Histórias das Copas

28 de junho de 2018 16:59

Um estranho no ninho da Pátria de Chuteiras

↑ Alagoano David e a filha Jelic Melissa ostentam a bandeira da seleção do coração: Croácia, time dos quadradinhos vermelhos (Foto: Adailson Calheiros)

Um alagoano inusitado nascido na pequena Atalaia não está nem aí para a chamada “Pátria de Chuteiras”, expressão popularizada em épocas de Copa do Mundo no Brasil. Como se sabe, nesses tempos de ufanismo desvairado, a paixão pelo esporte mais popular do mundo é capaz de extrair do brasileiro o que ele tem de mais passional, entenda-se ou não de futebol.

Enquanto a grande maioria dos brasileiros aguarda ansiosamente a canarinho jogando – e vencendo – na maior competição de futebol do planeta, o jovem David Fonseca Pimentel, 34 anos, não cabe em si, tamanha a emoção de se imaginar na tv, no estádio, assistindo aos jogos e vibrando pelos jogadores que representam a “Pátria de Chuteiras” tão amada por ele.

Ôpa, mais alto lá! 

A tal da “pátria de chuteiras” para David, apesar de brasileiro, não tem nada a ver com verde e amarelo. David não é torcedor do time canarinho, mas sim um fanático pela seleção da Croácia, paixão que nasceu na Copa da França, em 1998.

E todo esse fanatismo pode ser observado assim que se entra na casa de David, localizada no Condomínio Recanto das Águas, no município de Satuba. Para começar, a casa do estranho no ninho é logo percebida ao se avistar um mastro bem alto, onde tremula uma bandeira com as cores que denunciam que existe algo estranho ali. Ao invés de uma bandeira em verde e amarelo, vê-se uma outra com as cores em azul, vermelho e branco.

Segundo ele, o amor incondicional à “Hrvatska”, como é conhecida a Croácia entre os nativos, nasceu durante o Mundial de 1998. À época,  capitaneados pelo atacante Davor Suker, os croatas chegaram ao heroico terceiro lugar da competição.

O amor é tanto que até o nome da sua única filha é em croata. A pequena Jelić Melissa, de 9 anos, é registrada assim em homenagem a uma jogadora de vôlei do país.

Desde o terceiro lugar na França, David iniciou uma verdadeira coleção de artigos relacionados à seleção croata. São meiões, casacos, bandeiras, cachecóis, sandálias, CDs e bolas, totalizando mais de 30 produtos. Até carteirinha oficial fornecida pela Federação Croata de Futebol ele possui. “Me amarrei na Croácia na Copa da França porque eles me chamaram muito atenção ao jogar com uma camisa quadriculada. Aquilo ficou na minha cabeça, achei lindo e comecei a torcer e me aprofundar a tudo  que se referia à Croácia”, conta o inusitado torcedor croata das Alagoas.

“Nunca acompanhei o futebol com tanto amor assim, até um jogo em especial na Copa de 1998. Croácia e Alemanha pelas quartas de final, em partida que ninguém esperava que uma seleção pequena, que não tinha nem dez anos de independente, chegasse a uma semifinal. No final, nós ganhamos por 3 a 0. Daí pensei: ‘Já sei pra quem torcer’. Então comecei a acompanhar a Croácia feliz, tanto que dei o nome da minha filha em homenagem a uma croata, a jogadora Bárbara Jelić”, completa David.

E a paixão fervorosa pela seleção croata foi tão intensa, que na Copa de 2014 David não quis saber de ver sua paixão por tv de jeito nenhum. Juntou dinheiro e comprou ingressos para ver a Croácia em terras brasileiras. “Pena que a seleção não foi bem aqui no Brasil, desclassficando-se ainda na primeira fase”, recorda.

Mas quem pensa que a paixão se resumiu ao ver a seleção quadriculada no Brasil, engana-se. O fanático brasileiro conheceu um casal croata durante na Copa de 2014 e o ano passado foi bater no “seu país” de coração.  Lá, o sujeito virou até notícia em um dos tabloides esportivos mais influentes da Croácia. “Foi um sonho que realizei. E o melhor: tudo de graça por causa desta casal amigo. Pretendo se Deus permitir voltar lá e quem sabe até me tornar um cidadão croata”, assume. Sobre as possibilidades de a Croácia repetir o feito da Copa da França este ano na Rússia, David resume.  “Temos um bom time e já vencemos a primeira partida. Quem sabe se a gente não cruza com o Brasil mais na frente”, desafia. E para quem ele vai torcer se isso ocorrer, alguém tem alguma dúvida?

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