Histórias das Copas

28 de junho de 2018 17:39

O boteco e seus impagáveis comentaristas

↑ Meme - 7 x 1 - Brasil x Alemanha - (Foto reprodução)

O lugar da Terra onde há a cerveja mais quente do mundo é no Bar Saara, lá para as bandas da vizinhança entre Dois Riachos, Jacaré dos Homens e Santana do Ipanema, onde o sol gosta de lamber o chão e bater na canela e por isso mesmo é conhecido como o Triângulo do Alasca. Fina ironia popular. O nome Saara surgiu, segundo o dono, por uma apologia à sede de beber, ao calor, para a turma sentir vontade de entornar mais. E ele ainda capricha o sal no tira-gosto de bode, a especialidade da casa. Isso implica pedir uma cerveja classicamente gelada. Mas a proposta do bar resultou em efeito contrário, pois a geladeira é sempre desligada a noite toda até cinco minutos antes de a turma começar a frequentar o recinto, para poder economizar energia elétrica.

Claro, as piadas por causa disso não ficam despercebidas. Um diz: ‘Seu Pinguim, traga uma cerveja bem quente, só pra eu não ser contrariado’. Outro noutra mesa grita: ‘Seu Pinguim, me traga a última cerveja do deserto! ‘. E mesmo ligado durante o movimento do boteco, o coitado do refrigerador perde feio para o calor socioambiental. Por causa disso, o dono passou a ficar conhecido como Seu Pinguim – ele é o único frio nessa história – e assim, o boteco e o dono passaram a ser uma única instituição: Pinguim do Saara.

Mesmo com toda a cerveja competindo com o Inferno de Dante, é ali o lugar das resenhas, sobretudo as esportivas. Quando não há jogo, falar mal do político é o segundo esporte predileto. Um lugar para sentar vai, nessas ocasiões, a leilão, tamanha a procura, com lance mínimo de um consumo correspondente a quatro grades de cerveja, pagas adiantado, que, aliás, funcionam como tamborete e ‘geladeira’. Basta pegar embaixo uma cerveja, aberta no dente quando o Seu Pinguim demora com o abridor. Nada tão prático. Durante a Copa, a geladeira é apenas um depósito de reposição de peças etílicas das geladeiras-tamborete. E no calor da farra, sem que ninguém note, Seu Pinguim ainda se aproveita da empolgação dos bebedores e desliga a bichinha. Princípios de sustentabilidade postos em prática.

Nunca na vida, durante a última Copa do Mundo, conhecida também como a do 7 a 1, houve tantos comentaristas reunidos num só lugar como no Pinguim do Saara. Em cada gole, um comentário magistral. E aparecia comentarista parecido com a loira do nariz de cadáver, personagem inesquecível de Nélson Rodrigues que nunca viu a bola de futebol. Só faltou dizer, como a loira de Nélson: ‘quem é a Bola? ‘.  Numa das mesas, enquanto o jogo do Brasil rolava, e eu me refiro à recente Copa de 2014, havia um torcedor presente e no silêncio inusitado de um lance comentou: ‘O jogo já está nos quarenta minutos do segundo tempo e ainda não vi o Rivellino pegar na bola’.

Mas o bom mesmo eram as comparações. Bastava alguém fazer uma simples observação sobre o jogo, assim como: ‘O esquema do Felipão está mais complicado do que calça de polvo’ para surgir imediatamente uma competição de comentários.  Lá de outra mesa, outro intervém: ‘E tu nunca viu o mar pra entender de polvo’. Um terceiro completa: ‘Nunca viu polvo, mas já viu pinguim! ’. Isso olhando para o dono do boteco.

Seu Pinguim, para manter a tranquilidade no boteco, regulava: ‘Vamos ficar no futebol ’. E quando a seleção brasileira começou sua via crucis diante da Alemanha, a saraivada de comparações saía de cada mesa e era incontrolável: ‘Esse time do Felipão está mais desorientado do que mortadela em sorvete’. Outro completava: ‘O time está mais perdido do que o Adão no Dia das Mães’. Bastou isso para um pagão, já tungado, sapecar: ‘Mais perdido do que Jesus no Dia dos Pais’. Levou uma vaia geral e caras feias, obrigando o Seu Pinguim a aparecer com um cartão vermelho e expulsar do recinto o comentarista, sem direito às quatro cervejas que restavam em seu tamborete-geladeira.

Mas os ânimos não se apaziguaram.  A cada gol da Alemanha, os comentários se alternavam. As comparações se sucediam. Sobrou até para o David Luiz, tido como o mais aguerrido daquele frágil time: ‘Esse jogador é como o cabelo dele, mais enrolado do que copo de cristal para viagem’. ‘Contra time grande o Neymar fica mais escondido que peito de freira’. Citar a freira mereceu um cartão amarelo do Seu Pinguim. E diante da goleada iminente, com o time totalmente entregue, só restavam as comparações impagáveis: “Esse time é mais inútil que cinzeiro de moto’; ‘Esse time está mais perdido que o Tarzan numa reunião de condomínio’. Até aparecer um torcedor ufanista e dizer: ‘Mas a Alemanha é mais perigosa que cirurgião com soluço’. Aí foi um balde de água gelada.

 

Artigo: Pedro Cabral – É arquiteto e urbanista alagoano, professor, pintor e artista visual

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