Histórias das Copas

28 de junho de 2018 12:27

O brilho dos tricampeões turbinados

↑ Final da Copa do México - 1970 - Brasil x Itália

Foi um Brasil celestial esse que conquistou o tricampeonato no México e a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Outras seleções valorizaram a histórica vitória. Itália, Inglaterra, Uruguai e até o Peru empolgaram durante uma competição atípica, disputada sob o sol forte do meio-dia e efeitos da altitude. O tri foi resultado de seis inquestionáveis vitórias em seis jogos. Com cem por cento de aproveitamento, igualou-se ao Uruguai em 1930, e a Itália, em 1938. Nenhuma novidade tática apresentou a seleção brasileira em 1970. Seus gênios, sim, fizeram a diferença. Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivellino e Gerson encantaram o mundo com sua criatividade. Os outros se espalharam pelo campo com suas funções, sem prejuízo ao talento.

Altitude e calor obrigaram as equipes a cadenciar o jogo. O Brasil mesclava a cadência com momentos de impressionante velocidade. Parecia ligado em turbo. Mas, para que isso acontecesse, eram necessários, além de um meticuloso trabalho de preparação física, passes e lançamentos precisos. Com um punhado de craques, tudo ficou mais fácil. E ainda sobrou aplicação tática. Pelé e Tostão eram vistos na defesa, marcando. De onde teria surgido a lenda de que eles não poderiam jogar juntos?

Também havia jogadores com físico superior e explosivo para os momentos difíceis. A seleção brasileira era um conjunto de atletas para qualquer tipo de situação. A habilidade e os deslocamentos de Tostão facilitavam a vida de jogadores como Jairzinho, que se tornou o artilheiro da seleção no México. O goleiro Felix, para muitos, não confiável, fez grandes defesas em momentos dramáticos para a nossa seleção.

Vencemos e convencemos. Na estreia, derrotamos a Checoslováquia por 4 a1, quando começamos perdendo por 1 a 0. Passamos pela Inglaterra e tomamos um susto contra a Romênia. Como campeões do grupo C, enfrentamos e vencemos o Peru, dirigido pelo brasileiro Didi, por 4 a 2.  Na semifinal, cruzamos com os uruguaios. A vitória era a passagem para a final. Viramos um jogo sensacional, ganhamos por 3 a 1 e partimos para a decisão contra a Itália. Nunca uma Copa do Mundo foi mais para o Brasil. Nunca tantos tabus foram derrubados por essa tríplice vitória, cujo cenário grandioso foi o belo Estádio Asteca.

A Itália caiu por 4 a 1. E caiu de pé. Respeitou a superioridade brasileira e se curvou diante da habilidade dos tricampeões. Ninguém deixou de ter a sua influente e decisiva participação no triunfo. O preparo físico foi irreparável. O plano tático exemplar. A consciência do dever a cumprir, indissolúvel. Ninguém saiu do Brasil para ostentar vaidades pessoais. Ele foi cumprido, do primeiro ao último dia, do primeiro ao último minuto da batalha.

Só faltava dobrar o orgulho da Itália para que a taça do mundo passasse para nossas mãos. Ela passou de forma cristalina, calçada por uma exibição inesquecível. O primeiro tabu a morrer no México foi o cisma de que a taça seria eterna. Provamos que não. O segundo foi a pujança com que vencemos o Uruguai, cobrando uma dívida injusta que vinha rendendo juros há vinte anos.

A festa no Estádio Asteca, que tinha duração prevista para duas horas, passou das três. Houve invasão de campo. Pelé acabou de sunga e, se Tostão não ficasse brabo, terminaria nu. Estiveram presentes 110 mil torcedores. Houve transmissão direta para toda República Mexicana, América, Europa e Ocidente próximo.

No Brasil, a comemoração foi total. A oração da vitória e a bandeira ganharam formas de oferenda a um Deus que dizem brasileiro. Sua graça nos deu a vitória e o homem simples se ajoelhou agradecendo a graça tão esperada.

Artigo de Lautheney Perdigão – Escritor, jornalista, desportista e ex-jogador de futebol, curador do Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa – Dida

Lautheney Perdigão

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