de preservar a espécie.

O aparecimento da rara lagosta azul chamou a atenção de especialistas. O professor Petrônio Coelho Filho, do curso de Engenharia de Pesca da Universidade Federal de Alagoas, ficou surpreso com o achado dos pescadores e disse que o material precisava ser levado para a comunidade acadêmica estudar. “É tão raro que nunca vi aqui no Brasil. Precisamos estudar o crustáceo para saber se a cor azul é causada por mudança genética ou alimentação. No caso de camarão na cor amarela tem a ver com alimentação”, comparou o professor.

Já o biólogo Cláudio Sampaio, professor dos cursos de biologia e engenharia de pesca e coordenador do laboratório de ictiologia e conservação do campus Penedo da UFAL, conta que mergulha há mais de 35 anos e jamais viu uma lagosta azul no Brasil. “É realmente muito raro. Normalmente, as lagostas azuis que temos conhecimento são de outras espécies, que não existem no Brasil. São lagostas do Atlântico Norte”, diz.

O professor explica que o padrão de cor da lagosta azul está relacionado à genética. “Ela vai mudando o exoesqueleto, (espécie de carapaça) e provavelmente algum problema genético relacionado à pigmentação acontece dando esse colorido azul”, explica Sampaio.

Os dois especialistas, que foram entrevistados por sites e jornais, orientaram que os pescadores que capturarem animais marinhos com padrões diferentes devem encaminhar o material para as universidades e centros de pesquisas, para que os bichos sejam objeto de estudo. “O mais importante nesse caso era que pudéssemos ter acesso a essa lagosta ou outras, que por ventura sejam capturadas, para encaminharmos para as universidades e centros de pesquisas para que profissionais possam examinar esse material, que é raro, para que possamos conhecer um pouco mais da biologia dessas espécies”, diz Sampaio.

A pesca da lagosta azul acabou trazendo a tona um grave problema em relação a lagosta brasileira. O professor Sampaio alerta que as lagostas brasileiras vêm sofrendo ameaças para sua conservação com a pesca desordenada, a poluição, e, especialmente, uma atividade que recebeu o nome de pesca fantasma – em que equipamentos de pesca são descartados ou abandonados no mar. Como essas redes costumam ser confeccionadas com nylon e outros materiais resistentes, podem passar décadas no fundo do mar, matando os animais.

“A lagosta se malha na rede, o peixe vai comer a lagosta e malha. Em seguida, um peixe vai comer a lagosta e se malha. Devemos chamar a atenção que as lagostas são importantes para economia do nosso Estado, mas estão sofrendo com a sobrepesca [pesca em excesso], a pesca não manejada, a poluição e a pesca fantasma”, destaca Sampaio. “A lagosta tem grande valor comercial, especialmente em Alagoas, por conta da facilidade de sua pesca. Como vive em águas rasas e recifes de coral, a pesca acontece no litoral norte de Alagoas”, afirma o biólogo.

Fonte: Claudio Bulgarelli - Sucursal Região Norte

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