Interior

Passeio por Viçosa, a “Princesa das Matas”

Cidade histórica também é atração do Circuito do Frio de Alagoas, com destaque para serras e importância ecológica

Por Claudio Bulgarelli – Sucursal Região Norte com Tribuna Independente 14/07/2018 08h47
Passeio por Viçosa, a “Princesa das Matas”
Reprodução - Foto: Assessoria
Tão férteis e produtivas eram suas terras que o primeiro governador de Alagoas, o coronel Pedro Paulino da Fonseca, decidiu trocar o nome de Vila da Assembleia para Viçosa, em 1890. No governo de Gabino Besouro, em 1892, foi transformada em cidade. Berço de intelectuais e terra do folclore gerou a chamada Escola de Viçosa, grupo de estudiosos que se dedicava a pesquisar a cultura popular. Antes era chamada de Riacho do Meio, e depois de Vila Nova da Assembleia. Tornou-se conhecida, também, por “Atenas Alagoana” e “Princesa das Matas”. Ao lado de sua importância histórica, Viçosa também tem grande importância ecológica, com destaque para a Serra dos Dois Irmãos, ideal para a prática do ecoturismo, lugar onde Zumbi dos Palmares viveu escondido nos últimos anos de sua vida e onde está localizada a Cachoeira dos Dois Irmãos. Destaque ainda os riachos Limoeiro, Porangaba, Sambalangá, Anelzinho, Veados e Riacho do Meio. Tem ainda o Açude Bananal, a Lagoa Brandão e as  serras Monteiro, Bananal, Alto da Balança, Alto do Gereba, Caçamba, Riachão, Alto do Cento e Vinte. [caption id="attachment_116762" align="aligncenter" width="300"] Em uma das serras de Viçosa, a do Bananal, foram localizados muitos vestígios dos quilombos (Foto: Prefeitura de Viçosa)[/caption] E em uma dessas serras, a do Bananal, foram localizados muitos vestígios dos quilombos. Há quem assegure que Zumbi morreu lá e não em União dos Palmares. Depois dos negros derrotados, o Rei de Portugal dividiu os domínios entre os vencedores. Em 1831, por decreto imperial, a povoação com nome de Riacho do Meio foi desligada de Atalaia e elevada à categoria de Vila. No governo de Gabino Besouro, em 1892, a Vila foi elevada à condição de cidade. A vida política de Viçosa teve muitas lutas partidárias, caracterizando a época de predominância do coronelismo. No aspecto cultural, porém, Viçosa é berço de destacados escritores e intelectuais de Alagoas, como Otávio Brandão, além de um importante núcleo de folclore. Com essa tradição cultural, Viçosa destaca-se, principalmente, por suas festividades: Carnaval, Festas Juninas, Festa do Padroeiro Senhor do Bom Jesus do Bomfim (entre os meses de janeiro e fevereiro), Cavalhadas e Vaquejadas. Viçosa tem ainda atração esporádica (não a dia nem mês estabelecidos), que é o Trem de Viçosa, onde filhos da terra viajaram juntos até o município e fazem um grande encontro. Viçosa também está associada ao universo mágico do folclore, expressão da alma da cidade. São vários os folguedos cultivados por sua gente, tradição passada dos antigos e ainda hoje cultivada pelos mais jovens. Tem a dança da Baiana, o Guerreiro, Pastoril, Reisado, Cavalhada, Coco Alagoano, Quadrilha e Vaquejada, esse último inserido nos últimos 50 anos e que atrai multidões para cidade. Uma cidade entre dois rios historicamente ligada aos quilombos [caption id="attachment_116763" align="aligncenter" width="300"] Centro histórico da cidade, que também está associado ao universo mágico do folclore, expressão do seu povo (Foto: Prefeitura de Viçosa)[/caption] A presença dos quilombos nos vales do Paraíba e do Mundaú se estendia desde a cabeceira destes rios até poucas léguas de distância das lagoas, e estendendo-se para o Norte, ao longo do cordão de “matas bravias”, que ocupava uma região que ficava além dos atuais limites com Pernambuco. Os pontos de maior concentração dos mocambos eram onde as matas eram mais férteis, ricas em palmeiras e caças, além de criarem barreiras naturais que dificultassem o acesso. Em Alagoas, as matas de União dos Palmares e Viçosa apresentavam condições ideais para quem fugia dos engenhos da capitania. No povoado Bananal e sítios adjacentes, como Anel e também nas fazendas Bom Sucesso, Mata Limpa e Floresta, já em Chã Preta, foram localizados vestígios dos quilombolas, tais como armadilhas para caça, bananeirais, canaviais e outras plantações. Os mocambos de Osenga e Sabalangá também foram identificados como locais que comprovam a existência de quilombos. O núcleo primitivo da atual cidade de Viçosa surgiu muito anos depois em um local denominado Riacho do Meio, como relata Alfredo Brandão no livro Viçosa de Alagoas. A tradição oral guardou que, todos os anos, pelo Natal, um padre saía de Atalaia para rezar a missa do galo na Passagem (antiga povoação próxima à cidade de Quebrangulo). Uma vez, tendo chovido torrencialmente durante o dia, o padre, ao chegar à margem de um riacho que fica a igual distância entre outros dois, encontrou-o de tal maneira cheio que o não pôde atravessar. Perdendo a esperança de continuar a viagem, procurou o outeiro próximo, ergueu uma cruz e durante a noite celebrou a missa do Natal. Essa cruz, bem depressa, atraiu romeiros — os primeiros a erguerem habitações do novo lugar —, que tomou o nome de Riacho do Meio. Em 1790, um agricultor de Alagoas (atual Marechal Deodoro), chamado Manoel Francisco, por determinação do ouvidor José de Mendonça Matos Moreira, foi estabelecer residência no sítio Riacho do Meio, com o fim de experimentar aí a cultura do algodão. Esse Manoel Francisco, que talvez fosse um dos romeiros da cruz, derrubou as florestas das cercanias, fez um roçado no vale, mais ou menos no mesmo local onde hoje se acha a Praça Apolinário Rebelo, e logo depois erigiu uma capela de madeira no ponto em que atualmente existe a igrejinha de Nossa Senhora do Rosário. Ao lado esquerdo da igreja começaram pouco a pouco a se alinhar as primeiras casas, também eram construídas de madeira. Homem ativo e trabalhador, o fundador de Viçosa continuou com o plantio de algodão e estendeu os seus roçados para os lados do norte, legando o seu nome a uma ladeira que fica no antigo caminho da fazenda Barro Branco.