Interior

10 de março de 2018 09:02

Um passeio pelo histórico Rio Manguaba

Mais importante rio do Litoral Norte tem catalogados 12 portos criados à época das invasões holandesas no século 17

↑ Foz do Rio Manguaba: do porto do Varadouro, em Porto Calvo, até a foz, entre Porto de Pedras e Japaratinga, são 42 km de navegação (Foto: Igor Couto / Cortesia)

Os passeios pelo Rio Manguaba, enfim, poderão sair do papel e se tornar uma realidade a mais para o desenvolvimento do turismo no Litoral Norte. Com a descoberta de um forte do período da ocupação holandesa e a revelação de muitos outros, interessados começam a aparecer.

O Rio Manguaba nasce no pé da Serra do Lino e escorre num curso que já era percorrido 400 anos atrás até o mar. Do porto do Varadouro, em Porto Calvo, até a Foz, entre Porto de Pedras e Japaratinga, são 42 km de águas navegáveis. A Bacia do Rio Manguaba drena parte dos municípios de Novo Lino, Jundiá, Porto Calvo, Japaratinga e Porto de Pedras. Desde a sua nascente o rio percorre zonas rurais e cruza por centros urbanos, sendo o mais importante rio do Norte de Alagoas.

No passado, por suas águas escoava a produção de açúcar dos engenhos da parte Norte do Estado. Hoje, seu maior destaque também está na bela foz, que separa os municípios de Porto de Pedras e Japaratinga.

Apesar de não possuir litoral, Porto Calvo integra a região turística da Costa dos Corais alagoana justamente por causa da restinga e dos vários resquícios da presença holandesa ao longo do Rio Manguaba. E foi pelo rio que foram encontrados os antigos portos para embarcação fluvial na região, denominada na época de Alagoas Boreal. E mais recentemente arqueólogos do Iphan e da Universidade de Pernambuco fizeram uma expedição pelo largo Rio Manguaba, no trecho que liga o município de Porto Calvo ao vizinho Porto de Pedras catalogando 12 portos criados à época das invasões holandesas na primeira metade do século 17.

Desde as ancestrais batalhas entre Portugal e Holanda nas águas do rio Manguaba, tais portos, embora desativados, continuam sendo chamados pelos antigos nomes por pessoas que conhecem a tradição do lugar. O primeiro local mapeado, em Porto Calvo, foi o Porto das Barcaças, que fica próximo ao histórico Moinho Manguaba, no antigo bairro do Varadouro. Durante muito tempo, este foi o principal porto da região Norte, servindo às embarcações comerciais que traziam mantimentos para Porto de Pedras, Japaratinga e Porto Calvo.

Depois vem o Porto da Camboa, onde atracavam as grandes embarcações setecentistas. Em seguida vem o local onde acampavam soldados, a Ilha do Guedes. Mais à frente, o Porto do Estaleiro, que, de acordo com os arqueólogos, já estava bem ali no ano de 1600. Este abrigo secular fica nas imediações do Engenho Estaleiro. O Porto do Espinheiro é o quarto local identificado. O lugar é cercado por uma vegetação extensa cheia de árvores centenárias. Em seguida, vem o Porto do Caxangá, instalado no povoado de mesmo nome. O Porto do Barbaço é o sexto nesse percurso fluvial em direção a Porto de Pedras.

O Porto de Taba, na Fazenda Porto Grande, é o sétimo e o primeiro localizado à margem direita do Manguaba, já em território porto-pedrense. Logo se avista o Porto Grande, oitavo ancoradouro, local cercado por uma densa floresta e também repleto de árvores centenárias. O Porto do Crasto retorna ao lado esquerdo do Manguaba e ao município de Porto Calvo. O porto na fazenda Crasto é um dos mais antigos. Nesse trecho, do porto Grande ao porto do Crasto, as águas do Manguaba começam a ficar mais limpas e o rio com uma largura de mais de 200 metros.

O Porto da Ribeira, em Porto de Pedras, é o décimo. A densidade do rio começa a mudar com a mistura das águas do mar. O porto do Campo Lino é o décimo-primeiro. Finalmente, o derradeiro refúgio, o Porto de Pedras que, assim como o Porto Calvo, originou o nome da cidade.

Forte é referência histórica da época

E foi novamente pelo rio que o passado revelou a mais importante e marcante presença dos holandeses em Porto Calvo. Arqueólogos encontraram há alguns anos um forte do século 17, da época da ocupação holandesa no Brasil, localizado no Reduto Ilha do Guedes, às margens do Rio Manguaba, numa fazenda particular.

O local do forte, essa pequena ilha no meio do rio, defronte à antiquíssima Rua do Varadouro, por onde foram dependuradas, num dia do ano de 1635, as partes esquartejadas de Calabar, só tem acesso por meio de barco.

O local era usado pelos militares holandeses antes de seguirem para Penedo, no extremo sul alagoano, e depois para a Bahia. O forte, que tem 473 m² e contém muralhas de terra, coloca Porto Calvo como referência na história da ocupação holandesa no Brasil.

Dois anos atrás o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional iniciou ali pesquisa arqueológica sobre os resquícios da ocupação holandesa na região entre os anos de 1630 e 1654.

O “fortim em terra” estava coberto pela vegetação. A operação, chamada “Projeto Manguaba”, seguiu o curso do Rio Manguaba até Porto de Pedras no litoral, percorrendo trilhas usadas por soldados e oficiais naqueles anos de guerra, em busca dos vestígios da movimentação que se fazia ali nesse período.

A restauração do forte Bass na Ilha do Guedes teve início em novembro de 2017 pelo Iphan com arqueólogos da Arqueolog Pesquisas.

A previsão é que esta etapa seja concluída nesse primeiro semestre de 2018.

De acordo com o estudo, o reduto é um provável acampamento de Johannes Lichthard, um almirante holandês, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, no século 17.

E assim, o forte, mesmo antes de ser totalmente restaurado, já se tornou local de visitas. Mês passado coordenadores e professores da rede municipal de ensino e membros da Secretaria de Educação de Porto Calvo visitaram o “fortim” da Ilha do Guedes, que está sendo restaurado desde novembro de 2017.

Os profissionais aprenderam um pouco da história do local e visitaram o forte junto com os arqueólogos. O objetivo da visita foi incentivar os professores a conheceram a história do local e levar o assunto para a sala de aula com os alunos.

O arqueólogo Marcos Albuquerque afirmou que a restauração está sendo bem encaminhada e acredita que nos próximos meses os trabalhos estejam concluídos.

A revelação do fortim ocorreu em março de 2015 durante o 1º Fórum de Arqueologia em Alagoas Período Ibérico/Holandês, que aconteceu na cidade de Penedo.

Fonte: Tribuna Independente / Claudio Bulgarelli

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