Histórias das Copas

28 de junho de 2018 11:22

Testemunha lembra derrota brasileira em 50

↑ Alcides Edgardo Ghiggia (Uruguai), silencia o Maracanã.

O jornalista Nelson Ferreira, o mais alagoano dos cariocas, foi testemunha ocular da tragédia do Maracanazzo, em 1950, com seu pai, quando foram às lágrimas, junto aos 200 mil torcedores que lotavam o estádio Mário Filho, o Maracanã, construído exatamente para a primeira Copa do Mundo no Brasil. Nelson ainda era um garoto de 10 anos, quando viu o inacreditável time celeste do Uruguai virar o jogo por 2 a 1, e levar o caneco em pleno solo brasileiro, no que o cronista Nelson Rodrigues chamou de o “maior velório da face da Terra”.

“Era uma expectativa muito grande, principalmente para mim, tinha um duplo significado. Porque eu sou vascaíno, meu pai foi conselheiro do Vasco, e eu um atleta de remo do clube, até os 29 anos, e o Vasco foi a base da seleção de 1950 e era do poderoso ‘Expresso da Vitória’, que tinha conquistado a Copa América (hoje o equivalente à Copa Libertadores). O goleiro Barbosa, o zagueiro Augusto (capitão do time), os meias Eli e Danilo, além dos atacantes Ademir e Chico, e mais o técnico Flavio Costa. O Gigante da Colina tinha até o massagista Mário Américo. O cruzmaltino Ademir Menezes sagrou-se artilheiro da Copa, com nove gols”, lembra Nelson.

O jornalista assinala que o Brasil jogava pelo empate, mas aí surgiu o imponderável: a virada do time azul, com gol do Gigghia, no contrapé do goleiro Barbosa, acusado por muita gente como o culpado pelo gol. Uruguai 2 a 1, de virada. Silêncio e choro no recém-inaugurado Maracanã. Luto em todo o país. E o início de uma das maiores injustiças do futebol, que marca o destino de Barbosa, apontado como o maior culpado pela derrota. “No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”, costumava dizer décadas depois do incidente o ídolo do Vasco da Gama.

“Ninguém no mundo todo pensava que o Brasil pudesse perder. Na época foi uma loucura. Edições de jornais já usavam manchetes do tipo ‘Brasil Campeão’. Se dizia também que paraquedistas estavam preparados para saltar no gramado do Maracanã. Muitos brasileiros já faziam festa antes do jogo. E tudo ficou mais fácil ainda, pois o Brasil fez o primeiro gol com Friaça no primeiro minuto do segundo tempo. Mas o Uruguai fez dois, inclusive aquele célebre chute de Gigghia que entrou na meta de Barbosa, e definiu o jogo”.

Nelson defende o goleiro Barbosa, pois ele estava de olhos bem abertos no lance fatal.

“Eu estava de olho na bola, e não considero que foi uma falha de Barbosa. O Uruguai jogava muito pela direita, com Gigghia centrando a bola para a área. O Barbosa foi traído. Quando ele se preparava para sair do gol e cortar o cruzamento de onde o jogador uruguaio chutou, quase perto da linha de fundo, a possibilidade de fazer o gol era muito remota. A tendência era um passe cruzado e o Barbosa foi pego no contrapé. Pareceu aquele gol do Ronaldinho contra a Inglaterra na Copa de 2002”, comenta Nelson Ferreira.

E na fatídica data de 16 de julho de 1950, a seleção brasileira chegava à final com grande entusiasmo popular e um favoritismo quase inabalável, após ter marcado 21 gols e acumulado goleadas como a de 6 a 1 ante a Espanha e a de 7 a 1 contra a Suécia. “Foi uma tristeza muito grande, o estádio inteiro chorou, meu pai chorou, eu também chorei muito. E olha que a gente vinha embalado, em jogos que eu assisti também, como Brasil e Espanha. Uma goleada de seis a um, como todo mundo do estádio cantando Touradas em Madrid, do compositor Braguinha. Eu fui à tourada em Madrid, parara ti bum-bum-bum!”, cantarola o jornalista.

Nelson Ferreira – Testemunha do Maracanazo

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