Interior

28 de março de 2017 07:58

‘Só um milagre de Deus salva o São Francisco’

Ribeirinhos perdem cada vez mais a esperança de ver o Velho Chico recuperar sua força

 

 

 

Depoimentos cheios de lamúria marcam a reportagem feita pela equipe do portal Tribuna Hoje nas cidades de Penedo e Piaçabuçu, onde os ribeirinhos dizem esperar por um milagre de Deus para ver o Rio São Francisco imponente e farto de novo.

O Velho Chico, antes fonte de renda e sustento de dezenas de cidades alagoanas, está perdendo a vazão, suas águas estão ficando salgadas e os peixes típicos do rio estão desaparecendo.

“O rio era cheio, ia até o muro do cais. Hoje é uma lagoa. Hoje em dia tem espécie que não se pesca mais, o pirá, o capadinho. Hoje tem tucunaré e cará. É o que tem. O rio está seco demais. Não dá para navegar mais com barco grande, só lancha, por causa dos bancos de areia. Eu acho que deve ser por causa das barragens. São demais. Tem muitas. A gente fica sentido… Antes a gente pegava peixe com anzol, na beira do rio. Eu queria que as autoridades soltassem um pouco as águas das barragens. Estamos perdidos, ao Deus dará”, lamentou seu Manoel Pedro Neto, de 73 anos, morador do Povoado Saúde, no município de Santana do São Francisco, no lado de Sergipe, bem próximo a Penedo.

O professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em Penedo, Cláudio Sampaio, explica que o assoreamento (processo em que cursos d'água são afetados pelo acúmulo de sedimentos, o que resulta no excesso de material sobre o seu leito e dificulta a navegabilidade e o seu aproveitamento) do Rio São Francisco  é causado principalmente pela ausência de mata ciliar.

“A mata ciliar tem um papel importante na retenção de sedimentos, no sombreamento do rio, mantendo uma temperatura agradável, reduzindo a evaporação da água e produzindo alimentos para as espécies que vivem naquele ambiente. Quando as margens ficam descobertas, a chuva e o vento transportam o solo e outros resíduos para dentro do rio, que vai ficando cada vez mais raso e se formam também bancos de areia, como pode-se ver bastante aqui na parte do São Francisco que passa por Penedo”, explica.

Cláudio Sampaio destaca que, antes da transposição do São Francisco, seria preciso que acontecesse um trabalho de revitalização do rio.

“É uma questão bastante polêmica. A transposição aconteceu sem que obras de revitalização do rio fossem implementadas e isso pode piorar ainda mais a questão do assoreamento, por conta da redução da vazão. O rio já está com baixa vazão e retirando mais água, agrava a situação”, opinou o professor.

Além das questões ambientais, Cláudio Sampaio lembra que a baixa vazão do rio também traz impactos econômicos para a cidade de Penedo.

“A gente pensa muito nas questões ambientais, que são sim muito importantes, mas esquece dos serviços que o rio presta para a população. A geração de emprego, de alimentos através da agricultura e o modo de vida. É um impacto ambiental, social e econômico”, destaca.

Cláudio Sampaio explica ainda que o lançamento de esgoto no rio também é uma das grandes causas do seu declínio.

“Tem espécies típicas do rio sem ocorrência no Baixo São Francisco há quinze anos. Todos os anos, na semana da água, soltamos os peixes com a presença de estudantes, na tentativa de repovoar o Velho Chico”.

Novas gerações não querem pescar

Com a crise pela qual passa o Rio São Francisco, as novas gerações de ribeirinhos não se interessam pela pesca e nem por outras atividades que envolvem o Velho Chico. O pescador e carpinteiro naval, Wilson Bispo, de 63 anos, lamenta a diminuição da sua produção de pequenas embarcações e a escassez de peixes.

“Eu vivo aqui na beira do rio há 35 anos. O rio era bem cheio. Navegar hoje está difícil, só para quem sabe mesmo, quem conhece. E os peixes estão cada vez mais difíceis de pescar. Muitas espécies a gente não encontra mais”, conta.

“Tem muita barragem e muito esgoto. Precisava zelar mais pelo rio. O esgoto está acabando com o São Francisco. Cai muita areia no rio. Precisa reflorestar as margens. A areia está pura igual ao mar nas margens do rio. Eu acredito que vai ficar cada vez mais difícil, sem água e sem peixe”, continuou o pescador.

Wilson Bispo acredita que só um milagre pode salvar o rio.

“Precisa um milagre de Deus para salvar o rio. Precisa de muita chuva. Nossos filhos não querem aprender a pescar porque o rio não tem mais a fartura que tinha antigamente”.

O comandante Gicelmo Menezes de Castro, de 38 anos, conta que navega no Velho Chico desde criança e se entristece com a diminuição da vazão do rio.

“Devido à falta de água nas cabeceiras, nas nascentes, a gente vem sofrendo com o assoreamento do rio. É muito difícil navegar. Antes era fundo. A gente navegava até a noite. Hoje, até pelo dia está complicado, com esses bancos de areia. Dizem que a revitalização poderia resolver, mas a própria natureza, com a chuva, é que salvaria o rio. Encheria e limparia as águas”, opina o ribeirinho.

“É triste ver o rio assim. Eu cresci navegando no Velho Chico”, lamenta.

O superintendente substituto da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), Pedro William, explica que as chuvas diminuíram significativamente nos últimos cinco anos, e isso tem influenciado para a baixa vazão do rio.

“Nós atuamos em mais de cinquenta municípios da bacia do São Francisco e percebemos a redução da vazão. A maior causa é a redução da chuva, mas também a retenção de água nas barragens. Não tenho como afirmar que a transposição pode ser um fator que influencie tanto”, afirmou.

O superintendente explicou ainda que a Codevasf busca trabalhar na melhoria do saneamento básico das cidades ribeirinhas, para que o esgoto não seja lançado nos rios, além de atuar no desenvolvimento regional.

“Atuamos nas cidades por onde passam todos os afluentes do São Francisco e buscamos usar recursos naturais de forma sustentável na agricultura e apicultura da região”.

O engenheiro de pesca, Álvaro Albuquerque, explicou que a Codevasf também tem investido em projetos para a recuperação da mata ciliar, fundamental para a revitalização do Velho Chico.

“Temos um trabalho de reprodução de peixes e reintrodução das espécies no rio. Também atuamos na recuperação da mata ciliar, com o plantio de mudas e projetos de recuperação ao longo do São Francisco. Também estamos trabalhando a questão do tratamento de água para que o esgoto não seja lançado diretamente no rio”, explicou.

Conscientizar crianças e jovens através da educação

 
O coordenador de Meio Ambiente de Penedo, Paulo Freire, destaca o barco escola como uma iniciativa da Prefeitura Municipal para alertar os estudantes sobre a situação do São Francisco.

“O barco escola é um projeto que a gente trouxe do IMA [Instituto do Meio Ambiente]. É uma aula de campo com uma equipe multidisciplinar onde será explicada a importância do rio e medidas para a preservação do São Francisco para essas crianças e jovens. Nosso objetivo é que ocorra de forma periódica”, afirma.

Paulo Freire contou ainda que o objetivo da Prefeitura é municipalizar a fiscalização do rio.

“Sabemos que o IMA realiza um grande trabalho de fiscalização, mas vamos acompanhar de perto, fiscalizando empresas potencialmente poluidoras e esgotos clandestinos. Esse é um dos nossos grandes objetivos, minimizar as ações do homem contra o rio. Para remediar isso, temos que pelo menos fiscalizar os efeitos antrópicos e recuperar as nascentes”.

O coordenador de Meio Ambiente disse ainda que o município conseguiu a licença ambiental para a estação de tratamento de esgoto.

“Estamos agora buscando realizar obras de esgotamento, da rede coletora de esgoto, para que entre em funcionamento a estação de tratamento. Também estamos com processo licitatório para o plano municipal de saneamento básico, que é um instrumento de gestão pública para saber para onde direcionar a verba pública, com medidas emergenciais”, explicou.

“Todas essas ações convergem para a preservação do São Francisco e a principal é orientar as novas gerações, crianças e jovens. A educação ambiental será nossa grande força e nossos estudantes terão acesso ao barco escola, gincanas, caravanas e diversas ações de conscientização para a preservação do Velho Chico. A cada dia eles tomam mais consciência e com certeza já têm mais do que nossos pais e avós”.

O consultor do IMA, Meraldo Rocha, afirma que o órgão também tem trabalhado a questão da educação ambiental nas comunidades, além de investir no reflorestamento da mata ciliar.

“Estamos intensificando o reflorestamento nas margens do São Francisco e monitorando semanalmente a qualidade da água, com análises. Nós queremos que as pessoas que dependem do rio entendam que o IMA não é somente um órgão que multa e proíbe, mas que trabalha para a recuperação do Velho Chico”, disse.

Rio de água salgada

A baixa vazão faz o mar avançar cada vez mais na foz do Rio São Francisco, em Piaçabuçu. A população reclama da água salgada que chega às torneiras de suas casas e muitos ribeirinhos sobem o rio de barco para encher baldes com água menos salobra.

“Eu nasci em Piaçabuçu e o rio sempre foi cheio de água. Uma água doce, limpa. Agora tem muitos esgotos. As pessoas jogam lixo e quem pesca por aqui, está pegando peixe de água salgada. Os peixes de água doce desapareceram. O mar está invadindo cada vez mais e até tubarão aparece”, conta a artesã Maria dos Prazeres, de 53 anos.

A ribeirinha não tem esperanças de ver o rio voltar a ser o que era antes.

“Eu acho que não tem jeito, não. Agora com a transposição, o rio está baixando cada vez mais. Tem muitos bancos de areia se formando. É triste de ver”, lamenta.

“E a água salgada está deixando muita gente doente, com pressão alta, porque muitas famílias não têm dinheiro para comprar água mineral e acabam bebendo a água salgada que chega na torneira. O número de casos de pressão alta está aumentando muito aqui na cidade. É uma água que não serve nem para cozinhar, fazer um suco ou café”, continuou.

Maria dos Prazeres diz que o São Francisco sempre foi a riqueza do povo ribeirinho.

“Para quem já teve o rio que a gente teve, uma riqueza, é muito sofrido ver essa situação de hoje. A gente pescava na beira do rio. Tinha muita fartura. A gente chegava em casa já com a nossa moqueca. Agora nem arriscamos tomar banho, com medo dos tubarões, né? Isso está prejudicando a vida de quem depende do rio, o turismo e, principalmente, do pobre que tira seu sustento das suas águas. Só um milagre para salvar o São Francisco”.

A engenheira ambiental, Josineide Carmo, explica que a quantidade de sal na água permitida para consumo é de 2mg por litro, e em Piaçabuçu a salinidade já chega a 7mg/l.

“A Casal [Companhia de Abastecimento de Alagoas] puxa a água quando a maré está baixa, quando o rio fica menos salgado, mas isso não soluciona o problema. Famílias estão subindo o rio em seus barcos para buscar água para o consumo”, explicou.

Por conta do problema, a falta de água também tem sido constante nas casas da cidade.

“Lá na hidrelétrica de Xingó, já chegou a ser liberado 2.700 metros cúbicos de água e hoje está em 700, com estudos indicando que ainda deve cair mais. Isso gera uma discussão porque nós precisamos de água, mas também precisamos de energia elétrica e a água é retida para a produção de energia. Mas, sem chuva, a vazão diminui cada vez mais”, disse a engenheira.

A Prefeitura de Piaçabuçu, segundo Josineide Carmo, está com um projeto para a captação de água em outro ponto do rio. “Mas sabemos que a medida é paliativa, já que o mar deve avançar cada vez mais com a baixa vazão”.

Josineide Carmo também destacou o desmatamento da mata ciliar, o assoreamento e a poluição como grandes fatores para a baixa vazão e o avanço do mar no São Francisco.

“Todos esses fatores fazem com que o rio perca a força e o mar avance”.

A engenheira ambiental contou ainda que uma audiência pública será realizada em Salvador, na Bahia, no próximo dia 5 de abril, para discutir as questões relacionadas ao Rio São Francisco. O secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Piaçabuçu, Otávio Augusto, deve participar e fazer a defesa para a preservação do rio.

“A salinização é tecnicamente explicável. Esse fenômeno acontece em função da força da maré. O rio não tem mais força e o mar tem avançado. No nosso povoado de Potengy a salinização está fortíssima”, explicou o secretário.

Otávio Augusto contou que o Ministério da Integração já reconheceu a situação crítica do município e foi conseguido um recurso para mudar o local de captação da água para abastecer a cidade de Piaçabuçu.

“Agora vamos captar a água na altura do Povoado de Penedinho, mas sabemos que é uma medida paliativa. Não sabemos quanto mais o mar irá avançar. Temos sofrido fortes impactos econômicos, ambientais e sociais”, afirma.

O secretário diz que a perda da vazão se dá principalmente por conta da retenção de água na barragem de Sobradinho, na Bahia.

“A concentração de sal no rio tem aumentado cada vez mais por conta da baixa vazão. Hoje não conseguimos sequer abastecer a cidade. Também estamos investindo em saneamento básico e projetos de educação ambiental, sobretudo para a recuperação do rio e a conscientização sobre as questões das matas ciliares. Estamos trabalhando para que o problema seja minimizado”.

Potengy

Mais próximo da foz do Rio São Francisco, o Povoado Potengy é o que mais tem sentido os efeitos da salinização das águas do Velho Chico.

Dona Dida, marisqueira, mostrou a situação da água que sai da torneira de sua casa e disse também que não consegue mais pescar mariscos no rio.

“Faz muito tempo que a água está salgada. É horrível. Temos que comprar água mineral para poder beber ou subimos o rio de barco quando a maré está morta até Brejo Grande, em Sergipe, para buscar água doce. Não sei quando isso vai melhorar. Só quando Deus quiser”, lamenta.

Dona Dida diz que a água do rio não serve para cozinhar e nem para lavar roupas.

“Não faz nem espuma com sabão. O sal não deixa. Só Deus mandando chuva para as coisas melhorarem para a gente”.

Jurandir Santos, um pescador de 62 anos, vive desde os oito anos em Potengy. Ele lamenta a escassez de peixes.

“Até na maré morta a água fica salgada. Eu já deixei a pescaria, me aposentei. O pessoal só pesca mais de tarrafa, poucos peixes, carapeba e tainha. Um quilo ou dois quilos. Alguns pescadores já encontraram com tubarões. Quem era esse rio… Está cada vez mais se acabando. Mataram o rio. Só um mandado do Pai Eterno para salvar”.

Os pescadores de Potengy têm sobrevivido com o seguro-defeso, que recebem durante quatro meses do ano.

O São Francisco

O Rio São Francisco passa por cinco estados e 521 municípios, sendo sua nascente geográfica no município de Medeiros e sua nascente histórica na Serra da Canastra, no município de São Roque de Minas, centro-oeste de Minas Gerais. Seu percurso atravessa o estado da Bahia, fazendo sua divisa ao norte com Pernambuco, bem como constituindo a divisa natural dos estados de Sergipe e Alagoas e, por fim, deságua no Oceano Atlântico drenando uma área de aproximadamente 641 000 km². Seu comprimento medido a partir da nascente histórica é de 2 814 km, mas chega a 2 863 km quando medido ao longo do trecho geográfico.

O rio São Francisco, possui seis usinas hidrelétricas, atravessando regiões com condições naturais das mais diversas. O Velho Chico apresenta dois estirões navegáveis: o médio, com cerca de 1.371 quilômetros de extensão, entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA) / Petrolina  (PE) e o baixo, com 208 quilômetros, entre Piranhas (AL) e a foz, no Oceano Atlântico. 

Fonte: Thayanne Magalhães

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