Histórias das Copas

28 de junho de 2018 17:45

Mané Garrincha é o Rimbaud do futebol mundial

O botafoguense, cronista e poeta Paulo Mendes Campos, é autor de pelo menos três crônicas memoráveis sobre Manuel dos Santos, o Mané Garrincha. Um de seus mais célebres perfis de Garrincha está o que compara o craque ao genial poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891), um artista incendiário que foi adorado pela juventude existencialista e os beats americanos. Nesta crônica, Campos fez um desenho do ponta-direita do Botafogo, que integra hoje o acervo do Instituto Moreira Salles, que tem a guarda da obra do cronista mineiro. “Garrincha é como Rimbaud: um gênio em estado nascente”, escreveu Paulo Mendes Campos. Leia trecho:

“Quando ele avança tudo vale. A ética do futebol não vigora para Mané. O fair-play exigido pelos britânicos é posto à margem pelos marcadores, pelos juízes, pelas torcidas. Regras do association abrem estranhas exceções para ele. Uma conivência complacente se estabelece de imediato entre o árbitro e o marcador, o primeiro compreendendo o segundo, fechando os olhos às sarrafadas mais duras, aos carrinhos perigosos, aos trancos violentos, às obstruções mais evidentes. Quando esses recursos falecem, o marcador em desespero, sem medo ao ridículo, agarra a camisa de Garrincha. Aí o juiz apita a falta, mas sem advertir o faltoso: o recurso é limpo quando se trata de Garrincha. “Todos os jogadores do mundo”, ensina professor Nilton Santos, “são marcáveis, menos seu Mané. Mané em dia de Mané só com revólver”…

Em 1950, enquanto 200 mil brasileiros penavam no Maracanã, enquanto todo o Brasil carpia diante do rádio, Garrincha caçava passarinho nas capoeiras da Raiz da Serra. Friaça fazia o primeiro gol, uma rolinha caía morta. Schiafino empatava para os uruguaios, um tiziu levava chumbo. Gigghia enfiava a bola da amargura nacional entre Barbosa e a trave, Garrincha derrubava com um tiro uma outra garrincha. Sim, foi um desastre de trem, o trem chamado Brasil descarrilou ao entrar na estação terminal; todos os brasileiros saíram gravemente feridos, menos Manuel Francisco dos Santos, o caçador que oito anos mais tarde arrasaria o plano quinquenal soviético para o futebol, destruindo depois o cartesianismo francês, comendo a Suécia impecável por uma perna. O caçador que doze anos mais tarde traria de novo para o Brasil a Copa Jules Rimet.

Garrincha é como Rimbaud: gênio em estado nascente. Se um técnico desprovido de sensibilidade decide funcionar como cérebro de Garrincha, tentando ser a consciência que lhe falta, isto é, transmitindo-lhe instruções concretas, lógicas, coercitivas, pronto – é o fim. O grande mago perde a espontaneidade, o espaço, o instinto, a força. Em vez do milagre, que ele sabe fazer, ensinam-lhe a fazer um truque sensato. Não pode haver maior tolice”.

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