Interior

16 de junho de 2018 10:14

Avanço do mar no Litoral Norte preocupa

Moradores, empresários e hoteleiros estão receosos; especialistas preveem alterações ainda maiores nos próximos anos

↑ Erosão marinha é mais evidenciada nos setores norte e central, sendo estes os mais ocupados e urbanizados do litoral alagoano, onde há dezenas de empreendimentos, muitos bem próximos à linha de maré (Foto: Divulgação)

Com a chegada do inverno e o significativo aumento das marés, através do forte avanço do mar, que é um fenômeno registrado no litoral dos 17 Estados brasileiros banhados pelo Oceano Atlântico, empresários que possuem estabelecimentos como restaurantes, bares e receptivos turísticos, além de hoteleiros com belas pousadas e hotéis, manifestam pavorosa preocupação com os possíveis danos que podem causar o avanço contínuo das marés durante o inverno.

O Litoral Norte tem sido a região mais atingida de Alagoas nos últimos anos com o aumento das marés, sobretudo no fim do verão e início do inverno.

O problema começa ainda nas praias urbanas de Garça Torta, Riacho Doce e Ipioca e se prolonga até Barra Grande, em Maragogi, na divisa com Pernambuco. Ao longo desses 130 quilômetros são dezenas de empreendimentos, muitos bem próximos à linha de maré, construídos antes dos planos diretores municipais, que a partir de 2011 limitaram construções de pousadas, hotéis, restaurantes e mesmo casas, a partir de 50 a 70 metros da linha de maré.

Levantamentos recentes apontam que, além de avançar em uma velocidade acima do normal em alguns locais o mar também está recuando em parte significativa do litoral, o que vem mudando o mapa litorâneo.

Especialistas preveem alterações ainda maiores nos próximos anos. A costa de Alagoas caracteriza-se por grande desenvolvimento de estuários e manguezais, plataforma continental estreita, coberta por sedimentos carbonáticos e com grande desenvolvimento de recifes. Tal configuração, aliada ao fraco fornecimento de sedimentos pelos rios, confere a costa uma alta vulnerabilidade.

A presença de falésias vivas e de rochas mesozoicas da Bacia Alagoas, somadas à quase ausência de planícies e as ocupações do homem ao litoral, são responsáveis pelos graves problemas ambientais relacionados à erosão marinha que atinge as praias do Estado. A erosão marinha é mais evidenciada nos setores norte e central, sendo estes os mais ocupados e urbanizados do litoral alagoano.

Segundo relatório do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) quase 60 por cento do litoral alagoano se encontra em risco de alerta.

O coordenador de gerenciamento costeiro do Instituto, Ricardo César, acrescenta que o avanço ocorre em toda a orla marítima.

Maceió, por exemplo, alguns pontos com mais intensidade. A erosão começa no fim de Sauaçuhy e segue até o antigo Detran, no Pontal da Barra.

Todos esses pontos estão com processo de erosão. Mas agravado ainda nas áreas que estão ocupadas, como Pajuçara e Ponta Verde. Ricardo César afirma que diversos fatores contribuem para essa elevação, principalmente a ação do aquecimento global e eventos ambientais de grande magnitude.

“A tendência é de elevação para os próximos 50, 60 anos de 80 cm no nível do mar. Isso é muito. Porque as alturas de ondas também vão mudando, some isso com os eventos climáticos extremos com a área de baixa pressão onde também vamos ter ondas maiores, com maiores frequências incidindo sobre a costa”, diz Ricardo César.

Processo de erosão em Alagoas atinge toda a região da Costa dos Corais

 

O problema começa já nas praias urbanas do Litoral Norte de Maceió, onde o avanço do mar, em alguns trechos da orla, tem chamado a atenção. Na Garça Torta, muitas casas já perderam seus muros. Na praia de Riacho Doce o avanço do mar derrubou no inverno passado um muro de mais de 20 metros da pousada Kazatao. Na praia de Ipioca, dentro do Condomínio Angra de Ipioca, por dois anos seguidos, a barreira natural de areia e restinga foi atingida pelas grandes marés e destruiu mais de 100 metros de praia do Hibiscus Beach Club, provocando damos econômicos de mais de 200 mil reais.

Na divisa entre Sauaçuhy e Paripueira, o rio Sauaçuhy, que muda de curso constantemente devido as fortes marés, começou sua ação destruidora há quatro anos, destruindo muros e jardins de mansões que se encontravam a 100 metros de distância da praia. As casas perderam valor de mercado e muitas já estão ameaçadas pela continua mudança do rio. Além disso parte da praia de Costa Brava também está sendo afetada.

Avanço e força do mar causam destruição em barracas da Praia da Sereia, na capital alagoana, deixando comerciantes locais em prejuízo (Foto: Divulgação)

Já os moradores da Ilha da Croa, na Barra de Santo Antônio, há anos cobram do poder público o prosseguimento da obra de instalação de um dissipador de energia utilizado para proteger a costa da erosão provocada pelo avanço do mar. Eles desejam que o obstáculo se estenda no sentido norte da ilha, por mais um quilômetro, evitando a destruição de casas, pontos comerciais e de embarque e desembarque de jangadas.

Para barrar o avanço da maré que, com apetite voraz, abocanha a Ilha da Croa, a prefeitura municipal, através de recursos do Ministério da Integração Nacional, construiu em 2012 um barra-mar com um quilômetro de extensão. A obra, que por enquanto freou o processo erosivo, consiste na fixação de bolsas recheadas com concreto que são sobrepostas à beira-mar, formando um obstáculo dissipador de energia e que, com o passar dos tempos, vai promovendo a engorda da praia, recuperando os trechos erodidos.

Mas se o obstáculo foi à salvação das casas de veraneio que restaram ao sul da Ilha da Croa, agora é apontado como causador da destruição que assola o lado norte. Pescadores acreditam que as áreas adjacentes estão sofrendo com os efeitos colaterais do dissipador de energia. Eles cobram que a obra seja estendida por mais um quilômetro para proteger os imóveis que ficaram expostos.

Fonte: Tribuna Independente / Claudio Bulgarelli

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